Gravidez

Mulher que teve os três filhos em casa conta sua experiência

Claudia Pucci Abrahão optou pelo parto domiciliar nas três gestações e escreveu um livro para narrar como foi cada um dos nascimentos

A REDAÇÃO PAIS&FILHOS

Claudia com seus filhos Pedro, Gabriel e Francisco

Claudia com seus filhos Pedro, Gabriel e Francisco

Claudia Pucci Abrahão fez um relato sincero dos seus três partos e reuniu as histórias no livro Canto da Terra. Ela optou por dar a luz em casa, ao lado da família e acompanhadas por uma parteira, e decidiu compartilhar suas experiências.

Claudia é mãe de Pedro, Gabriel e Francisco e seus três filhos nasceram de parto domiciliar. Ela acredita que o parto é ritual de comemoração, não uma doença que deve ser curada dentro do hospital. Por isso, a autora optou pelo parto natural, onde pode ser protagonista de todo o processo. “Se eu quiser dançar a macarena e depois gritar, e depois chorar, e depois chutar uma bola, ou ficar recolhida na água, posso tudo! É um poder extraordinário”, conta ela. Claro, Claudia reconhece que os hospitais salvem a vida de muitas mães e bebês, mas não vê porque as mulheres saudáveis devam se submeter aos hospitais para terem seus filhos.

Entrevistamos a autora e ela contou tudo o que pensa sobre o assunto e ainda adiantou um pouco do que vamos encontrar em seu livro, cujos trechos serão interpretado no lançamento pelas atrizes Daniela Barros e Rubia Reame.

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1) Por que você decidiu fazer o parto dos seus filhos em casa? Como foi esse processo?

Desde o início, eu queria viver um parto humanizado. A ideia de uma criança acabar de chegar ao mundo e ser imediatamente revirada e apartada da mãe me gerava um sentimento horrível, quase irracional. E também fiquei instigada com o tabu da dor: por que todos os movimentos que perpetuam a vida geram prazer, e justo esse momento tão sagrado está contaminado dessa atmosfera de sofrimento? Eu não me conformava com isso, confio que tudo o que acontece naturalmente tem um sentido profundo, então quis viver essa experiência sem anestesias para entender do que afinal se trata esse momento, sem os temores de um sistema de crenças contemporâneo influenciado pela ganância dos sistemas de saúde.

Quando engravidei do meu primeiro filho, um casal de amigos nos contou sobre a Vilma Nishi, a parteira que me assistiu em todos os meus partos. Quando soube que ela fazia parto domiciliar, a princípio fiquei assustada, mas curiosa. Não tinha certeza que teria coragem para isso. Marcamos uma consulta com ela e lá mesmo decidi. Ela de cara falou: “Vocês vão ter que me convencer que querem um parto em casa”. Gostei. E senti firmeza de cara, mesmo conhecendo a Vilma naquele dia. Depois comprovei não só sua experiência e seu repertório para lidar com situações diversas, mas também o tamanho da sua entrega e sensibilidade.

2) Antigamente, muitas mulheres tinham os filhos em casa e atualmente muitas mães têm optado pelo parto em casa novamente. O que essas mudanças de comportamento mostram para você?

Eu acho que ter um filho em casa não é menos seguro. Ao contrário, você está no seu ninho, com pessoas queridas, pode fazer  que quiser sem preconceitos, sem alguém te mandando ficar quietinha. Se eu quiser dançar a macarena e depois gritar, e depois chorar, e depois chutar uma bola, ou ficar recolhida na água, posso tudo! É um poder extraordinário. Se a gravidez não for de risco, não há perigo algum, é um processo da vida. Mas não faço disso uma bandeira: cada mulher escolhe o que vai trazer mais tranquilidade. Se alguém se sente melhor num hospital, melhor que faça essa opção, sempre digo isso.

Também não renego o hospital, bem-vindo seja esse lugar e sua equipe para salvar casos em que o parto se faz complicado demais, casos de nascimentos prematuros e tantos outros incidentes. Meu pai é médico, passei minha vida vendo a dedicação dele ao ofício, não tenho problema com isso. Mas pelo menos para mim, hospital é um lugar para onde se vai quando acontecem acidentes, não como um lugar de viver um ritual, entende? Eu não faria meu casamento num hospital, nem uma festa de aniversário, nem um ritual de meditação. O nascimento dos meus filhos é algo que se encaixa nessas categorias, não em um problema de saúde. Mas é claro que ter um hospital próximo é um direito assegurado, algo que uma sociedade conquista, com certeza.

Claudia fez até uma mandala em sua barriga na última gravidez para trazer boas energias para o parto

Claudia fez até uma mandala em sua barriga na última gravidez para trazer boas energias para o parto

Porém eu acho que esse retorno ao parto domiciliar é também uma grande conquista. Especialmente porque tem que enfrentar muitos preconceitos. Só posso falar do que eu vivi e do que vi acontecer ao meu redor, com muitas amigas que também optaram por isso: é uma experiência arrebatadora. Cruzar esse limiar da dor, perceber que você é muito mais que um suposto sofrimento, dar-se inteira para que um ser amado cruze seu portal pra existência, e poder viver tudo isso de forma lúcida é maravilhoso. Tem poderes que só aparecem nesse limiar. Todos os medos superados, todos os limites internos cruzados, tudo isso fica tão registrado no corpo, no ser, que é impossível ser a mesma pessoa depois. É uma fortaleza que vem de dentro, suave, definitiva, e é um presente que fica por toda a vida.

Eu acho que muitas mulheres tem sentido esse chamado, e por isso o parto domiciliar tem crescido. Por sorte (e muita militância de muitas mulheres), o aumento da demanda vem acompanhado de um movimento de parteiras, doulas e possibilidades que podem acolher essas tantas mulheres que buscam esse tipo de experiência. É um chamado por uma experiência viva, de conhecer o próprio corpo, de poder acolher a cria sem pressa, de viver na integridade esse sentimento. Aí, quando se vive isso, não tem como não compartilhar. Não é um processo de convencimento: o falar dessa experiência gera desejo de experimentar, porque é vivo. Eu acho que é isso o que vem acontecendo hoje. E é por isso que escrevi esse livro. Não para contrapor a outras formas de parto, mas para verticalizar nessa opção, contar minhas experiências, porque muita gente chega até mim com dúvidas, querendo ouvir como foi. Então eu conto.

3) Quais os cuidados que a mulher precisa ter e as precauções que deve tomar para decidir ter os filhos em casa?

Não sou especialista, então só vou dizer o que a Vilma sempre me recomendou: fazer todos os exames, verificar sempre se as condições do bebê são propícias, mexer muito o corpo. Também não pode ser prematuro, em geral, salvo raros casos. Esses são os “quesitos físicos”. Internamente, ter conexão com o bebê, com o próprio corpo, viver realmente a gravidez. Se tiver um parceiro, afinar essa parceria, não ter nada pendente, preparar o ninho não apenas fisicamente, mas emocionalmente. Ficar na escuta, abrir espaço interno, ir se desfazendo de crenças limitadoras que possam atrapalhar o caminho, “travar” o processo. Tudo isso se vive durante a gravidez.

Também ajuda já pensar num “plano B”, caso aconteça algum problema no trabalho de parto que impeça a criança de nascer. Já saber para onde ir, deixar um médico de sobreaviso. No parto do Pedro e do Gabriel eu nem tinha essa opção, nem pensei nisso, mas no último, como eu havia vivido um aborto espontâneo um ano antes e fiquei preocupada, isso ajudou a não ficar com essa pendência, mesmo sabendo que não queria essa opção.

4) Quais os benefícios que os partos em casa trouxeram para você? Você percebeu quais diferenças entre outras mães que acabam optando pelo hospital, por exemplo?

Fisicamente: Nenhuma dor pós-parto, no dia seguinte podia me dedicar 100% para meus filhos. Claro, há um resguardo necessário, mas é um cuidado, não uma dor. Em termos logísticos, o bebê já está em casa. Nasce no ninho, e lá fica. Não tem pessoas estranhas, não tem nada que interfira. Só saímos depois de uma semana para fazer o teste do pezinho, ir ao pediatra, essas coisas. Emocionalmente: é maravilhoso. Poder segurar o bebê o tempo que quiser, ver o pai cortar o cordão, poder ficar com ele sem que alguém te diga o contrário, sem ter que lidar com um protocolo hospitalar. Bom, isso pra mim é benefício. Pode ser que outras mães não sintam assim, e respeito, estou falando da minha experiência.

Mas acho importante dizer (e digo no livro) que não gosto de ficar comparando, porque a comparação já traz um juízo de valor. Bom é aquilo que te deixa em paz, e para cada uma isso tem um significado. Tenho amigas que foram a um hospital, muitas até fizeram cesáreas, e nem por isso são “menos corajosas”, ou vivem menos a maternidade. Se escrevo esse livro não é para dizer que “assim é melhor”, mas para dizer àquelas que querem experimentar, que sentem mesmo esse chamado, que vale a pena.

5) Você não sentiu medo ou dúvida ao optar pelo parto em casa? Como foi isso?

Claro que sim! Medo e dúvida é o que quebra a gente no meio, mas isso me acompanhou o tempo todo, inclusive na hora do parto. Como já disse, o que a gente aprende pesa na cabeça o tempo todo, especialmente na primeira vez. No livro, coloco isso de forma alegórica, inclusive: meus medos e preconceitos foram condensados em um personagem interno (que eu chamei de Controlador da Vida, na falta de um nomezinho melhor), e em dois partos (do Pedro e do Francisco) tive que me debater com essa figurinha desagradável.

O nascimento do Gabriel foi tão surreal que nem tive tempo pra isso, mas na maioria das experiências eu tremia que nem gelatina. Então eu percebi que a coragem não é o oposto do medo, mas o que te leva ir além dele. E agradeço muito esse confronto, porque esse inimigo é o mesmo que me impede de realizar muitas outras coisas na vida. E quando consegui ir além disso, mesmo sentindo com toda potência esse “puxão para trás”, é quando vi a força que tenho, que vai além dessas dúvidas. Plantei no meu corpo uma árvore de fé, e ela se fortaleceu a cada parto, também a cada perda. E se estou lançando esse livro hoje é porque também consegui ir além do medo e da dúvida de me colocar. Porque eu resisti muito a essa idéia a princípio, achava muita exposição, mas alguma coisa maior me moveu, e eu estou confiando que ele deveria mesmo ir por mundo.

Claudia e seu marido, Djair Guilherme, um minuto após a chegada de Francisco

Claudia e seu marido, Djair Guilherme, um minuto após a chegada de Francisco

6) Como foi a composição do livro? Como você escreveu suas impressões e seus sentimentos em um momento tão intenso?

O livro mescla três tipos de textos: alguns que escrevi no calor do momento, alguns poemas que não foram escritos necessariamente sobre os partos, mas que acabaram entrando por afinidade temática, e uma parte grande que escrevi em janeiro desse ano, o “corpo do livro” em si. Achei importante que não fosse uma coletânea de textos, que tivesse uma unidade. Então, a grosso modo, ele narra minha jornada pela vida, passando por essas mortes, enfrentando esse inimigo interno e me conectando a figuras de força. Para escrever cada momento de forma viva, tive que retornar a cada uma das experiências. Reviver internamente, para poder escrever de forma subjetiva, mesmo já tendo passado um tempo. A dificuldade de escrever um relato de parto é dar conta da experiência subjetiva. Tecnicamente, todo parto tem um processo semelhante: um tempo de espera, depois a expulsão. O desafio é conseguir transmitir toda a intensidade, todo o delírio que se experimenta, e isso só a poesia e a alegoria conseguem.

Quando imaginei a estrutura desse livro, o que defini foi: começar falando da minha chegada (meu nascimento), que chamei de “primeiro ato”. Depois, no “segundo ato”, os relatos de parto, não apenas o parto em si, mas o que acontecia durante a gravidez, reflexões, crônicas, as relações entre cada filho e esse momento, as sincronicidades. E falei não apenas dos nascimentos, mas também do aborto espontâneo que vivi. Porque esse tema vira um tabu, estatística. A gente guarda, não compartilha, e isso fica doendo lá dentro, comprimido. Por isso fiz questão de contar esse luto, porque percebi que para muitas que também viveram o mesmo é um alívio tremendo. No “terceiro ato”, faço uma relação entre os partos dos meninos e os novos partos da vida, e termino com uma “canção da partida”: como se fossem minhas últimas palavras antes de partir dessa existência. Espero que aconteça daquele jeito mesmo…

O resultado é essa mescla de crônicas, verdades alegorizadas, poemas, fatos, devaneios. E com o cuidado de não fazer dele uma bandeira: essa é minha experiência e só. Respeito profundamente a opção de cada uma, de verdade. Porque uma das coisas que eu aprendi sendo mãe é que você tem que viver seus instintos, o que seu coração pede, e não tem nada mais chato que alguém te dizendo o que fazer. E nada mais opressivo que uma mãe se sentindo culpada por não pertencer a esse ou aquele modelo, mesmo que ele seja teoricamente ótimo.

7) Por que você acha que algumas pessoas veem com tanta resistência o parto domiciliar?

Na primeira vez, meu marido e eu tivemos que afirmar nossa decisão com muita frequência. A família ficou preocupada, não era tão comum e comentado como hoje. Mesmo fazendo todos os exames e pré-natal com um médico, mesmo tendo todas as condições para um parto natural, eu tinha que lutar contra medos, estatísticas, crendices, preconceitos. “Você é uma mulher moderna, vai querer parir igual a uma índia?” Ouvi coisas assim, e para isso sempre respondia: “Tomara que sim. Quem me dera ter essa conexão toda com a terra”. O pior é que esses medos não eram só de fora, tudo isso reverberava muito em mim, como já contei.

Depois do primeiro parto, os outros foram tranquilos em relação a essa pressão. Eu já havia feito essa passagem, já confiava que meu corpo poderia realizar essa travessia, então a pressão externa parou de me incomodar, e as outras pessoas também passaram a confiar que se o nome dessa escolha é “parto natural”, alguma coisa de natural tinha…

Não vou mentir: Tem gente que tem orgasmo parindo (é verdade, eu conheço), mas para mim doeu muito muito muito mesmo. Mas e daí? Entendi o que é essa dor: é todo esse medo e essa dúvida gritando dentro da gente, pedindo para permanecer. Quanto mais eu solto, me entrego, menos sinto essa dor, e mais sinto o prazer desse momento sublime, dessa passagem, desse milagre.

A autora estará no dia 22 de setembro, às 19h, na Casa das Rosas, em São Paulo

A autora estará no dia 22 de setembro, às 19h, na Casa das Rosas, em São Paulo

8) Você teve que enfrentar esse tipo de preconceito dos seus amigos e familiares?

Eu acho que o preconceito vem de dois lugares distintos: 1) de um sistema de crenças que tem medo da vida, do caos, e tem a pretensão de controlar tudo usando como argumento “tudo o que pode dar errado”. Isso é o que familiares e amigos trazem como preocupação, mesmo com o maior carinho, o que de fato é verdade. Quanto a isso, o antídoto é a fé, e eu experimentei, pouco a pouco, que nada com uma experiência para colocar abaixo tanta teoria. A experiência da parteira também. A Vilma consegue virar bebês que estão “de cabeça pra cima”. Dois de meus filhos tinham circular de cordão, o que ela calmamente removia, sem problemas. Para muitos argumentos genéricos do que “pode dar errado” ela tinha uma explicação particular, caso a caso (e não era o meu), porque hospital tem isso: tem que ter procedimento genérico. Então, o que eu vi foi esse preconceito baseado no medo ser dissolvido. A cada parto todos foram ficando mais relaxados, isso foi pesando menos, e o que aconteceu no meu microcosmos familiar é o que vem acontecendo na sociedade.

O segundo tipo de preconceito vem de uma mentira deslavada, criada por corporações de saúde e produtos. Aí sim, para mim, é nefasto. Esse sistema infantiliza a mulher, coloca-a no lugar de uma boneca que vai ganhar outra boneca, e tem que ser mimada, “cuidada”, apartada da experiência. Tudo isso tem um custo. Muitas compram esse pacote. Mas, felizmente, para mim o poder desse feminino que é despertado é muito maior que os milhões gastos em marketing e em processos políticos como lobby de planos de saúde, entre outras aberrações. Isso me dá nojo, porque interfere não apenas no parto, mas em todas as opções seguintes por toda a vida daquela criança… Vou parar por aqui porque a lista de absurdos é imensa, mas isso me fez ver que essa opção pelo parto domiciliar não é apenas particular. É também um ato político, tomar o poder nas próprias mãos, me fazer cargo da minha vida e dos filhos, não me infantilizar, não me anestesiar, tomar contato com a força da terra sem medo. Tudo isso nasce com o filho, e continua através da educação.

Para mim, escrever esse livro é afirmar publicamente minha opção, emitindo um sinal que diz: Sim, é possível ir além do medo da vida, ir além da nossa necessidade de controle, ir além da dor. E o que está além disso é simplesmente maravilhoso. Cruzando esse limiar, o que pede passagem em nós nasce, e esse é o milagre da vida.