Colunistas

Arco & Flecha

A gente faz de tudo e não recebe tudo em troca. Ou melhor, a recompensa vem a longo prazo, diz a colunista Ana Guedes

Sim, eu sei.
Você deu de mamar, chorou na porta da escola, se culpou por deixá-lo lá e ir trabalhar.

Sim, eu sei, você não dormiu todas aquelas noites e sabe que muitas outras estão por vir.

Você comprou a fantasia, você foi no passeio da escola, você comprou quase todos os brinquedos da propaganda e uma caixa de 20 achocolatados que ele nem pediu.

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Mas ontem, depois do show da Disney, ele quis ir para a vovó!!! Dormir na vovó!

Ele espera o pai com muito mais saudades dele do que suas, que levou trabalho pra casa só para chegar mais cedo!

Ele não briga com ninguém, só com você. Com o vovô é um mocinho, com a babá faz tudo, mas foi você chegar em casa…

Sim, ele briga com quem ele pode brigar, ele briga com quem sai mas ele sabe que vai voltar. E com aquela caixa cheia de achocolatado.

Sim ele briga com você!

Mãe só tem uma, e por isso mesmo a gente pensa:

– Será que para ele nada é suficiente?

Sim você é suficiente, mas ele não vai pagar na mesma moeda. Na sua moeda.
Vai pagar na dele, e às vezes em suaves prestações!

E lembre-se, para nós, nada é suficiente!

Tem coisas que a gente esquece. Mas lembra aquele dia, em que você xingou tanto sua mãe e ameaçou sair de casa por que ela era a pior mãe do mundo?
Não?
A gente esquece!
Até porque ela não era a pior do mundo, se não a gente não esquecia!

Mas o que é que fica dessa birra toda? Desta implicância comigo?

Fica a gente. Fica a mãe. Sempre a mãe. Como de algum modo ficou a sua.

Fica o colo quando você apertou o dedo na porta, fica a mão segurando a sua, fica o olhar atento, a segurança e a companhia no dentista ou na adaptação da escolinha.

E você nem agradeceu! Éramos muito pequenos para as palavrinhas mágicas, mas não para não saber quem era a mãe da gente.

Por isso te escrevo, por que um dia ou dois, ou até todos, nada que você faça vai parecer suficiente, mas é. Eles sabem que é.

Mas aquele abraço? Aquele obrigado? Aquele “você é a melhor mãe do mundo”?

Eles vêm, mas não todo dia.

Como nós não estamos dispostos todos os dias, como nós não amamos todos os dias, como nós que, antes de filhos, mães e pais, somos gente.

Quando o cansaço aparecer, o desânimo aparecer, corre pra academia, para aula de pintura, para um shopping ou o que te der prazer. Culpa não existe, nem mulher maravilha.

Peça ajuda, chame a vó, a tia, um passeio na casa da amiga… Tire uma hora de férias. Vá jantar com o marido. Saia com as amigas. Abasteça-se.

E jamais esqueça, apenas a sua moeda paga seu próprio carinho. Encha os bolsos para poder esvaziar e sobrar troco de amor.

”Como disse Khalil Gibran:
Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.”

Ame, apenas ame e acredite. E a culpa deixe para o bicho papão.

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