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O preço da maternidade e o bônus da paternidade

A colunista Cecilia Russo Troiano escreve sobre as diferenças entre o mercado de trabalho para homens e mulheres após o nascimento dos filhos

“Uma das piores decisões na carreira que uma mulher pode fazer é ter filhos. Ao contrário, para os homens, ter filhos é um ganho para a vida profissional”.

Foi com essas palavras que na edição do dia 7 de setembro o célebre jornal americano New York Times abriu uma materia sobre o impacto da maternidade/paternidade na carreira de homens e mulheres. Em pleno dia da independência de nossa pátria, tal notícia me parece chocante, para dizer o mínimo. Vou explicar o que está por trás dessa afirmação, baseada em pesquisa conduzida por uma socióloga americana da Universidade de Massachussets, Michelle Budig, em um estudo que conduziu durante mais de duas décadas.

O que a pesquisa revela?

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– Ao ter filhos, a mulher diminui suas chances de conseguir um emprego, é percebida como menos competente e caem suas chances de ter salário equivalente a um homem que tenha as mesmas qualificações e tempo de “casa”;
– Para o lado dos pais, as coisas melhoram com a paternidade: suas chances de ser contratado crescem em relação a um homem sem filhos e ainda conseguem salários mais robustos após se tornarem pais.

É isso mesmo o que leram acima! O preço da maternidade para a carreira da mãe é altíssimo, enquanto para os pais ele vem em forma de bônus! O que a pesquisa mostra é que não há nenhum fato concreto na dedicação ou número de horas que façam que essa diferença entre pais e mães exista. Ambos, nas mesmas funções, atuam de maneira semelhante. Se é assim, de onde vem tal “gap”?

Pois é, a resposta está na forma como o empregador, no caso a empresa, os vê. Apesar de todas as “provas” já dadas pelas mulheres, as empresas ainda não acreditam de forma plena na capacidade das mulheres em equilibrarem, ao mesmo tempo, a carreira e a maternidade! Dessa forma, as empresas enxergam os homens que são pais como pessoas mais estáveis e comprometidas com o trabalho, afinal, eles como provedores terão menos chances de “fazer corpo mole” e carregam a responsabilidade do sustento da família. Do lado das mulheres que são mães, o raciocínio é o oposto: a crença é de que elas trabalham menos e são mais suscetíveis a interrupções e distrações ao longo da jornada de trabalho. Como consequência dessa visão, após a maternidade a renda das mulheres cai em media 4%. E a dos homens sobe 6%! E vejam outro dado curioso, para não falar assustador: comparativamente aos homens, nos Estados Unidos, as mulheres sem filhos têm rendimentos de U$ 0.96 para cada U$ 1 dólar recebido pelos homens. Quando os filhos chegam, a diferença aumenta e elas passam a receber U$ 0.76 para cada dólar dos homens. Esses números mostram o que talvez muitos que estão lendo esse texto estejam pensando: ter filhos é um mau negócio para as mulheres e uma aposta certeira para os homens!

Vejo essa notícia com certa tristeza. Quando vamos parar de ter tantos preconceitos e olhar com uma lente antiga o papel do homem e da mulher? Até quando as mulheres precisarão provar que é possível ser competente no trabalho e ao mesmo tempo ser uma mãe? Mães são, hoje em dia, tão provedoras e tão competentes quanto os pais, e isso não é novidade, mas parece que para as empresas é. Como dizia uma propaganda de alguns anos da Fiat, “está na hora de você renovar seus conceitos”. Aliás, acho que já passamos da hora. 

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