Criança

Teatro pede que pais com crianças saiam de apresentação e causa debate nas redes: “Humilhante”

Reprodução/Facebook
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Publicado em 20/04/2019, às 16h00 - Atualizado em 21/04/2019, às 19h10 por Jennifer Detlinger, Editora-chefe | Filha de Lucila e Paulo


Um post feito pela antropóloga Juliane Bazzo vem levantando um debate nas redes sobre a presença das crianças em espaços públicos. No último domingo (14), ela escreveu um desabafo sobre um anúncio feito pelo Centro Cultural Teatro Guaíra, em Curitiba, que pediu que “espectadores com crianças as controlassem ou as retirassem do auditório, devido a reclamações de que falas delas estariam perturbando o andamento do espetáculo”.

“Queremos REPUDIAR o anúncio feito hoje em áudio público, durante o intervalo do concerto da Orquestra Sinfônica do Paraná, no Centro Cultural Teatro Guaíra, que pediu que espectadores com crianças as controlassem ou as retirassem do auditório, devido a reclamações de que “falas” dos pequenos estariam perturbando o andamento do espetáculo.

O que mais incomodou Juliane foi o fato de que após o anúncio ser feito pelo microfone, muitas pessoas aplaudiram e apoiaram a decisão. “Também queremos REPUDIAR aqueles que na plateia aplaudiram esse anúncio feito por uma mulher. Ao longo do espetáculo como um todo, não houve qualquer acontecimento relacionado às crianças que tivesse influenciado o rumo da exibição da orquestra. E ainda que tivesse havido algum eventual acontecimento, nada justifica o referido anúncio em áudio público, desrespeitoso, humilhante e violento aos pais que têm o pleno direito de ocupar um espaço cultural público com suas crianças. É assim que um país interessado em cultura e educação forma plateias – levando crianças desde a mais tenra idade a espetáculos. Não é possível que, nós, adultos ainda não saibamos nos comportar considerando esse bem coletivo maior”, defendeu.


Segundo o relato, uma mãe se sentiu ofendida após o anúncio e decidiu ir embora com seu filho. “Não me sai da cabeça a imagem de uma mãe, após o anúncio, se retirando com sua criança, enquanto esta aplaudia vigorosamente o retorno da orquestra ao palco para a segunda parte do espetáculo. Não é de se admirar que esse país caminhe para um buraco bem fundo, uma vez que não dá valor a imagens como essa. Peço perdão a essa mãe, representando todos os outros pais que lá estavam hoje. Vocês não estão sozinhos. Não desistam nunca de ocupar o espaço público com suas crianças, é um direito! Peço aos amigos que compartilhem esse post, subam a publicação, enfim, nos ajudem a não permitir que esse absurdo que vivenciamos hoje continue sendo algo normal. Não há motivo para aplausos diante de um ato repulsivo dessa natureza”, finalizou.

Nos comentários da publicação, algumas mães que estavam no local durante o ocorrido se manifestaram: “Juliane, não te conheço mas estava lá hoje e fui uma das mães que saiu com meu filho. Ele estava quieto, não estava ‘incomodando’ ninguém (aliás, não vi nenhuma outra criança fazendo isso) mas me senti tão humilhada que não tive mais estômago pra continuar ali. Lá fora, no segundo balcão, mais duas famílias estavam com seus filhos, todos nós sem coragem de olhar uns pros outros. Foi muito triste o que aconteceu. Tanto se trabalha pra formar plateia e a gente vê tudo isso se fragmentando com uma atitude dessas”.

“Eu sou contra quem é contra criança na platéia, me desculpem. Já vi “colegas” surtarem por ter criança na plateia, e acho escroto, cada um que vi surtar. Se queremos platéia no futuro, precisamos criar agora. Se a criança não cria o hábito de ir ao teatro, ao show, ao concerto, ao espetáculo, nunca vai se acostumar nem aprender a apreciar e respeitar”, escreveu outra.

Mas também teve quem concordasse com o Centro Cultural. “Certíssimo o teatro. Se houve reclamações é porque ALGUMA criança estava incomodando e fazendo barulho em algum lugar daquele teatro imenso de dois mil lugares. Em nenhum momento foi dito que crianças que estão em silêncio deveriam sair da apresentação”, comentou um homem.

O que diz a lei?

Claro que cabe bom senso entre as mães e pais, mas barrar a entrada ou expulsar crianças de estabelecimentos e espaços públicos é ilegal. Para o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), essa prática é ilegal e inconstitucional. Restringir a entrada de um determinado grupo a um ambiente é uma violação à dignidade da pessoa humana, segundo os artigos 1º, III e 3º, IV da Constituição Federal. Segundo o Idec, restringir a entrada de crianças também é uma prática abusiva, conforme artigo 39, IX do Código de Defesa do Consumidor. “Os estabelecimentos não podem usar o princípio da livre iniciativa para limitar a entrada de crianças, com exceção de locais inapropriados para esse público, segundo o artigo 220, §3º, I da Constituição”, diz o Idec.

Além disso, impedir a entrada de crianças viola o Estatuto da Criança e do Adolescente, por gerar um constrangimento ou situação vexatória para a criança.

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