Família

Avó se torna doula só para acompanhar o parto da filha e relato emociona: “O primeiro contato da bebê foi comigo”

Sany Rios, a filha Nayanne e os netos Lucca e Clara - arquivo pessoal Sany Rios
arquivo pessoal Sany Rios

Publicado em 23/04/2020, às 14h49 - Atualizado às 16h35 por Helena Leite, filha de Luciana e Paulo


Sany Rios, a filha Nayanne e os netos Lucca e Clara (Foto: arquivo pessoal Sany Rios)

A maioria das avós têm a vontade de acompanhar o partodas filhas para ajudá-las nesse momento tão único e difícil. Sany Rios, mãe da Nayanne  e avó do Lucca e da Clara, no entanto, quis ir além. Privada de ver o nascimento do primeiro neto, a pedagoga procurou um curso de doula para auxiliar a filha no segundo parto e acabou fazendo descobertas sobre a própria vida. Em entrevista exclusiva a Pais&Filhos, Sany contou um pouco sobre a experiência tão única com a maternidade.

Sany Rios deu à luzà primeira e única filha Nayanne quando tinha 16 anos em um parto um tanto quanto traumático. A dor dos primeiros momentos de vida da garota se transformou em uma história de orgulho e aprendizados para a mãe. A criança foi crescendo e traçando os próprios caminhos. Formada em direito, Nayanne foi além, fez pós-graduação e mestrado, sempre com o mesmo foco de pesquisa: o empoderamento feminino sobre os direitos da mulher. Acompanhando as descobertas da filha, Sany teve contato com o parto humanizado e fez descobertas que mudaram a forma em que via a própria vida.

“Ela queria defender dentro da advocaciaos motivos que provam que a mulher tem direito de escolher o parto que ela quer, uma vez que a gestação dela esteja normal, sem complicações. Que isso não é escolha do médico, nem do marido, da família, do hospital, das instituições, é dela. Nesse período do mestrado ela engravidou. Acho que ela estava tao envolvida nessa história de parto que resolveu engravidar.”, brincou a avó. 

“Durante a gestaçãonós fomos a varias rodas de parto. Como o pai trabalhava muito, com 2 empregos, não conseguia ir a essas rodas, eu que sempre ia com ela. Estava totalmente integrada nesse universo e existia alguma coisa na minha ancestralidade que me levava à isso de uma forma muito forte. Nessas rodas de parto eu uma vez comentei com algumas doulas e médicas sobre essa minha vontade de ser doula para acompanhar o parto do meu neto. Eu fui taxativamente desencorajada. Eu ouvi não só de uma, mas de várias doulas, em várias reuniões que eu não poderia participar do parto do meu neto. Elas me diziam que minha emoção iria se sobrepor à calma e segurança que uma doula precisa. ‘Esses papeis vão se misturar e você não vai conseguir ser nem mãe, nem avó, nem doula’, me diziam. Aquilo tudo me desencorajou, foi um balde d’água tremendo. Como sou teimosa, procurei uns cursos mas não deu certo, não era a hora, o momento.

“Então, não pude acompanhar o parto do Lucca, fiquei com a minha filha até a fase latente. Na fase ativa e expulsiva ela foi pra sala de parto e eu não pude ir, porque só poderia ir um acompanhantee o direito de estar junto nesse momento é do pai. Isso me frustrou.

“Tempos depois, Nayanne veio me contar que estava grávidanovamente. Quando ela me deu a noticia a primeira sensação que tive depois de comemorar com ela era de que iria participar do parto. Foi então que voltei a procurar cursos de doula. 

“Incrivelmente, uma equipe que admirava muito havia acabado de abrir as inscrições para um curso e eu logo me inscrevi, fui uma das primeiras. Eu fiz o curso e contei a elas sobre o ‘preconceito’ das doulas anteriores de achar que uma mãe-vó não poderia exercer essa papel. Falei também que não pretendia seguir a profissão, pois já tinha a minha e era muito feliz com ela, só tinha a intenção de participar do parto da minha neta. 

“Fiz o curso achando que estava ali por minha filha e neta. Que nada, no segundo dia de aulas aprendi sobre a fisiologia do parto. Ali eu cai. Eu descobri sobre o meu parto. aquele curso de doula não era pra Nayanne ou pra Clara, era pra mim. Naquele sábado, tudo veio à tona, uma verdadeira avalanche.”

O nascimento da filha

Sanny Rios e a filha Nayanne (Foto: Sanny Rios arquivo pessoal)

Eu tive minha filha na véspera de completar 17 anos em um parto traumático, cheio de violência obstétrica. Ansiava por um parto normal, mas comecei a perder sangue e minha mãe se desesperou e me levou ao hospital dizendo que estava abortando. Hoje sei que era apenas o tampão. Desesperados, os médicos me tocavam com frequência e acabei me machucando. Eu entrei em uma hemorragia e tive que fazer uma cesárea as pressas e sem nenhum acompanhante, porque minha mãe, assustada com o sangue que saia de mim, me levou ao hospital e esqueceu de pegar a minha bolsa e a da bebê e precisou voltar para nossa casa. Nesse período tive minha filha com enfermeiras que me manipulavam sem que eu entendesse o que elas estavam fazendo. No sábado do curso de doula, as sombras do meu parto vieram a mim impiedosamente. e só ali, naquela hora, eu entendi que aquele sangue que minha mãe viu naquela manha era só o tampão e entendi o porque daquele sangue. eu entendi porque as pessoas que estavam comigo não entendiam, eu entendi porque fui tão violentada

“Entendi também porque minha filha disse que eu não consegui acalmá-la no primeiro parto, que tinha um semblante assustado. As sombras do meu parto estavam ali. Foi uma catarse que não consigo explicar. Mas ali veio a cura, no curso de doula, me curei do meu parto. Era a cura que eu precisava para ser a doula que minha filha precisava. No domingo eu era outra mulher. conclui o curso, fiz amizades e foi muito especial. No parto da Clara eu era doula, me revesti de tudo que aprendi e estudei muito.”

O nascimento da neta 

Sany, Nayanne e Clara (Foto: Sany Rios arquivo pessoal)

“Eu consegui, eu consegui. Meu papel de mãe e avónão sobressaíram e eu fui a doula que minha filha precisava. No momento do parto da minha filha, a doutora precisou sair para atender uma emergência que havia chegado. A Nayanne começou a evoluir naquele momento de uma forma que foi contra tudo que esperávamos. Em 20 minutos da saída da doutora, ela foi de 4cm a 10cm de dilatação. E quem estava lá era eu, o pai e a enfermeira. A gente ainda não estava na sala de parto, aliás, Nayanne ainda estava com top e short. De repente, enquanto eu fazia uma manobra pra alivio da dor na qual ela precisava ficar em pé, ela gritou: ‘Mãe, a clarinha desceu’. Assustada, me agachei embaixo dela e tirei seu short. Quando olhei, os cabelos de Clara estavam ali. Nesse momento a enfermeira chegou e pediu para que eu me afastasse e pegasse luvas, eu estava sem, porque tudo aquilo foi um imprevisto.

“E foi isso, o primeiro contato de pele humana da Clara, ao sair do ventre da mãe, foi da avó dela”.


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