Criança

De perto ninguém é igual

Não tem ser humano igual ao outro. Se a diversidade está em tudo, por que não respeitar as características de cada um?

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Matéria originalmente publicada em julho de 2005

Tudo bem ser grande ou pequeno. Tudo bem usar óculos, ser adotado, ter rodas ou uma cor diferente. Como diz o autor norte-americano Todd Parr, no livro Tudo Bem Ser Diferente, somos todos especiais por causa de nossas diferenças. Mais do que nunca, o conceito de inclusão, que quer dizer fazer parte, ser incluído incondicionalmente na sociedade, está sendo discutido e, felizmente, colocado em prática. Hoje, escolas convencionais, por exemplo, são obrigadas por lei a aceitar alunos com deficiências. Isso torna as classes mais diversificadas. E isso é bom para todo mundo. Na vida ninguém é igual. E a gente só tem a ganhar convivendo desde cedo com várias realidades: em experiência, respeito, capacidade de se colocar no lugar do outro…

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Você é diferente do seu filho, que é diferente do irmão mais velho, que é diferente do irmão gêmeo, mesmo que tenham a mesma cara. Você e o pai das crianças, apesar de estarem juntos nessa, pensam e agem de maneiras diversas. A convivência com diferenças existe em absolutamente todas as relações. Ainda bem, ou o mundo seria uma chatice. Então, por que achar que determinadas pessoas são melhores ou piores que as demais? É que, enquanto nos relacionamos com gente parecida, fica mais fácil. Quanto mais evidentes as diferenças, mais difícil de aceitá-las. Por isso, o importante é fazer com que seu filho aprenda a respeitar as características de cada um.

Faça o que eu digo e o que eu faço

Ok, na teoria, você concorda com esse discurso. Mas só isso não basta. É preciso que você acredite, de verdade, nisso tudo. Com as crianças, o exemplo é o que vale. Não adianta dizer que respeita os mais velhos e reclamar quando eles passam na sua frente na fila do supermercado. Segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo, 87% dos brasileiros admitem que há racismo no país, mas apenas 4% assumem que manifestam o sentimento. Ou seja, não adianta falar para seu filho que ele não é melhor ou pior que o amigo de uma raça diferente se você, na prática, não age dessa maneira. Reconhecer nossos preconceitos é o primeiro passo para batalharmos contra eles. E, assim, poder passar um exemplo legal para as crianças.

Segundo Celso Antunes, avô de Francisco e Maria, autor do livro A Linguagem do Afeto, em que dá lições de como transmitir valores aos filhos, o trabalho de ensinar as crianças a respeitar a diferença não é difícil, mas deve ser feito antes que manifestem aversão pelo que não é parecido. Valores são construídos na infância, não dá para cuidar disso mais tarde.

De acordo com Celso, que é mestre em Ciências Humanas e especialista em Inteligência e Cognição, é importante que o processo seja ritualizado. “Se para aprender a ler e escrever existe um ritual, isto vale para a construção dos valores também.” Além de mostrar o respeito por meio de atitudes concretas, é preciso contar aos filhos sobre as coisas em que você acredita. “Não adianta ver o mundo de uma maneira e deixar de apresentar isto para a criança”, afirma. Portanto, converse, comente a cena da novela e diga que você fechou o vidro do carro temendo o que o menino poderia fazer e não por medo dele em si, por exemplo.

Histórias para não fazer discurso

A premiada escritora Ana Maria Machado, autora de alguns dos nossos maiores clássicos infantis, entre eles o livro Menina Bonita do Laço de Fita, defende o mesmo ponto de vista. Na história, a personagem principal é uma garota negra, invejada por um coelho branco, que sonha ter uma filha pretinha tão linda como ela. Para Ana Maria, a reação natural da criança quando depara com o diferente é a curiosidade. “O preconceito é cultural, se manifesta dependendo da formação que damos a ela”, afirma. Caso seu filho questione por que o amigo tem uma cor diferente da dele, a escritora sugere: “Pergunte por que filhote de canário não é papagaio”.

As histórias são uma maneira bem bacana de apresentar a criança a essas questões sem precisar fazer discurso. Pegue a Turma da Mônica, por exemplo. “Eles brigam, mas são amigos justamente porque são diferentes”, diz Mauricio de Sousa. Pai de dez filhos, o autor e desenhista convive plenamente com a diversidade. “A mensagem que tento transmitir nas histórias é a mesma que passo em casa”, diz Mauricio.

Recentemente as revistinhas ganharam novos personagens: o cadeirante Luca e a deficiente visual Dorinha. “Isso é um detalhe. São crianças, brincam e brigam como todos. Não vou fazer nenhuma história em que a deficiência deles seja o tema”, conta. A limitação física dos dois é vista como característica e não como desvantagem. Assim como Magali é comilona, Mônica é brava, Cascão não gosta de tomar banho e Jeremias é negro, Luca tem deficiência física e Dorinha não pode enxergar. E todos se divertem juntos, numa boa.

Qual a cor do seu filho?

Você deve ter recebido do colégio um comunicado solicitando que declarasse a cor/raça de seu filho: amarela, branca, indígena, parda ou preta.

Muita gente ficou ofendida quando encontrou o tal papel na agendinha, julgando a pergunta discriminatória. Nós, da Pais e Filhos, acreditamos que pedir para que se declare cor ou raça é como questionar quantos filhos você tem na escola.

A inovação faz parte do Censo Escolar, pesquisa que visa coletar dados sobre a educação básica em todas as escolas. Organizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), a inclusão do novo quesito foi feita para atender a uma demanda da Secretaria de Educação Continuada Alfabetização e Diversidade do MEC, para ter mais dados estatísticos da realidade educacional brasileira e daí pensar em políticas públicas para melhorar a qualidade do ensino.

Você já reparou que quase não aparecem negros nos livros didáticos do seu filho? Segundo dados do Unicef, a população brasileira de crianças e adolescentes se divide assim: 51,2% é branca, 42,7% é parda, 5,4% é negra, 0,5% é indígena e 0,3% é de origem asiática.

Ainda assim, faltam personagens negros nos livros de História e das outras disciplinas. Para Ruy Pavan, pai de Maira e Pedro, coordenador do Unicef nos estados da Bahia, de Sergipe e do Espírito Santo, a própria família e a escola reproduzem estigmas depreciativos, e intervir neste universo é fundamental. “É preciso mudar o processo pedagógico, e a criança tem de se ver retratada na história”, diz ele. “Os personagens negros necessitam ser valorizados e identificados nos livros”, comenta Licia Barbosa, coordenadora do Projeto Escola Plural da Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras. Dentro dessa visão, em 2003 foi criada uma lei federal que obriga a inclusão da matéria História e Cultura Negra no currículo de todas as escolas, desde a educação infantil.

Não precisa nem de pesquisa. Sabemos que a maior parte dos alunos das escolas particulares é branca e que negros e pardos estão no ensino público. Uma divisão que tem razões econômicas, sociais etc., que a gente não vai discutir aqui, mas que faz com que todos percam em convivência e aprendizado.

Sophia, de 6 anos, filha de Deise Nasci-mento, sempre estudou em colégios particulares e, por ser negra, é a “diferente”. Como a mãe trabalha a questão da auto-estima e valorização da raça desde que a filha era bem pequena, o fato de ser minoria no colégio nunca foi problema. “Tenho orgulho da minha raça e sempre passei este tipo de valor. Ela é muito bem resolvida, e acho que por isto não tem problemas com as outras crianças”, diz Deise. Aos 4 anos, Sophia mudou para o Colégio Palmares e, na época, era a única aluna negra (apesar do nome da escola). Mesmo assim, a mãe comenta que a garota nunca sofreu qualquer tipo de discriminação. “Minha filha era muito querida. Apesar de todos serem brancos, ela nunca quis ser igual à maioria”, conta.

Boneca preta, morena, japonesa…

Falta de auto-estima por ser negra nunca foi problema para Antônia Joice Venâncio, mãe de Luiz Guilherme. Como sua avó não achava bonecas negras para comprar, as confeccionava ela mesma, com tecido preto ou marrom. “Todos queriam pegá-las, e eu ficava orgulhosa porque só as minhas eram diferentes”, conta. Já adulta, incomodada com o excesso de bonecas loiras em um país tão diversificado como o Brasil, passou a criar bonecas negras e iniciou um trabalho de pesquisa e divulgação.

A loja Preta Pretinha, no bairro da Vila Madalena, São Paulo, pediu para que uma grande empresa de brinquedos produzisse bonecas negras de vinil. A loja é uma coisa! Lá, além das negras, você encontra morenas, loiras, ruivas, indígenas e orientais. Os preços também são democráticos.

Como criança aprende se divertindo, os brinquedos ajudam na formação dos pequenos. Na escola infantil Sol da Vila, em São Paulo, bonecos das mais variadas cores e raças passam pelas classes em um sistema de rodízio, e a farra é tratá-los como amigos de verdade. Cada brinquedo passa o fim de semana na casa de um aluno. Os pais devem preencher um relatório contando como o “novo amigo” foi tratado. Idealizado pela diretora Juliana Soares, o Projeto dos Bonecos faz com que as crianças aprendam a conviver com as diferenças e respeitá-las desde cedo.  “É uma maneira de integrar o aluno no universo real brasileiro. Apesar de a escola particular infelizmente ter menos negros, não é esta a realidade do país. O Brasil é mistura de muitas cores e raças”, diz Juliana. As crianças adoraram a experiência. E a gente também.

Escola para todos

É lei: toda escola é obrigada a aceitar qualquer aluno, tenha ele as características que tiver. Para isso, é preciso que a equipe toda se prepare para atendê-lo da melhor forma possível.

Até pouco tempo, a questão das pessoas com deficiência ou com alguma alteração genética era um “problema” da família, que geralmente recorria a escolas especiais. Milhões de crianças eram isoladas: segundo o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), cerca de 2,9 milhões de brasileiros de 0 a 17 anos têm algum tipo de deficiência, sendo, a mais comum, a incapacidade ou grande dificuldade para enxergar.

A escola Vera Cruz, uma das mais conceituadas de São Paulo, procura montar as classes da forma mais heterogênea possível. Atualmente, ela tem alunos com alterações genéticas diversas, portadores de deficiências motoras e mentais, além dos que apresentam déficit de atenção e audição. Os professores e coordenadores são preparados para lidar com as mais diversas questões, e a parceria com a família é fundamental. Nesse colégio, um dos meninos tem síndrome de Down e uma garotinha anda em cadeira de rodas, por exemplo. O primeiro passo para que os alunos convivam bem, cada um com suas características, é poder falar abertamente sobre as dificuldades de todos. Segundo a orientadora educacional Gláucia Affonso, mãe de Marina e Ana, as crianças com deficiência convivem muito bem com as demais e vice-versa. “Os alunos com características mais comuns aprendem a ser mais generosos. Os outros têm a possibilidade de desenvolver habilidades que talvez em uma escola específica não conseguissem, justamente pelo convívio com gente diferente”, diz.

Quem sabe disso muito bem é Ieda Soares, mãe da Carol, 7 anos. Sua filha tem síndrome de Down e estuda na escola Anima, também em São Paulo. “Levei muita porta na cara, por preconceito e por incapacidade de muitas escolas”, diz. Satisfeita com a evolução da Carol, afirma que nunca imaginou sua filha em uma instituição especial. “Ela adora o lugar onde estuda e se dá bem com os alunos”, diz. “Conviver com as diferenças é importante e bom para todo mundo. Para a Carol e para as outras crianças”, completa.

Consultoria: Celso Antunes, professor e especialista em Inteligência e Cognição. www.celsoantunes.com.brJuliana Kuege Soares, educadora e diretora da escola Sol da Vila. Tel. (11) 3031-4061.Gláucia Affonso, orientadora educacional da escola Vera Cruz. Tel.(11) 3021-2050.