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Skype e Ratoeiras

Como eu e minha família nos sentimos próximos da nossa filha que parece tão longe fisicamente

Ratoeiras e Skype

O título parece estranho. Parece não, é estranho mesmo. Como duas coisas tão diferentes podem estar juntas? Skype é sinônimo de tempos digitais, da era em que vivemos, de um olhar para frente, do mundo contemporâneo. Marca super badalada, disputada, desejada e valiosa. Ratoeiras, por outro lado, apontam para o passado, um objeto quase primitivo, rudimentar, meio que esquecido nos dias de hoje.  Fica empoeirado em lojas e mercadinhos, escondidos e limitados à area de produtos em desuso e asquerosos. Então por que Skype e ratoeiras estão juntos?

Simples. Ambos, Skype e ratoeiras, me colocaram próximos de minha filha de 22 anos que há mais de 4 anos saiu de casa para fazer faculdade nos Estados Unidos e recentemente, já formada, está começando sua carreira por lá.  Mas afinal, por que Skype e ratoeiras?

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A história é a seguinte. Desde que minha filha saiu de casa o Skype tem sido o melhor amigo meu e de meu marido. Com Skype é como se ela estivesse conosco na sala de casa, sentada à mesa em nossos deliciosos jantares com meus pais às sextas à noite ou jogando conversa fora num domingo qualquer. O Skype, e isso todo mundo sabe, aproxima pessoas e conosco a história não foi diferente. Nem posso imaginar se o Skype não existisse. Certamente nossa vida de pais com uma filha longe de casa seria quase insuportável. Skype alivia, pelo menos temporariamente, a distância. E aí, onde entra a ratoeira afinal nesta história?

Filhos crescem, saem de casa e ficam independente. Bom, esse é um bom sinal de que o trabalho dos pais foi bem feito, certo? Fala-se que temos que dar asas para os filhos voarem. Pois é, minha filha já voou. Longe, bonito e nos enche de orgulho. Hoje, com uma dupla formação, como Economista e Socióloga, e com um bom emprego, já é quase independente aos 22 anos. Alugou apartamento na nova cidade, negociou, mobiliou, contratou serviços básicos como internet, televisão a cabo etc. Enfim, sózinha, pôs a casa para funcionar. Quase sozinha pois hoje divide o apartamento com o namorado de longa data. A história tá enrolando e nada da ratoeira…

Tudo tranquilo, vida independente até que….aparece um rato no apartamento dela!! Sim, um rato em Nova York! Quando pensamos em NY lembramos da 5a Avenida, da Estátua da Liberdade, Central Park. Como assim, rato?? Pois é, assim como São Paulo, cidades grandes mesmo no Primeiro Mundo sofrem do mesmo mal. Há ratos por lá também. Aquela menina, nossa filha, forte, poderosa e independente ficou desesperada com um rato que quebra o romance da vida na Big Apple. Calma, estou quase chegando na ratoeira…

A independência dá lugar à fragilidade. A segurança se rende à raiva. Nossa filha precisava de nós de novo e por sorte estávamos por lá com ela passando uns dias. Melhor eu corrigir a frase, por sorte meu marido/pai da nossa filha estava por lá. Deixando de lado a valentia que a caracteriza, nossa filha quase pulou para o colo do pai pedindo ajuda para se livrar do rato (na verdade acho que era um camundongo). Ao invés de gastarmos os dias explorando lojas charmosas, como muitos brasileiros fazem quando em Nova Yok ( e nós também, até então), pesquisamos onde comprar ratoeiras. Nada menos romântico, por um lado. Nada mais empolgante por outro. Nos empenhamos na tarefa. Compramos várias ratoeiras e queijo para torná-la mais atraente ao pequeno animal que desafiava nossa filha, correndo pelo apartamento. Voltamos com ratoeiras em punho, meu marido armou-as, queijos bem posicionados e espalhamos todas pela casa. Era apenas esperar pelo ratinho, o apartamento está um campo minado.

Menos de 24 horas e BANG, era uma vez um ratinho! Agora nossa filha já podia respirar tranquila que o pobre animal não mais a incomodaria. Ela, com seu bom coração de sempre, já estava penalizada pela morte precoce do ratinho. Nós como pais, felizes por tê- la protegido.  Afinal, missão cumprida. Bom, mas o que tudo isso tem a ver com o Skype?

De formas diferentes, uma bem digital e outra bem analógica, nos sentimos próximos de nossa filha. Pelas conversas pelo Skype ou armando ratoeiras para protegê-la sentimos que, apesar da distância que hoje nos separa, somos eternamente dependentes uns dos outros e estamos próximos, seja no mundo digital do Skype seja na rudimentar tarefa de caçar ratos.

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