Criança

Gagueira não é psicológico e não deve ser tratada como tabu

O distúrbio é involuntário e atinge crianças a partir dos três anos; tratamento rápido cura até 98% dos casos

Redação Pais&Filhos

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A gagueira é um distúrbio de linguagem que vem sendo desvendado pela genética e pelas neurociências. Na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (CID 10), gagueira é uma ruptura no ritmo da fala, na qual o indivíduo sabe precisamente o que deseja dizer, mas é incapaz de fazê-lo devido a movimentos involuntários – não prontamente controláveis.

É uma ruptura na expressão oral de um indivíduo, caracterizada por desvios no fluxo, na suavidade, no ritmo, na velocidade e/ou no esforço com as quais as várias unidades da linguagem são ditas. Há interrupções significativas numa sequência estabelecida de sílabas e palavras emitidas em um determinado tempo, isto é, as interrupções são variáveis e não ocorrem em todos os momentos.

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Os movimentos involuntários da gagueira ocorrem, na maioria dos casos, em crianças por volta dos três anos, mas pode se manifestar até os 12 anos. Crianças que têm parentes que gaguejam, possuem 70% de chances de também terem gagueira, principalmente crianças que tiveram complicações durante o parto. Também há relatos de casos de gagueiras que resultam de infecções não tratadas adequadamente, e outros que tem exposição a agentes tóxicos.

Vários estudos científicos demonstram que a gagueira ocorre na mesma proporção em qualquer nível sócio-econômico-intelectual. Portanto, ela se manifesta independentemente da escolaridade, da cultura, do grupo populacional, da situação social ou religiosa. Mas, tudo indica que meninos têm uma propensão maior a ter distúrbios de linguagem por causa do funcionamento cerebral.

Os sinais de que seu filho é gago

De acordo com a fonoaudióloga clínica, especializada em gagueira, do Instituto Brasileiro de Fluência, professora, autora de livros e artigos sobre gagueira, Anelise Junqueira Bohnen, mãe de Guilherme, muitos sinais podem ser percebidos pelos pais, como as rupturas do fluxo da fala, repetições de som (e-e-eu), repetições de sílabas (ca-ca-casa) ou repetições de palavras monossilábicas (eu-eu-eu), além de interrupções da sequência de sons (chamadas de bloqueios) ou prolongamentos  de sons (ssssapo).

Segundo a fonoaudióloga, em alguns casos os sinais vêm acompanhados de tensão muscular ou alguma alteração no volume da voz. As próprias crianças podem perceber as alterações e reclamar por não conseguirem falar direito. “Como gagueira do desenvolvimento ocorre predominantemente numa fase de aquisição de linguagem, outros distúrbios de fala, linguagem e motricidade oral também podem ocorrer nesta idade”, explica Anelise.

O que fazer? Ao perceber os sinais – ou algum dos sinais indicados pela especialista – é essencial que os pais busquem ajuda de um fonoaudiólogo, de preferência aquele que seja especialista em gagueira. O problema pode desaparecer em mais de 98% dos casos, se tratados precocemente.

Como trabalhar o problema em casa?

“Gagueira não deve ser tratada como tabu”, diz a fonoaudióloga, e é por isso que deve ser encarada e conversada com a criança. Lembre-se que seu filho percebe que, em certos momentos, sua boca não ‘obedece’ aos comandos. Mas, quase nunca a criança vai entender seus sentimentos e, por isso, os adultos precisam lhe explicar. Esconder é muito pior. A gagueira é involuntária e, por isso, não adianta os pais mandarem a criança falar devagar, repetir, respirar etc. “É essencial que os pais deixem que ela termine o que está dizendo não interrompendo e evitando mostrar expressões preocupadas, falando de forma fácil e direta, descobrindo formas de não fazer muitas perguntas, dando uma rotina e uma organização para a criança”, orienta Anelise.

Não é psicológico!

Segundo Anelise, o maior mito em torno da gagueira é de achar que tem origem psicológica. “Esse mito vem impedindo que muitas crianças superem a gagueira. Tem contribuído para aumentar a culpa de pais e cuidadores, tem dificultado muito tanto a vida presente quanto a vida futura das crianças”, afirma.

Gagueira pode ser eliminada na infância, mas dificilmente o será na idade adulta. Portanto, não se deve esperar para buscar ajuda. As conseqüências da falta de tratamento são várias, mas uma das maiores é a discriminação e a vergonha. Gagueira é um dos casos típicos em que “esperar para passar” só agrava a situação.

 

Consultoria: Anelise Junqueira Bohnen, mãe de Guilherme, é presidente do Instituto Brasileiro de Fluência – IBF. Fonoaudióloga clínica, especializada em gagueira, formada nos Estados Unidos, professora, autora de livro e capítulos de livros e artigos sobre gagueira. É doutora. Sua tese sobre as características das palavras gaguejadas pode ser encontrada para download gratuito neste endereço: http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/21569/stats?type=0&showAll=1 Outros mitos sobre a gagueira podem ser encontrados no site do Instituto Brasileiro de Fluência: www.gagueira.org.br ou www.fluencia.org.br .