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Ano de vida a bordo

A vida a bordo do Itacaré esta sendo pra gente uma grande escola da vida

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E não é que piscamos o olho e o tempo voou?! Cá estamos …comemorando nosso primeiro aniversário de vida a bordo. E como a vida passa rápido! Se eu tivesse na cidade, na minha vida anterior, andando de paletó e gravata sem tempo pra lá e pra cá,  talvez eu soltasse um palavrão por não conseguir frear o tempo. Mas hoje não posso fazer isso, seria injusto – afinal estamos vivendo nosso sonho.

Temos sim que agradecer a Deus pela oportunidade e pela proteção que tivemos até então. Foram 6 países navegados até aqui, muita água por debaixo do casco, milhares de ancoragens, muita gente legal que cruzou nosso caminho, poucas quebras, poucos sustos e grandes aprendizados. Sem dúvida o saldo é disparado positivo.

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Você ai que nos lê e nos acompanha talvez ache que nossa vida aqui seja a vida perfeita dos sonhos, repleta de momentos fantásticos e dias inesquecíveis. Pois eu tenho uma coisa pra compartilhar com você.

Saber lidar com o barco, aprender a fazer as manutenções, aprender a lidar com as travessias, aprender como provisionar para lugares mais remotos, estudar os lugares e suas ancoragens, saber interpretar a previsão do tempo, lidar com o mau humor do tempo e do mar, e por fim (muito importante), se enquadrar a nova realidade financeira (sem salário) e de orçamento apertado, em que todo mês é uma luta fazer as despesas se caberem no bolso….. Tudo isso passou a fazer parte do nosso cotidiano.

E como tudo na vida, depois de um tempo …chega uma hora que você pisca o olho e sem perceber tudo parece normal e não mais te assusta. O mar, o vento, as ondas, a maré… Se enfiar no motor para revisar alguma coisa, subir no mastro pra catucar outra coisa lá em cima…. Tudo parece normal sendo parte do dia-a-dia.

Engraçado que nessa hora você tende a olhar para o gramado do vizinho, e por lapsos de segundo deixa de valorizar o que tem a volta. Eita como o ser humano é um bicho insatisfeito por natureza! Quanta gente você conhece a sua volta que não controla esse sentimento e se perde pelo caminho não dando valor a própria vida ?

Nossa vida a bordo é repleta, sim, de momentos perfeitos, dias inesquecíveis com ancoragens fantásticas de água calma e cristalina. Mas como tudo na vida, temos sim nossos altos e baixos – assim como também o tínhamos quando morávamos na cidade.

Passar horas no ar condicionado, andar de carro, dormir em uma cama normal, comer em restaurante, botar o pé descalço em chão frio, apertar um botão e a água sair farta e interminável, olhar a chuva forte derrubando tudo enquanto você olha seguramente da janela do seu apartamento…. Esses são prazeres do cotidiano que você deve ter hoje e nem percebe, e que passaram a valer ouro pra gente.
Assim como na antiga vida na cidade, temos na nossa vida atual coisas muito boas e coisas difíceis. Afinal cada escolha, uma renúncia. Faz parte.

Antes eu vivia ansioso olhando pro futuro. Hoje nossos sentimentos são bem mais primitivos, mais “selvagens”, um dia por vez. Para o bem e para o mal. Por vezes sofremos com o calor ou com o mal tempo. Por vezes, as tarefas simples do dia a dia se tornam uma gincana. Comprar gás em uma ancoragem remota pode se tornar um baita desafio, assim como ir ao mercado pra comprar cebola e tomate.

Dependendo da forma como você enxerga, da forma como você encara tudo isso o cotidiano pode te dragar se tornando um problema tão grande destruindo o prazer e a beleza do momento. Será que é diferente pra você ai na cidade ?

Meu remédio para esse problema é muito simples, sendo o mesmo que eu tomava antigamente: nas horas difíceis costumo relembrar o quanto lutamos para chegar até aqui. E costumo também sempre listar tudo aquilo que esta me incomodando e tento criar rapidamente uma lista de tarefas. Se quebrou, tento concertar. Se vai ventar muito, mudo a ancoragem pra águas mais protegidas. Simples assim. Afinal, ficar reclamando da vida igual a um garotinho e deixar os problemas se empilharem não vai te levar a lugar nenhum.

Mas deixa eu ir um pouco mais fundo…

Apesar dos prazeres e desprazeres da nossa vida a bordo você sabe qual a parte mais legal da nossa vida hoje ? O convívio em família.

E você consegue chutar ai também qual é a parte mais difícil da nossa vida hoje ? Pois então, justamente o convívio intenso em família.

Antes era mole. Eu terceiriza (menos a mulé!). Os filhos estão enchendo o saco?! Deixa eles descerem pra casa dos amigos! Tá muito difícil o final de semana, … Ufa, chegou segunda, entrega eles pra escola! Está no meio do verão e acabou a escola? Fácil! Envia pra colônia de férias ou vamos pra casa de amigos.

Você ja se imaginou ficar colado com seus filhos 365 dias, 24 horas por dia, todos os dias da semana, faça calor, faça frio ?

PS: No frio é mais fácil, pois você põe um filme e se enrola no lençol com eles. Mas é no calor que o bicho pega rapaz… e, às vezes, da vontade de pendurar um no mastro!

Pois é, como você se prepara pra isso ?

Anos atrás – em tempos de preparação – tive o prazer de jantar com o Vilfredo Schurmann e lembro que perguntei para ele “Vilfredo, qual o maior desafio da vida a bordo?”Você adivinha a resposta ? Na minha santa ansiedade náutica jurava que ele fosse falar da previsão do tempo, do barco, das manutenções, do dinheiro, mas que nada! “O maior desafio é a convivência, Rodrigo”, disse ele.
Capitão sábio, vivido. Ele está repleto de razão! Hoje sinto na pele este desafio.

Como ser um bom pai ? Como ser um bom educador ? Como tornar nossas aulas na homeschooling mais interessantes ? Como tornar os dias da minha família mais agradáveis, mesmo quando pingo rabugento de suor em um dia ruim ?

A vida a bordo do Itacaré esta sendo pra gente uma grande escola da vida.

Já aprendemos a como melhor lidar expostos aos desafios da mãe natureza, passamos também a dar valor a nossa cultura justamente por conhecer novas culturas, passamos a dar valor as pequenas coisas da vida justamente pois várias delas nos faltam.

Mas talvez agora estejamos a frente de um dos mais importantes aprendizados neste projeto. Agora estamos sendo forçados (na marra!) a evoluir como gente. E este desafio tem a ver com auto conhecimento, repensando nosso papel como pai, como marido, como educador, …sem terceirizações ou apoios externos.

Enfim.. é isso galera, vamos avante! Hoje celebramos 1 ano de Itacaré! E tem sido uma grande experiência de vida! Obrigado a você pelas energias positivas e por nos acompanhar até aqui!

Em breve um post contando um pouco sobre nossas andanças pela costa leste dos EUA. Estamos neste momento em Saint Augustine, na Florida, subindo a costa devagar… sem pressa. Até!

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