Família

Você vai se amarrar em conhecer o trabalho da ONG Capão Cidadão

É inspirador ver trabalhos voluntários que impactam tantas vidas

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

(Foto: Carolina Piscina)

(Foto: Carolina Piscina)

Como é bom encontrar pessoas do bem e que fazem a diferença no nosso país. A gente se encantou pelo trabalho da ONG Capão Cidadão, que fica em São Paulo. Ione Dias, mãe de Aline, Junior e Vanessa, e Paulo Magrão, pai de Bruna, Beatriz, Gabriela e Vitória, lutam para diminuir a criminalidade e a violência na comunidade. Para eles, a cultura, a arte e a educação são a solução para as crianças.

Nós fomos até lá e conversamos com eles para saber como funciona o projeto e conhecer o dia a dia dessas crianças, que já são mais de 130. O mais legal é que, se você quiser colaborar com essa associação, não precisa ser só com doação em dinheiro. Eles arrecadam coisas que outras famílias dispensam e fazem um bazar para levantar fundos. Então, prepare-se para também se apaixonar. A gente amou!

Como surgiu a vontade de querer mudar e ajudar as crianças?

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Ione Dias: Conheci o Paulo em um evento que ele estava fazendo. Fui levar o meu filho de 13 anos para cantar Rap e achei o movimento bonito. Nós conversamos e ele me convidou para participar de outros encontros. O importante era resgatar a garotada. Para mim, a criança que não brinca vive sujeita à violência. Por isso, tentamos ensinar qualquer coisa por meio da música e da brincadeira. A gente não quer ser uma escola. A Capão Cidadão quer resgatar vínculos de afeto por meio da cidadania, da educação, do meio ambiente e ir colocando no cotidiano da criança.

Paulo Magrão: Nesse evento fazíamos exames de vista e tratávamos de assuntos sociais, chamava “Não à violência, eu quero lazer”. A gente acreditava que, no domingo, dia em que acontecia a programação, conseguíamos baixar o nível de criminalidade no bairro. A partir daí, falei com alguns artistas da música, como o cantor Jair Rodrigues, para incentivar mais festas assim.

Vocês atendem crianças de quais idades?

ID: De seis anos a 16 anos. Já chegamos a abrir algumas exceções, como uma menina que está
com 17 anos e não quer sair.

Qual o perfil de quem participa da ONG?

ID: Quando a gente começou, atendíamos só o entorno. A maioria filho de mãe solteira. Hoje em dia já conseguimos diversificar mais. Atendemos até aqueles que estudam em escola particular. Aqui é um lugar de arte, cultura e educação e todos que chegam são bem-vindos. Aqui dentro todo mundo é igual.

Porque criança é criança…

PM: Exatamente! Criarmos o hábito de ouvir as crianças, enxergar o que elas querem dizer no olhar, no dia a dia. Hoje atendemos exatamente 137 e sabemos o nome de cada uma delas.

E qual o resultado disso?

PM: É muito satisfatório. Não perdemos nenhuma criança para o crime. Algumas delas chegaram aqui violentas e “batendo de frente” com a gente, mas fomos pacificando aos poucos.

E como elas são divididas para fazer as atividades?

PM: Temos, em média, 60 crianças de manhã e 60 à tarde, separadas em duas salas em cada turno. Elas vêm todos os dias. Tem balé, dança de rua, aula de meio ambiente, karatê e reforço escolar. É um contraturno com a escola.

Como é feito esse reforço escolar?

PM: Vimos uma necessidade de uma educação mais viva. Uma questão que, infelizmente, não tem na escola.

ID: Tivemos a ideia de montar uma biblioteca. Começamos a pedir livros e mais livros de doações, recebemos muitas caixas. Mas aí descobrimos que elas não sabiam ler nem as palavras lua e sol do jogo de Amarelinha.  Ou seja, nossa pretensão de fazer uma biblioteca, não daria certo. Por isso, separamos alguns livros infantis e começamos a pedir cartilha Caminho Suave.

PM: As escolas mandam cartas perguntando como a gente conseguiu fazer aquele aluno aprender a ler.  

E vocês são muito próximos das famílias dessas crianças?

ID: Nem sempre. Antes a gente exigia que os pais viessem para inscrever. Mas revimos, porque se depender dos pais, muitas vezes, a criança ficará na rua. Às vezes é um primo que vem fazer a inscrição.  Têm crianças que passaram anos por aqui e a gente não conhece nem o pai e nem a mãe. E são aquelas com os maiores problemas e as mais agressivas. Eu tento trazer a criança próxima de mim, tento ajudar, e dou mais atenção para eu conseguir fazer uma diferença na vida dela. Aquela que não tem pai, que está sempre sozinha, é a que eu tenho que abraçar mais.

E como são as regras?

PM: Quem chegava atrasado a gente não deixava entrar na aula, mas percebemos que o atraso poderia ser por algum problema dentro de casa. E realmente era isso. Já chegaram dizendo: “meu pai bateu na minha mãe e eu fiquei chorando.” A escola, por exemplo, não consegue ver isso. E ser mandado embora pelo atraso e ficar na rua é pior!

Vocês já tiveram que dizer não para alguma criança por falta de espaço?

ID: Sim. É o que acontece nas aulas de balé. Dói meu coração. O balé foi um projeto que eu idealizei porque eu queria fazer balé quando criança e não podia.

Vocês já fizeram apresentações com as crianças do balé?

PM: Sim! Hoje em dia, o nosso balé tem espetáculo todo ano. O tema desse ano é “A melhor família do mundo.”, apresentado na Funarte para arrecadar fundos para o Capão Cidadão. É uma apresentação teatral inusitada e diferente. Conseguimos vender para alguns órgãos da prefeitura,  entramos na Virada Cultural, em São Paulo e em uma apresentação no Dia da Mulher, em Santo Amaro, também na Capital.

Quem estiver lendo esta entrevista e quiser doar, como funciona?

PM: A gente tem uma conta no Banco do Brasil.

ID: E o que recebemos de doação em material vai para o bazar.  Mas tem gente que prefere ajudar no lanche das crianças, aí fazemos a compra, digitalizamos a nota fiscal e enviamos como um comprovante.  Temos também o “Adote uma bailarina”, que ajuda crianças que têm dificuldade para comprar o figurino das apresentações de balé.

PM: Tem gente que ajuda há dez anos.

E o que vocês veem e querem para o futuro?

ID: O que eu quero muito é melhorar e aumentar a questão de espaço da ONG. Muitas vezes, temos que barrar projetos e inscrições de mais alunos pela estrutura que temos aqui.

PM: Eu vejo que estamos indo em um caminho em que tudo está se modificando pela arte, cultura e alimentação. Temos um curso de empreendedorismo para as mães que dá uma expectativa de futuro para as mulheres. Isso era uma coisa que não existia dentro da comunidade. Na cultura alimentar, por exemplo, vimos por onde começar…

O que vocês desejam, não só para os seus filhos, como para todas as crianças da ONG?

ID: Desejo para eles o que eu desejo para os meus filhos. O meu sonho é que eles sejam pessoas boas.

PM: Eu desejo que eles sejam pais e mães. Igual meu pai foi, igual minha mãe é.

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