Criança

O poder do faz-de-conta

O mundo imaginário do seu filho pode ser surpreendentemente elaborado. Experimente algumas estratégias para promover a brincadeira

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Nos últimos dois meses, meu filho de 2 anos e meio tem se recusado a ser chamado de Noah; ele é Miauzinho, o Bebê Gato. Ele vive essa fantasia 24h por dia e corrige qualquer pessoa que use seu nome verdadeiro. Ele não vai ao peniquinho – ele usa a caixa de areia. Ele canta músicas miando, e conta as elaboradas aventuras de Miauzinho e sua família. Embora eu fique feliz com o fato de ele ter uma imaginação tão fértil, às vezes eu me pergunto se isso tudo não está ficando demais.

Acontece, no entanto, que eu não tenho motivos para me preocupar. “O faz-de-conta ajuda as crianças a ganhar compreensão do mundo”, diz Susan Linn, doutora em educação, autora do livro “Em defesa do Faz-de-Conta” (Editora Best Seller, R$ 38,00). Usar a imaginação os permite experimentar diferentes papeis, viver em cenários que eles criam, e até enfrentar medos. Entre os 12 e 24 meses, seu filho pode até começar a fingir experiências da vida real, como comer ou dormir.

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Conforme ele vai se aproximando dos 3 anos de idade, as fantasias frequentemente se tornam mais elaboradas. O pequeno pode inventar um amigo imaginário, que o conforta e o ajuda a enfrentar ansiedades. Qualquer que seja o estágio em que ele se encontra, é fácil encorajá-lo a brincar de faz-de-conta.

Deixe algum tempo ocioso – Em vez de preencher cada minuto do dia do seu filho com atividades extra-curriculares, dê a ele a oportunidade de brincar sozinho. Incentive a criatividade montando uma cozinha de brinquedo ou um cantinho das fantasias (um cesto de roupas dá muito bem conta do recado). Considere também arranjar uma cabaninha, ou fazer uma você mesma. “Crianças gostam de lugares para se esconder — um lençol colocado sobre os móveis pode virar um iglu, uma caverna ou um forte”, diz Susan. Certifique-se também de que ele passe algum tempo ao ar livre, para poder apanhar folhas, olhar para as nuvens, ou correr pelo parquinho.

Prefira os brinquedos simples – Brinquedos que piscam, fazem barulho e se movem ao apertar de um botão podem desencorajar brincadeiras imaginativas porque fazem todo o trabalho pela criança. Já aqueles que requerem que ele invente os próprios barulhos e funções tendem a ampliar sua criatividade. Escolha itens como carrinhos e caminhões sem pilhas, bichos de pelúcia e bonecos. Evite produtos licenciados, especialmente se seu filho assistiu aos filmes com que eles estão associados. “Se eles conhecem a voz e a personalidade da personagem, é mais provável que eles sejam mais rígidos a respeito daquilo que ela faria ou não”, conforme observa Susan.

Tire a sua imaginação do faz-de-conta dele – Sinta-se livre para se juntar à brincadeira do seu pequeno, mas deixe que ele conduza a cena. Se ele estiver fingindo que é um cachorro, você pode dizer, “Eu sou o seu amigo elefante”. Mas atenção: caso ele rejeite a sua investida, recue. Segundo Frances Scott, professora emérita no Instituto Erikson, em Chicago, algumas crianças usam encenações como uma forma de se acalmar, e não querem a companhia de ninguém.

Leia e conte histórias – Livros são um excelente alimento para o faz-de-conta do seu filho. Eles não apenas o apresentam a novas personagens e situações, mas também ensinam como uma narrativa é estruturada. É comum que crianças desta idade  insistam em ler o mesmo livro muitas vezes seguidas; eles gostam da repetição e podem achá-la até confortante. Livros de páginas rígidas são uma boa opção para crianças pequenas, porque as páginas não rasgam. Da mesma forma, evite e-books animados e livros interativos — eles preenchem lacunas demais. Conforme você for lendo, faça perguntas abertas, como “Como você acha que a princesa está se sentindo?” ou “O que você acha que vai acontecer agora?”, sugere Susan.

Seu filho certamente vai adorar quando você inventar as suas próprias histórias e pode querer ouvir as mesmas várias vezes. Tente manter a energia e o entusiasmo, porque isso mantém a narrativa envolvente. “Permita que o pequeno tenha voz nas decisões que influenciam na história, como qual deve ser o nome do esquilo ou se o filhote de passarinho fica no ninho ou tenta voar”, aconselha Susan. Isso faz com que ele se sinta parte do processo da história.

Tenha material artístico em casa – Desenhar, pintar e esculpir são ótimas maneiras de começar o faz-de-conta. Mantenha canetinhas e tintas ao alcance e procure oportunidades para que o seu filho se expresse através da arte. “Você pode escrever uma história e pedir que ele a ilustre, ou que ele use massinha para modelar sua personagem preferida”, sugere Frances.

Não o rotule – Só porque o seu filho não é um grande fã de encenações, não significa que ele não tenha imaginação. Ele pode ser ótimo em usar pecinhas de armar, ou passar horas brincando num tanque de areia. Está tudo bem, porque essas atividades também podem incentivar a imaginação. “Você deve continuar fornecendo um ambiente fértil a todos os tipos de faz-de-conta, mas não se preocupe se ele prefere brincar de um jeito em vez de outro”, afirma Susan.