Criança

Educação sem blá-blá-blá: Entrevista com Rosely Sayão

A psicóloga fala sobre superproteção, crianças que são o centro da família e outros assuntos importantes sobre criação dos filhos

Andressa Simonini

Andressa Simonini ,Filha de Branca Helena e Igor

educação de crianças

(Foto: Shutterstock)

Rosely Sayão é mãe de Camila, de 41 anos, e Fábio, de 37.  Ela trabalhava como psicóloga clínica, mas quando foi matricular a filha mais velha em uma escola infantil, ficou assustada pela falta de caráter educativo da instituição. Em vez de procurar outro colégio,  ela ofereceu assessoria para a dona da escola, pois queria que Camila estudasse lá. Foi assim que entrou de vez no universo da educação de crianças e adolescentes.

Além de psicóloga e consultora em educação, também é colunista do jornal “Folha de S. Paulo” e comentarista da rádio “BandNews FM”. Rosely escreveu “Como educar meu filho” (Ed. Publifolha), “Família: Modo de usar” (Ed. Papirus) e é coautora de “Em defesa da escola” (editora Papirus). E está lançando mais uma obra: “Educação sem blá-blá-blá: Como preparar seus filhos e alunos para o convívio familiar, escola e a vida” (Ed. Três Estrelas). Leia abaixo como foi a nossa entrevista com ela.

P&F: Muitos pais culpam as escolas de não educarem os seus filhos. Eles sabem diferenciar o que é função deles e o que é função da escola?

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RS: Ninguém sabe mais mesmo, nem mesmo os estudiosos. Se fizermos uma pesquisa bibliográfica, vamos encontrar todo tipo de posição. Como estamos num mundo em transição e os papéis mudaram muito rapidamente, fica uma briga entre pais e escolas de quem cabe o quê. Um jogo de empurrar responsabilidades, que nem a escola ou a família assumem. E quem sai perdendo de novo são os mais jovens.

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Você está terceirizando a educação do seu filho?

P&F: Como você acha que isso pode interferir na vida das crianças?

RS: Nós já temos uma nova geração entre 25 e 35 anos mais ou menos, que a gente já consegue identificar algumas consequências. Não podemos universalizar que todos são assim. Mas há pouco comprometimento com as questões, há uma desistência muito fácil para com as dificuldades, há uma fragilidade emocional muito grande. Isso a gente já consegue perceber.

P&F: Cada vez mais as mães estão protegendo os filhos, cercando os filhos desde briguinhas de escola até qualquer outra coisa. Isso é bom ou ruim?

RS: Isso não é proteção. Isso é superproteção. Tudo o que é super não é bom. Os pais precisam proteger os filhos porque ele não tem equilíbrio, pode se machucar, ele mexe naquilo que não deve. Então, a gente tem que cercar de cuidados e proteção. Agora, a gente não pode inventar uma casa com móveis sem cantos. Ele tem que aprender a andar em meio aos móveis com cantos e pontas para saber se defender dele mesmo. O que, hoje, a maioria das pessoas dizem que é proteção, eu chamo de alienação. Porque não existe esse mundo que eles estão tentando passar para o filho. A ideia de educar o filho é prepará-lo para enfrentar a vida sozinho.

P&F: Você acha que isso mudou em relação às gerações passadas. Antigamente, essa superproteção não existia?

RS: Para falar a verdade, não falávamos em educar filho e sim, criá-los. Criar filho é prover o que for necessário, levar à escola, cobrar as tarefas domésticas e cobrar que ele acompanhasse a família. Até que ele pudesse estar fora daquela família e criar a sua. E, assim, tomar as suas próprias decisões.

P&F: No seu livro tem histórias de gerações passadas, conceitos de bisavós e avós. Você acha que isso tudo ainda se aplica hoje no estilo de educação?

RS: No princípio sim. A tradição familiar é um norte educativo da família. Isso não significa que tem que repetir o que foi feito. Mas ir atrás do que foi feito, ver os princípios, como honestidade e generosidade, e ensinar. Então, eu não vejo que seja muito diferente hoje. Eu vejo que é mais difícil porque há tantas escolhas que os pais ficam um pouco atrapalhados.
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P&F: Você usou muito esses princípios das suas gerações passadas para criar os seus filhos?

RS: Sim. Caso contrário, eu estaria criando filhos anônimos. O sobrenome carrega uma herança e essa herança envolve tudo isso, os valores, a moral familiar. Agora se você me perguntar se eu expliquei para eles tudo o que eu acho certo, eu responderei que não. Não, porque ser mãe depende muito mais do relacionamento afetivo, que é variável porque onde há amor, há ódio – tem hora que eu amo meu filho, tem hora que eu tenho ódio dele, assim como tem hora que ele ama a mãe e tem hora que ele a odeia. Então, não há metodologia para criar filho. Não há teoria. Há afetos e onde há afetos, há confusão.

P&F: Nas gerações passadas, a criança se adaptava àquela família e àquela rotina. Você acha que isso mudou? Elas vêm para um lar e é a família que está tendo que se acostumar à rotina dela?

RS: Isso tem acontecido sim porque nós, adultos, temos tidos filhos muito por uma questão de que faz parte da vida ter filhos, isso não só para a mulher. Não necessariamente os homens e as mulheres honram esse compromisso, que é “até que a morte nos separe”. Então, colocar os filhos no centro da família é quase que uma maneira para compensar que os adultos vivem mais a vida deles do que a prioridade de ter um filho. Então, a família se adapta à criança, mas é uma adaptação mais administrativa. Os restaurantes são eles que escolhem, a roupa, o passeio, brinquedos.

P&F: Você concorda com as famílias que se adaptam à criança?

RS: Eu não acho que seja bom nem para os pais nem para a criança. Para a criança, porque ela nasce se achando centro do mundo e, aos poucos, ela deveria entender que não é a única, nem a primeira, nem a última. Essa é uma noção de sociedade. Então, ela deveria aos poucos receber noções de realidade dos pais. E eles fazem o contrário: continuam dizendo: “você é o centro do mundo”.

P&F: Você acha que os pais perderam a autoridade que eles tinham com os filhos?

RS: Não são os pais. O conceito de autoridade entrou numa crise faz tempo. Não é coisa de três décadas não. E quando o conceito entra em crise, há um período de transição até encontrarmos outra maneira. Eu não acho que isso seja perda de autoridade. Eu acho que é um estilo de ser mais companheiro, ser mais amigo. Porque quando os pais são mais companheiros e mais amigos, eles se abstêm do papel de pai e de mãe. Tem muito estudioso que diz que estamos criando gerações de órfãos.

Para a Pais&Filhos, família é tudo. E para você?

RS: Não acho que seja tudo. É uma parte importante na vida dos mais novos, mas cada vez menos é tudo porque hoje as crianças desde pequenas estão muito conectadas a tudo o que acontece no mundo. E, assim, elas não aprendem só com os pais e com a escola. Elas aprendem com o mundo inteiro. Para mim, família é uma instituição que vai deixar a memória afetiva para os seus filhos. Agora, família dá um trabalho… Tem uma piada que fala: “Mãe só tem uma. Ainda bem!”. Família também. Ainda bem que só tem uma.