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A busca da perfeição: uma grande armadilha

É impossível atingir a perfeição e essa autocobrança ainda pode prejudicar os pais e os filhos - Shutterstock
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Publicado em 21/07/2021, às 13h23 - Atualizado às 13h33 por Cecilia Troiano


A sociedade em que vivemos, como bem coloca o filósofo coreano Byung-Chul Han, prioriza o desempenho, a performance, a superação, seja a que preço for. E assim chegamos esbaforidos ao que ele chama de “sociedade do cansaço”, termo que dá nome a um de seus livros (que, aliás, recomendo muito a leitura). Não preciso esticar muito para chegar ao ponto que quero discutir com vocês neste texto: o fato é que essa busca incessante por desempenho impacta e muito nossas vidas como pais e mães e, pior, a vida presente e futura de nossos filhos. Queremos ser os melhores pais, os mais completos, os mais perfeitos e colocamos a nós e nossos filhos numa grande armadilha. E por quê?

É impossível atingir a perfeição e essa autocobrança ainda pode prejudicar os pais e os filhos (Foto: Shutterstock)

O porquê confesso que aprendi a duras penas, ao longo de minha jornada como mãe equilibrista. Para que eu me sentisse plenamente uma mãe perfeita, eu precisava ter do meu lado filhos também perfeitos. Em outras palavras, para eu me ver como uma mãe perfeita eu preciso da prova final: ser capaz de criar filhos perfeitos. A equação é simples, apenas sou perfeita se meus filhos também são. Qualquer sinal de que meus filhos não correspondem a essa expectativa coloca em xeque a minha própria identidade de mãe perfeita (ou não perfeita). O raciocínio parece simples, por vezes quando tento raciocinar friamente (se é que mães conseguem) chega a parecer até absurdo, mas acreditem, esse modo de pensar me acompanhou por muito tempo e precisei de muita terapia e autoreflexão para me livrar dele. De vez em quando, ainda dou umas patinadas e me vejo presa novamente na armadilha da mãe perfeita. A meu ver, essa ideia de mãe/pai perfeitos tem pelo menos duas consequências desastrosas:

  • A primeira é a responsabilidade que depositamos em nossos filhos para se moldarem aos nossos conceitos de perfeição. Será que aquilo que imaginamos que seja um filho perfeito é aquilo que nossos filhos esperam para eles? Ao definir perfeição a partir de nossos olhos, não estamos limitando o espaço de expressão dos filhos e colocando nossa régua como medida exata, estreita e única? Refiro-me ao peso que transferimos a nossos filhos para que eles carreguem o projeto de perfeição que está na cabeça dos pais e que não necessariamente espelha o que querem os filhos.
  • A outra consequência tem a ver com o controle que precisamos exercer para que essa rota da perfeição aconteça. Para que a perfeição seja plena é preciso estar o tempo todo monitorando e garantindo que tudo esteja correndo como o planejado dentro do plano perfeito. Seja com filhos pequenos ou com grandes é ilusório ou mesmo onipotente de nossa parte acharmos que controlamos nossos filhos. Podemos dar as linhas gerais, inspirar, ensinar e tudo mais que pais e mães com boa intenção fazem no dia a dia para educar e criar filhos saudáveis e felizes. Apesar de controlar estar muito além de nossa capacidade, nem por isso abrimos mão desse controle se temos em mente a perfeição. Já tentaram controlar a que horas um bebê recém-nascido quer mamar? Ou qual profissão um filho vai ter? Ou com que idade ele/ela irá se alfabetizar?

Minha conclusão é muito simples – vamos esquecer de uma vez por todas essa busca pela maternidade ou paternidade perfeita. Seja porque a perfeição não depende apenas do pai ou da mãe, seja porque ela é muito danosa para todos os lados. Que a ambição de sermos bons pais e mães possa ser nosso farol, com seus claros e escuros, mas jamais uma prisão, nem para nós, nem para nossos filhos.


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