Criança

Como lidar com a adaptação na escola?

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Por Mônica Dallari, mãe de Bruno, João e Dalmo

“Não vou me adaptar”, cantavam os Titãs numa canção que já completou 20 anos, mas parece que foi ontem que tocava sem parar. Também parece que foi ontem que seu filho nasceu. Mesmo assim, daqui a alguns dias, ele vai estar longe de você, na escola. Talvez não tenha se dado conta, mas o processo começou faz um tempo. Ao escolher o colégio e efetuar a matrícula, já deu o primeiro passo para que seu filho conquiste autonomia. Claro que a gente morre de medo que ele se recuse a entrar na sala e adote o refrão da música antiga. Mas quem precisa mesmo de calma somos nós. Afinal, se o filho diz “tchau”, sem nenhum draminha mínimo, o coração da gente é que protesta.


Não é à toa que toda escola tem o chamado período de adaptação, para que tanto pais quanto filhos se acostumem, gradativamente, à nova situação. A partir de agora, seu pequeno será responsável pela construção de vínculos afetivos e por apoderar-se de novos espaços físicos. Pela primeira vez, sem a sua interferência. “Muitas vezes a criança não quer mais ficar apenas no espaço da família”, confirma a orientadora do ensino infantil do Colégio Assunção, de São Paulo, Lilian Moniz, mãe de Luiz Gustavo e José Octavio. A criança se abre para o mundo por meio da escola.
Ela precisa e deseja isso. Então, deixe que ela vá para o mundo, sem medo.

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Rito de passagem


As escolas tentam tornar esse rito de passagem o mais natural possível. Por isso, recebem a criança com músicas e brincadeiras. “A idéia é que ela perca o medo de ir a um lugar que pode ser tão prazeroso”, afirma Beate Althuon, diretora do Colégio Humboldt, de São Paulo, mãe de Alexander e Karin.
Normalmente, esse período leva cerca de uma semana, mas pode levar duas e, em casos mais complicados, até meses.


As escolas mais rígidas, que determinam um prazo fechado, hoje são exceção. Converse antes para evitar estresse. Se você acha que seu filho pode precisar de mais tempo, talvez seja o caso de rever a escolha. Mas, se concorda que, depois de uma semana, chore ou não, tem de acostumar, tudo bem. O importante é que a filosofia da escola bata com a sua. Só isso já é uma tranquilidade.


A regra é a criança ficar algumas horas nos primeiros dias, meio período mais adiante e então chegar a permanecer até o final do período normal. Resista à tentação suprema de comparar o seu filho com os outros novos alunos. Cada criança tem a sua história, o seu tempo. Mesmo que seja difícil acreditar agora, tudo vai se ajeitar. No tempo dele.


Não foi fácil para Sílvia Cicci Martin acreditar que o filho, Luiz Felipe, de 4 anos, um dia fosse gostar de ir à escola. Único filho, neto, sobrinho e bisneto da família, quando nasceu, o avô estava muito doente. A alegria de ter o primeiro neto homem, depois de três filhas mulheres, o ajudou na recuperação. Resultado: acabou mimado. Como os pais trabalhavam, desde bebê foi cuidado pela avó Yola. Bastante retraído, começou no maternal com 3 anos, contra o desejo da mãe, que preferia vê-lo na escola com 1 ano e meio. “Ele tinha muita dificuldade de se relacionar, ficava sempre sozinho”, relata Sílvia.


Depois de se decidir pelo Colégio Assunção, Sílvia conversou com Luiz Felipe e o levou para conhecer a escola. A sensação de que as coisas seriam mais fáceis, depois do entusiasmo inicial do filho, acabou frustrada. Nas primeiras semanas, Sílvia precisou ficar na sala de aula durante todo o período de aula. “Se eu me levantasse, ele chorava e se agarrava a mim.” Passado um mês e meio, a situação não melhorou. “Ele temia que eu saísse e não voltasse para buscá-lo.”


Foi um momento doloroso, que trouxe à tona desavenças entre a mãe e a avó. “Ele não tinha limites, achava que podia tudo.” Lilian Muniz explica: “Para avós que cuidam dos netos, é difícil, porque revivem a sensação do ‘ninho vazio’”. E completa: “A criança intui quando a família resiste e se aproveita disso”.
O apoio da escola aliado à determinação de Sílvia foram fundamentais. “As educadoras contaram casos semelhantes e me deixaram mais segura.” Depois de um mês e meio, foi a avó que ficou com Luiz Felipe na escola. “Eu ia embora com o coração partido porque o deixava chorando. Entrava no carro e quem chorava era eu.” Foram três meses difíceis. Hoje, quem vê o garoto todo feliz na hora de ir à escola nem imagina como foi todo o processo. Portanto, respire fundo e siga em frente.


O momento da adaptação à nova rotina será necessário para produzir o registro de que, afinal, conhecer o mundo vale a pena. “Não importa o tempo que a adaptação vai levar, mas que produza marcas boas no tempo dela”, afirma a coordenadora do Departamento de Psicologia do Colégio Santo Américo, de São Paulo, Deborah Bulbarelli Valentini, mãe de Renato e Gustavo.

Ajuda paterna


Em alguns casos, a criança surpreende e, rapidinho, já está integrada. Suzi foi para o minimaternal com 1 ano e meio, no início do segundo semestre. Filha única de Sofia e Paulo Maldonado, sempre teve facilidade para se adaptar a novas situações desde que seja avisada antes. “Conversei como seria a nova escola, as mudanças que ocorreriam”, diz a mãe. A garota começou a freqüentar a escola no segundo semestre, enquanto o resto da turma já havia passado por todo o processo de adaptação no primeiro. Muitas vezes, o fato de chegar a uma turma já formada pode até facilitar o processo. A preparação que antecedeu o primeiro dia de Suzi na nova escola também ajudou. Sofia fez uma vasta pesquisa antes de se decidir onde colocá-la. Segura da decisão, levou a filha para conhecer o novo espaço. O primeiro contato com a escola, a forma como será apresentada à criança, irá interferir na boa aceitação dessa nova realidade. “A confiança dos pais nos educadores é fundamental”, afirma Deborah. “A gente pode muito bem passar sem mãe; as mães é que acham que os filhos não podem passar sem elas.” A citação faz parte do clássico Peter Pan, o menino que não queria crescer, mas, na maioria das vezes, a gente é que, secretamente, gostaria de vê-los sempre pequenininhos, vai dizer que não?


Se você, lá no fundo, tem medo de que seu filho se esqueça de você, fique tranqüilo. O papel da escola na construção de novos  vínculos é muito claro. “A mãe não está sendo trocada”, afirma Lilian Moniz. Deborah Valentini reforça que “muitas mães entram em competição com a escola, mas a função de estruturar a criança é exclusiva delas”. Uma dica para mães muito ansiosas é pedir para o pai assumir a tarefa. “Normalmente, com o pai, a adaptação fica mais fácil, ele libera mais rápido a criança”, diz Lilian Moniz.  


“Se os pais não puderem ir, pode ser a babá, uma tia, mas é preciso ser uma pessoa que passe tranqüilidade para o aluno”, afirma Deborah Valentini. A segurança dos adultos é importante para fazer desse momento o mais prazeroso possível. Aperte os cintos e boa sorte!

Consultoria
Deborah Bulbarelli Valentini,psicanalista, tel. (11) 3817-5652.Beate Althuon, educadora,
tel. (11) 5686-4055.
Lilian Moniz, educadora, tel. (11) 3887-3433.

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