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Opt-out? Mãe ou Pai? Para pensar!

A escolha por sair ou não do trabalho para cuidar dos filhos não precisa ser só da mãe. A colunista Cecilia Russo sugere que a bola seja passada para o pai

Primeiro de tudo peço licença para explicar porque estou usando no título um termo em inglês. Poderia ter tentado algo como largar a carreira ou sair do mercado. Porém, o poder de síntese da língua inglesa e a capacidade dos americanos em criar termos são imbatíveis e por isso segui com opt-out mesmo. Pelas tentativas de tradução que sugiro, acho que já deu uma ideia para entender a que o termo se refere. Mas vale voltar um pouco e revisitar como esse termo surgiu nos Estados Unidos e como tem sido usado abundantemente por lá.

            Quem criou esse termo foi Lisa Belkin, em um artigo cujo título, já traduzido para o português, era: “A revolução do Opt-Out”. O que ela argumentava em 2003, quando o texto foi publicado no jornal New York Times, era que muitas mulheres qualificadas estavam abrindo mão de suas carreiras e voltando a se dedicar exclusivamente à casa e/ou à família. O que poderia ser considerado um retrocesso, em termos feministas, foi visto por Belkin como uma opção forçada que muitas mulheres estavam tomando. Na verdade, elas não estavam optando coisa nenhuma, as mulheres estavam sendo expulsas do mercado por uma série de fatores que tornavam incompatível o gerenciamento da carreira simultaneamente à família. Também nos Estados Unidos, em 2007, a socióloga Pamela Stone ampliou a discussão com uma pesquisa que se transformou num livro cujo título é “Opting Out: Why Women Really Quit Careers and Head Back Home”, numa tradução livre, algo como “Por que as mulheres estão abandonando suas carreiras e voltando para casa”.  Assim como Belkin, Stone estava preocupada com o que estava acontecendo por trás desse movimento, ou revolução, como conceituou Belkin.

            Não quero aqui trazer todas as conclusões a que chegaram, mas o conceito que permeia tudo é a ideia de que as mulheres não encontram o amparo necessário, nem nas empresas e tampouco em suas casas, para seguirem com suas vidas de equilibristas, no padrão de qualidade que almejam. A opção é então, em bom português, cair fora. Aliás, apenas como curiosidade, nos Estados Unidos, considerando a população de mulheres entre 25 e 54 anos, 74% eram ativas economicamente. Na mesma medida em 2013, esse número caiu para 69%. Infelizmente não tenho os números brasileiros, mas fico curiosa para saber se estamos mais para as americanas, isto é, no movimento opt-out, ou se mais para as mulheres de outros países desenvolvidos, onde a presença da mulher apenas cresceu em quase todos?

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            O que eu acho uma discussão das mais relevantes hoje em dia em relação ao opt out é pensarmos a partir de dois ângulos. O primeiro é o que tem sido explorado por várias pesquisas, inclusive a feita por Stone, de entender as origens desse fenômeno. E também mais do que isso.  Ir além e propor discussões do que pode ser feito para estancarmos esse “vazamento” de mulheres do mercado de trabalho, muitas delas com qualificação para assumirem postos de liderança fazendo assim com que diminua a disparidade de gênero que ainda temos nas posições mais altas dentro das empresas. O segundo ângulo que é, a meu ver, pouco explorado, é o de diante da eminência do opt-out, se ele for mesmo o caminho inevitável, mesmo que de forma provisória, por que pensar em opt-out é principalmente pensar em um fenômeno feminino? Sim, claro, na fase da amamentação não há como o pai estar no lugar da mãe, se o bebê estiver apenas com o leite materno, mas e em outras fases da vida? Opt out é só para mães? Quem disse isso ou o que determina pensarmos nisso?

            De novo, esse texto é curto para abordar todas as questões psicológicas e sociológicas e por que não também econômicas que nos levam a pensar em opt out como uma opção mais das mães e do que dos pais. Mas queria usar essa oportunidade para antes da tomada de decisão refletirmos sobre quem é o mais indicado para opt-out: o pai ou a mãe? Ou seja, antes de assumir que é a mãe, quase que num modo automático, vale considerar os pontos abaixo:

1. Em que momento cada um está da carreira? Quem será “menos” prejudicado com um afastamento, mesmo que temporário?

2. Nas finanças da família, o que representa a saída de cada um? Qual o impacto no orçamento se a renda do pai sair ou a da mãe sair?

3. Quem está mais ou menos satisfeito com o trabalho? E na mesma medida, quem mais está sofrendo com a distância ou menos tempo com os filhos?

4. Que prazer dará para cada um a decisão tomada? Qual o impacto para uma mãe ou pai abrirem mão da carreira? E qual o impacto para uma mãe ou pai ficar em casa com os filhos? Aqui falo mesmo de uma análise do efeito emocional para cada um.

5. Que tal ouvir os filhos, se eles já puderem também opinar? O que eles acham disso tudo?

            Essas 5 questões não esgotam de jeito nenhum outras tantas perguntas que podemos nos fazer para tomar a decisão. E claro, sempre há a possibilidade de se pensar em caminhos alternativos, como home-office, carreiras mais “virtuais” e coisas do tipo. Apenas queria pensar em caminhos que pudessem ver que há outras possibilidades e elas podem também ser muito boas. Recentemente me encontrei com uma amiga e soube que seu marido havia parado de trabalhar para cuidar do filho. A mãe/esposa havia assumido um cargo num outro país e o casal, pelo menos temporariamente, achou que essa seria a melhor decisão para o casal. Neste caso, o opt-out foi do pai e todos estão muito felizes com o desfecho: pai, mãe e filho.

            Não falo de opt-out para nos desincumbirmos de pensar em soluções que não obriguem pai ou mãe a abdicarem de suas carreiras. Apenas queria que essa opção não fosse apenas jogada para as mães. Para pensar!

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