Família

Na casa da dinda

Como segundos pais, os padrinhos ganham um lugar cada vez mais importante

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Pensar em fralda, berços, decoração do quarto, nada disso vai ser tão gostoso e ao mesmo tempo tão difícil do que escolher quais serão os padrinhos do bebê.  E a expectativa não é só nossa, os candidatos passam os meses tentando imaginar quem serão os escolhidos. Claro que entre se candidatar e ser o eleito há um grande passo, e aí até acontecem aquelas bajulações e listas com 101 motivos para ser o escolhido… Mas não tem jeito, quem manda é a intuição!

Muito mais do que uma cerimônia religiosa, a escolha tem a ver com o vínculo dos pais com aqueles que serão os padrinhos. Por isso, os critérios da escolha variam de acordo com os valores e crenças de cada um. É importante lembrar que essa pessoa será o modelo ou inspiração da criança, daí a indicação de que seja alguém mais maduro. Os padrinhos devem ser alguém em quem você confia e que gostaria que fizesse parte da vida do seu filho.

O jornalista Fernando Olivieri, filho de Alessandra e Ari, é muito ligado aos padrinhos desde a infância. O tio e padrinho Arnaldo foi seu modelo inclusive na hora da escolha do time de futebol, o São Paulo. A relação com a madrinha também seguiu forte com o passar dos anos e se antes conversavam sobre videogame hoje falam de trabalho – ambos atuam na área de comunicação, e sobra assunto em comum. A ligação entre eles continuou na geração seguinte: “O filho dos meus padrinhos é meu afilhado, e isso aumentou e melhorou ainda mais a relação que tenho com eles. Lembro que um dos momentos mais marcantes foi em 2009, quando minha madrinha me convidou para ser padrinho de seu filho, aceitei na hora”.

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E quem tem padrinhos presentes sabe como é uma delícia passar o dia largado no sofá, aproveitando as regalias que só um afilhado tem. Tânia Corrêa de Souza, mãe de Nivia e Flávia, tem sete afilhados entre 7 e 30 anos e conta que a melhor parte de apadrinhar é poder deixar a preocupação da educação de lado. “Ser madrinha é meio que ser avó, você não precisa educar, e isso é muito gostoso. Mas também não podemos esquecer que tem aquela responsabilidade que os pais te passam na hora do batismo. No meu caso, senti a vontade e a necessidade de intervir como madrinha em algumas situações, como ajudando na escola ou com necessidades básicas”, conta.

A supermadrinha não apadrinhou apenas membros da família: entre os sete afilhados, três são filhos de amigos. “Ser ou não da família não é determinante do vínculo afetivo que temos uns com os outros. Isso tem mais a ver com o quanto nós nos identificamos com a pessoa.

No meu caso, não digo que tenho um afilhado predileto, mas tem aquele com que tenho maior proximidade, que desde pequeno é muito grudado a mim e a gente se dá muito bem”.

Espelho meu

Flavio Veríssimo, pai de Mariana, Rafael e Mateus, psicanalista do Instituto Sedes Sapientiae e membro da organização especializada em bebês e crianças na primeira infância Infans – Entre Laços, explica que os padrinhos e madrinhas podem representar um ideal para quem os escolhe, algo que eles gostariam que seus filhos fossem ou em quem se espelhassem. “Os padrinhos são aqueles que vão ajudar as crianças a realizar para os pais o desejo que lhes foi impossível. Claro que a criança percebe isso e essa percepção, ainda que inconsciente, faz com que o padrinho ou madrinha ocupem um lugar de destaque para ela no sentido de ser aquele que vai orientar.”

Para o psicólogo, o começo do vínculo acontece já na escolha dos pais pelos padrinhos e a criança se orienta, a partir do que ela imagina que seus pais esperam dela, mesmo que seja para fazer o oposto.

Sem apego

Mas algumas vezes esse laço não permanece. O psicólogo explica que essa relação pode ser complicada desde o início, já que algumas pessoas podem sentir o convite como uma responsabilidade e não um privilégio. “Essa escolha tem um significado particular para cada um. Numa relação em que uma pessoa convida outra para ser padrinho de seu filho o que um entende sobre isso não necessariamente será o mesmo que o outro.”

Lucas Torrisi, filho de Mirta e Luiz Antonio, conta que sua relação com os padrinhos sempre foi complicada. “Meu padrinho é um primo mais velho, mas nunca fomos muito próximos, e minha madrinha é a ex-mulher dele, então o contato já não existe. Minha mãe o escolheu por ser filho de minha tia mais velha, que é a matriarca da família”. Agnóstico, ele afirma que nunca deu muito valor à figura do padrinho, e sente que essa foi uma escolha feita por seus pais para valorizar seu núcleo familiar, mas que não originou um vínculo real entre eles.

Para o professor de formação cristã Renan Antonio Nascimento, pai de Lucas e João, uma das primeiras condições para se escolher um padrinho deveria ser o fato de esses partilharem da mesma fé e valores que os pais. “O vínculo afetivo é essencial e, mais do que fazer e falar para a criança, é preciso mostrar seus valores”.

Em alguns casos, a distância entre os padrinhos e o afilhado pode prejudicar o relacionamento. Tânia Côrrea conta que tem afilhados que moram em outras cidades e fica difícil encontrá-los. “Tenho carinho por todos e gostaria de estar mais próxima a eles, mas não dá.”

Como batizar

Na Igreja Católica há um curso com pais e padrinhos para que eles se sintam membros da comunidade religiosa. A duração do curso varia de acordo com a paróquia em que o batizado for realizado. A cerimônia deve ser agendada conforme o calendário de batismo da igreja, em alguns casos é individual, em outros é coletivo. Não há uma idade certa para o batismo, mas a recomendação é que seja feito poucos meses após o nascimento. A Igreja apenas estipula que os padrinhos tenham mais de 16 anos.

Na Igreja Luterana, o batismo também tem o significado de fé e comprometimento. O pastor Marcos Antonio Garcia, pai de Matheus e Larissa, da Catedral Metodista de São Paulo, explica que o batismo não é só um ato social, para a Igreja ele significa uma expressão de fé e compromisso. Neste caso, não há idade mínima para ser padrinho, mas recomenda-se que haja uma vivência religiosa e espiritual. São realizados de um a três encontros com as famílias (pais e testemunhas) para entenderem a cerimônia e concordarem ou não com ela.

Muitas pessoas preferem não batizar o filho por questões religiosas e escolhem um padrinho e uma madrinha “de coração”, sem passar por nenhuma cerimônia. O importante mesmo é estabelecer esse vínculo com uma pessoa muito querida e presente. E que a casa da Dinda seja sempre acolhedora.

Batizado no judaísmo

No judaísmo não há o mesmo conceito de batizado que no cristianismo. Durante a circuncisão do menino, a criança é entregue pela mãe a uma mulher, que a leva para o pai. Por fim, ele entrega o filho para aquele que vai segurar a criança no momento da circuncisão. Esse casal tem o nome de kvater (para o homem) e kvaterin (para a mulher), que em hebraico significa “segundo pai” e “segunda mãe”.
Com simbologia parecida à do batizado, os convidados da cerimônia chamada Brit-milá costumam sentir-se honrados. Cecilia Ben David, mãe de Karen, Gabriela e Fernanda, coordenadora de cursos do Centro da Cultura Judaica, explica que a escolha de quem irá segurar a criança é feita de acordo com quem os pais queiram dar a honra, mas que essa pessoa não precisa necessariamente ser judia.

Consultoria
Renan Antonio do Nascimento, pai de Lucas e João, é professor e assessor de formação cristã do Colégio São Luís. Flavio Veríssimo, pai de Mariana, Rafael e Mateus, é psicólogo, psicanalista do Instituto Sedes Sapientiae, Acompanhante Terapêutico e membro da organização especializada em bebês e crianças na primeira infância Infans – Entre Laços, entrelacos.org.br. Marcos Antonio Garcia, pai de Matheus e Larissa, é pastor da Catedral Metodista de São Paulo. Cecilia Ben David, mãe de Karen, Gabriela e Fernanda, é professora e coordenadora de cursos do Centro da Cultura Judaica, Tel.: (11) 3065-4343.