Criança

Entenda a diferença entre mentira e imaginação

Entre a imaginação e a mentira, existe uma separação de faixa etária. Entenda qual é e aprenda a lidar da melhor forma com ela.

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

 

Crianças constantemente usam histórias para brincar, contar coisas e até explicar o que não sabem explicar. Imaginar, fantasiar e contar faz parte do repertório da infância. É um recurso que eles têm e que é muito bem-estruturado para essa fase da vida. “A criança menor não mente: ela transforma e constrói uma realidade própria, o que é muito importante, pois a fantasia e a imaginação conduzem ao desenvolvimento de capacidades criativas”, afirma a psicóloga Maria de Lourdes Carvalho de Sousa Silveira, mãe de Leandro, Lucas e Larissa, terapeuta de casal e família do Instituto Persona de Passos, em Minas Gerais.

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O problema é quando a criança começa a crescer e usa o mesmo recurso para mentir. As histórias continuam sendo para explicar acontecimentos, mas agora explicam por que ele não fez a lição, por que não chegou a tempo na aula de natação ou por que tomou uma bronca na escola. As crianças acham formas de se esquivar das broncas e do que elas sabem que fizeram errado. E daí entram os pais e as formas de saber lidar com esse recurso. Apontar o dedo e dizer que ele está mentindo não funciona! No fundo não sabemos muito lidar com a criança quando ela está fantasiando e quando ela está realmente mentindo. Precisamos aprender – tanto para conseguir dialogar com ela, como para orientá-la a não mentir e a lidar com os problemas e erros sem medo de enfrentá-los e assumi-los.

Mentira X Fantasia

Mentir é de nossa espécie: a negação e o direito ao segredo são constitutivos na formação da subjetividade humana.  O psicanalista brasileiro Fábio Herrmann diz que a “mentira original é o início da humanização do ser” – alguém já viu um cachorro mentir?

A mentira pode encobrir problemas graves, por isso nós, como pais, desejamos “cortar o mal pela raiz”. Porém, é importante diferenciar mentira de fantasia, pois desrespeitar ou tirar a imaginação, na fase de desenvolvimento em que a criança precisa usar esse recurso, pode ter o efeito contrário. E, afinal, qual a diferença?

“Acho que, com a fantasia, se brinca. Já a mentira é uma narrativa, uma forma de a criança explorar o campo da oralidade. Na cabeça da criança pequena, não existe diferença entre um e outro – são apenas meios e formas de lidar com os fatos. É que a gente coloca esses nomes: fantasia e mentira. Para a criança, existem apenas maneiras de lidar com aquilo que se vive. A criança vive, o adulto é que coloca nomes”, afirma o educador e dono da escola Estilo de Aprender, em São Paulo, Marcelo Cunha Bueno, pai de Enrique.

O que chamamos de fantasia é a transgressão da criança para um mundo paralelo – uma forma como ela enxerga a realidade. Assim, se vestindo de super-herói ou contando uma história do amigo imaginário, ela tem um recurso para lidar com o real. A fantasia dá instrumentos para a criança conseguir significar, dar sentido e sensações, desejos, anseios às situações. É a fantasia que constitui repertório do que e como a criança vê o mundo.

Já a mentira, no sentido de trapaça, disfarce, negação, é realizada por crianças um pouco maiores, a partir de 7 anos — quando  interiorizam regras sociais, aprendem os binarismos (bom x ruim, justo x injusto) e têm mais acesso a recursos linguísticos e argumentação. Nessa idade, a criança poderá contar histórias para levar vantagem – ou seja, mentir. O mais interessante é pensar  que a mentira é também a capacidade de a criança se diferenciar da mãe, do pai ou da avó. Ou seja, a história criada é uma possibilidade para ela de manter um mundo próprio, que ninguém vê (interno, criativo), diferente da vida real, dos fatos.

Pinóquio, não!

Saber agir ante a mentira infantil é fundamental. Quando a mentira acontece, os adultos devem saber olhar com paciência e conversar com a criança: primeiro, dizendo que ela não está falando a verdade e, segundo, dando recursos e tempo para que ela consiga refazer a situação – desta vez, falando a verdade. O acolhimento é importante, já que muitas vezes crianças mentem por medo. Então, não falando a verdade, buscam um recurso de defesa contra o receio de ser castigada, julgada ou perder o amor dos pais, professores ou babá. O pior que podemos fazer é agir de forma repressiva, gritando, batendo ou tachando a criança de “Pinóquio”.

“Violências não curam mentiras, pelo contrário, aumentam o medo de ser descoberto, fazendo a criança mentir mais. Não importam quais justificativas uma criança use para não fazer a lição de casa, por exemplo. Em vez de ficarem bravos, os pais devem dizer que é importante que cumpra suas obrigações, dando-lhe o tempo necessário, não deixando que a criança comece outra atividade enquanto não tiver cumprido a obrigação”, explica o médico psiquiatra e escritor de livros sobre educação familiar Içami Tiba.

Outra motivação muito comum para a mentira da criança é a necessidade de chamar a atenção (mas, convenhamos, nós fazemos isso direto também!). Como quando ela reclama de dor de barriga ou cabeça. “Inicialmente, é preciso lhe dar crédito e levá-la ao médico se necessário”, diz o pediatra e consultor da Pais&Filhos, Claudio Len, pai de Fernando, Beatriz e Sílvia. Para ele, a criança pode mentir para não estressar a mãe e o pai. “A questão da mentira não é sempre uma tragédia. As crianças são muito sinceras, esta sim é a característica marcante da infância. São mais verdadeiras que adultos, especialmente as pequenas. É muito mais frequente os pais mentirem para os filhos do que o contrário”, afirma.

E o educador Marcelo Bueno concorda. Questionado se existe uma idade em que as crianças mentem mais, ele não hesita: “quando se tornam adultos”. Portanto, relaxa. A mentira é presente na vida de todos nós – e cabe ao adulto direcionar a criança para a verdade, sempre. Mas uma mentirinha ou outra que não prejudica a integridade de ninguém pode passar sem muito estresse.”

Era uma vez…

Ah! O mundo da fantasia… O extraordinário lugar onde tudo é possível, as situações têm solução e os personagens possuem personalidade bem delineada: o Lobo Mau é mau. O Príncipe é bom. O super-herói é forte. O lugar cheio de imaginação que é criado na cabeça da criança a partir dos 2 anos, em média, nada mais é que um mundo onde ela tem certo domínio dos seres que vivem ali. E a fantasia existe porque o mundo real, dos adultos, é muito complexo para a criança e difícil de ser assimilado e aceito. Assim, elas utilizam a fantasia para criar seu próprio universo, onde tudo é possível e as situações possuem solução – geralmente com um final feliz. É entre os 2 e 7 anos, principalmente, que a fase de desenvolvimento acontece através da imaginação.

Além disso, é a fantasia que primeiramente mostra o lado bom e o ruim dos fatos em nossas vidas: com os contos de fada, por exemplo, as crianças conseguem se projetar nos personagens e entender basicamente o que é o correto e o errado, o justo e o injusto e assim por diante. Daí a importância tão grande dos contos dos Irmãos Grimm.

“As crianças aprendem e se desenvolvem através do uso da fantasia. Pois é assim que ela vai entender o que se passa ao seu redor, contribuindo também para a formação da sua personalidade. A criança expressa suas preocupações através dos personagens que escolhe e das histórias que cria. Por exemplo: uma criança pode fantasiar ser médico quando deseja cuidar de alguém de quem gosta e que esteve ou está doente. Ela pode fantasiar ser um super-herói procurando compensar a fragilidade que sente”, explica Mirian Chaves Carneiro (mãe de Conrado, Lígia e Estevão) psicóloga e professora do projeto Mala de Leitura da UFMG, idealizadora e coordenadora voluntária da Biblioteca Comunitária Etelvininha Lima, no bairro Pompeia, em Belo Horizonte.

É com a fantasia, também, que a criança expressa suas emoções e sentimentos (elas quase gritam isso a nós, pais, que muitas vezes não conseguimos interpretá-las. Um ursinho que está com raiva da mãe porque ela brigou com ele. Exemplos fáceis de serem compreendidos e que têm mensagens bem subliminares. Portanto, se o seu filho está fantasiando, a única coisa a se fazer é entrar na brincadeira. Estabeleça um diálogo com os personagens. Quanto mais brincadeira e fantasia, melhor. Então, deixe seu filho fingir que é super-herói e ter amigos imaginários. Faz bem! Agora, a criança não pode se afastar de sua identidade o tempo todo. Isso significa que, em alguns momentos, é necessário que a criança viva a situação de forma completa, estando realmente presente.

O educador Marcelo Bueno dá um exemplo: na escola, durante uma atividade em grupo em que a criança é questionada sobre sua opinião, ela deve responder como pessoa – e não se esconder atrás de um personagem. Então, o professor deve cobrar que ela responda por ela mesma. Ou, em uma conversa com os pais, por exemplo, ela precisa vivenciar algo? Então ela deve estar lá sem fantasia.

“Brincar é uma coisa: ela vai se vestir de personagem, vai usar os brinquedos. Mas, na hora de manter uma relação social, a criança deve estar inteira. O conto Serena, de Luís Fernando Veríssimo mostra bem esta situação: uma menina tinha pais que brigavam muito. Um dia, eles discutem na mesa de jantar. Depois de comer, Serena sai da mesa e vai brincar de casinha – pais e filha comem e os adultos brigam, aí vem um gigante e manda os pais ficarem quietos. Na história, a fantasia da menina a ajudou a lidar com a dificuldade, mas ela não fez algo para ser o Gigante no momento da briga. Ela foi o Gigante após viver a situação real, inventando com sua imaginação um novo final”, conta Marcelo.

À medida que a criança substitui a simbolização pela linguagem elaborada, saberá distinguir a fantasia da realidade e poderá utilizar a fantasia em forma de criatividade sem perder a noção do real. Naturalmente, ela usa menos a fantasia para se expressar, porque tem mais consciência sobre a realidade, noção de lógica, domínio de regras sociais etc. Por isso, os pais não precisam se preocupar em ser “politicamente corretos” em relação à fantasia da criança: ou seja, não é preciso – e nem bom! – que você desminta as crenças de seu filho ou negue a existência de alguns personagens como o Papai Noel ou a Princesa.

Confie, a criança vai assimilando a realidade gradualmente e sem traumas, ao contrário do que muitos temem. &

Para trabalhar a mentira de forma positiva

1. Nunca chamar a criança de mentirosa, e sim escutá-la com atenção para ajudar-la

2. Explicar as consequências de uma mentira com exemplos práticos, sempre tentando manter um canal de comunicação aberto entre vocês

3. Não gritar e nem pressioná-la com interrogatórios. Ela se sentirá acuada e o medo poderá fazê-la mentir outra vez

4. Estimular a criança a sempre se colocar no lugar do outro

5. Tentar compreender o significado implícito na mentira

6. Na escola, os professores nunca devem expor crianças que mentem na frente dos colegas