Criança

10 regras de ouro para fazer seu filho comer bem

Karen Len Billon, autora do livro "Crianças Francesas Comem de Tudo", conta como ter uma alimentação saudável

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

 

Canadense casada com um francês, Karen nunca teve uma alimentação caprichada. Só foi descobrir o prazer de comer bem ao se mudar com a família para a França. Na temporada por lá, ela e suas filhas, Sophie e Claire, na época com 5 anos e 1 ano, sofreram um choque cultural: enquanto o único “legume” que as meninas comiam era batata frita, as crianças francesas se deliciavam com alcachofras, rabanetes e frutos do mar (só para citar alguns). Aos poucos, os chiliques com tudo e qualquer coisa que fosse verde deram lugar ao prazer por alimentos como beterraba, alho-poró e espinafre. A nova cultura permaneceu, mesmo na volta da família ao Canadá. Já rendeu um livro e, em 2015, deve ser lançado no Brasil o segundo, também sobre alimentação. Não precisa nascer de novo, muito menos na França, para mudar os seus hábitos e os do seu filho!

Onde você passou sua infância?

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Nasci em Montreal (na parte do Canadá onde se fala francês) e cresci em Ottawa (na fronteira entre a parte que fala inglês e a parte que fala francês no Canadá). Minha melhor amiga na infância falava francês, minha família falava inglês em casa. Então eu poderia dizer que meu amor pelos franceses foi instigado desde cedo.

Como eram seus hábitos alimentares nessa época?

Básicos. Minha família comia uma pequena variedade de coisas. Pouquíssimos frutos do mar e nada de peixe fresco, por exemplo.

Você acha que hoje as crianças têm hábitos alimentares piores do que nas décadas de 70, 80 e 90?

Sim. Pesquisas mostram que o consumo de salgadinhos e refrigerantes cresceu radicalmente desde os anos 70. Além disso, o número de salgadinhos consumidos por dia aumentou significantemente (de em média um pacote por dia para três por dia nos Estados Unidos). Eles são os principais responsáveis pelo aumento da média calórica consumida pelos americanos nas últimas três décadas. A situação é muito parecida em muitos outros países em desenvolvimento, como México e Brasil.

 Você acha que essa preocupação com uma alimentação saudável é concentrada em determinados lugares e classes sociais?

Essa é uma boa pergunta. Em geral, famílias com mais renda tendem a ser mais conscientes em relação aos hábitos de alimentação saudáveis. Elas também têm dinheiro para comer bem.

No entanto, uma coisa não está necessariamente ligada à outra. Famílias mais ricas com frequência confiam nas “comidas de conveniência”, incluindo as processadas, pré-preparadas e compradas prontas, que tendem a ser pouco saudáveis. Em Vancouver, onde eu moro, as famílias mais pobres às vezes comem melhor porque não podem pagar essas comidas de conveniência: elas cozinham comidas frescas em casa – e essa é a forma mais saudável de todas de se alimentar. Mas há, sim, uma relação entre dinheiro e alimentação saudável, o que é perturbador. Se crianças mais pobres não estão se alimentando de maneira saudável, isso pode ter impactos a longo prazo no seu desempenho escolar, em sua saúde física e até mental.

Em geral, a culpa é dos pais se as crianças têm hábitos alimentares ruins?

Sem culpa! Temos que tirar associações emocionais negativas da mesa de jantar. Tenho duas razões para isso. Primeira: se nomearmos as comidas como “boas” ou “más”, o risco é de que a criança internalize essas emoções – se sentindo “mal” por gostar de comidas “más”. Melhor seria ensiná-las de que há “comidas que comemos regularmente” e “comidas que comemos só de vez em quando”. Nenhuma é totalmente ruim. Por exemplo, bala não é “ruim” e uma criança não é “má” por gostar. Esclarecer isso evita o risco de criar distúrbios de alimentação mais tarde. Em segundo lugar, as pessoas não tendem a ser persuadidas por emoções negativas. Dizer a alguém para parar de comer determinado alimento porque é “ruim” não costuma funcionar. Por que ensinamos às crianças que “bom para você” não é gostoso e que “isso não é bom para você” é gostoso? Nós precisamos ensiná-las que comidas saudáveis também são saborosas. Brócolis, hummm. Pesquisas mostram que as crianças que acreditam que comidas saudáveis são gostosas estão muito mais propensas a escolhê-las. Isso funciona melhor do que métodos negativos alarmando os perigos de se alimentar com coisas “ruins”. Lembre-se: comida é para ser prazerosa. Dividir a comida é um dos ritos sociais mais importantes da vida.  

Brincar com a comida parece ser um jeito de ficar mais confortável com ela. Mas os franceses não permitem isso. Qual é a sua conclusão sobre esse tema?

Escolher não brincar com a comida é um sinal de respeito – para a pessoa que preparou a refeição, para quem produziu os ingredientes, para o meio ambiente e para a Terra – fonte de todos os alimentos. É possível se sentir confortável com a comida sem brincar com ela, e devemos evitar especialmente qualquer brincadeira que desperdice comida.

A atitude da criança à mesa faz diferença no que ela come?

 Sim! Uma atitude curiosa, confiante e de mente aberta vai ajudar muito.

E a presença dos pais?

Pesquisas mostram que as crianças estão mais propensas a experimentar (e gostar) de uma comida nova se os pais, ou outros adultos em quem ela confia, experimentam e gostam primeiro. Estudos também sugerem que crianças que passam as refeições com a família com frequência experimentam benefícios reais, como um desempenho melhor na escola.

No Brasil, algumas famílias almoçam ou jantam enquanto assistem televisão. Você acha que isso pode ser prejudicial?

Tudo com moderação! Assistir TV numa ocasião especial (como nas Olimpíadas) pode ser OK. Mas, se for um hábito, você tende a ignorar a comida e evitar conversar.

As refeições deveriam ser momentos para se concentrar no outro, na família. Eu recomendo desligar todos os aparelhos eletrônicos na hora de comer.

Você fala no livro sobre a relação pouco familiar com a cozinha e com o ato de cozinhar. Depois da experiência de viver na França, está cozinhando melhor?

Sim! Meu repertório aumentou muito, e agora fico ansiosa para experimentar coisas novas.

Pais que cozinham com frequência têm filhos que comem melhor?

Com certeza. Se tem crianças mais velhas, você pode envolvê-las na hora de cozinhar, isso realmente ajuda a gostar de mais alimentos.

Quais são os erros mais comuns durante as refeições?

Fazer pressão para o filho comer  é quase sempre contraprodutivo. Reclamar sobre os hábitos alimentares do seu filho – comentários negativos criam uma atmosfera negativa na mesa, o que não ajuda. Servir novas comidas de um jeito “assustador”: uma porção muito grande do novo alimento, ou servir sem o acompanhamento de um alimento já conhecido da criança.

Antes do seu livro, foi lançado no Brasil o Crianças Francesas Não Fazem Manha, de outra autora. Você acha que as duas coisas estão relacionadas?

Bem, crianças francesas fazem birra, sim! Eu casei com um francês e vivi dentro de uma família francesa, então eu vi a realidade deles. Não acho que os pais franceses sejam perfeitos, na verdade há muitas coisas que eles poderiam aprender de outras culturas.

Você acha que na América do Norte (assim como no Brasil) o problema é que ninguém prioriza uma alimentação saudável?

 Acho que é mais complicado. Há múltiplas pressões nas famílias: pais que trabalham, têm pouco tempo e orçamento apertado, a pressão da publicidade e da própria família.Priorizar uma dieta saudável é difícil, dadas essas pressões. De qualquer forma, as pessoas podem e devem fazer essa escolha. Mas precisamos reconhecer que é difícil para alguns.

Sua filha mais velha já era grandinha quando vocês se mudaram para a França. Mesmo assim, os hábitos alimentares dela mudaram. É possível fazer essa transformação mesmo quando o “trabalho” começa tarde?

Claro! Meu próximo livro, Getting to Yum (ainda sem nome em português, previsto para ser lançado por aqui em 2015), vai mostrar estratégias práticas para um “treino de paladar”, além de brincadeiras para crianças de todas as idades.

Você acha que a França é o único lugar em que as pessoas AMAM comida, como descreve no livro? Parece que a alimentação é o centro de tudo!

Há muitos países que amam comida – Itália e Japão são bons exemplos. Mas a França é bastante singular na medida em que a cultura culinária é fundamental para a sua identidade. Isso acontece por causa da história da França moderna. Receitas aristocráticas e rituais de alimentação aos poucos se tornaram democratizados depois da revolução, disseminados pelo sistema escolar, que ensina essa cultura às crianças.

A aparência da comida é importante para incentivar as crianças na hora de comer?

Com certeza. Até crianças pequenas serão mais tentadas por comidas atraentes. O tamanho importa também. Quantidades menores são melhores para muitas crianças.

O que você pensa sobre enfeitar o prato das crianças, fazendo carinhas divertidas, peixinhos ou estrelas, por exemplo, a fim de convencê-las a comer?

 Uma ótima ideia – e é uma das sugestões que faço no meu próximo livro.

Os lanches fora de hora são os vilões?

Eu sugiro oferecer um lanche por dia, com hora determinada: no meio da tarde, depois da escola, mas pelo menos uma hora antes do jantar.

Depois de voltar para o Canadá, você conseguiu manter os bons hábitos alimentares?

Sim! Nós continuamos comendo como os franceses, quase toda noite. Um jantar em família à mesa com três pratos de comida caseira.

Você trabalha com o quê?

Sou professora numa universidade, onde ensino sobre questões ambientais.

Como você consegue trabalhar e ainda cuidar da alimentação de casa tão bem?

Sendo organizada, dividindo a responsabilidade com meu marido, e fazendo da comida uma prioridade na nossa rotina diária. Esse é o segredo – uma vez que é uma rotina, não toma muito tempo. Às vezes, nosso prato principal à noite é simplesmente uma sopa, mas calorosa, saudável e caseira. Planejar com antecedência e congelar pratos também ajuda quando ambos os pais trabalham.

Família é tudo?

Sim, mas acredito que as famílias podem ter muitos formatos e tamanhos diferentes.

A infância passa rápido.Como aproveitar melhor?

As pessoas dizem sempre que educar crianças é um trabalhão para os pais. “Os dias são longos, mas os anos são curtos”! Lembre-se que a felicidade é encontrada no caminho, não

apenas na chegada.

10 regras de ouro

1. Pais: vocês são os responsáveis pela educação alimentar!

2. Não comer por razões emocionais. Nada de recompensas, suborno, chantagens…

3. Pais organizam refeições e cardápios. As crianças comem o que os adultos comem!

4. Fazer as refeições em família e sem distrações.

5. Comer legumes e verduras. O segredo é variar.

6. “Você não tem que gostar, mas tem que provar.” Repetir, dizer isso em todas as refeições, sempre.

7. Nada de beliscar! Tudo bem ficar com fome entre as refeições.

8. Slow Food é refeição feliz, ou seja, coma devagar!

9. Comer comida de verdade. Guloseimas só em ocasiões especiais.

10. Lembre-se: comer é um prazer. Aproveite!