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“A tua voz muda, a minha fala”

A frase da minha amiga  Luciane Slomka diz muito sobre o que é ser mãe

coluna Ana Guedes

A tua voz muda, a minha fala. Foi o que escreveu minha colega e mãe Luciane Slomka, mãe da Dora, que ao contrário de mim não tem mais em vida a voz de sua mãe.

Mas a tem dentro de si, como todas nós.

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A voz da mãe. Avós da mãe.
Muitas vezes um problema, outras grito para solução.
Nasce um bebe, nasce uma mãe, nasce uma avó.
A mãe da mãe.
A voz da mãe é sem dúvida muito importante, imponente, ecoante. E sim, traz tanto prazer quanto dor. E ecos para uma vida toda.
Assim penso no peso das palavras que digo ao Pedro, e aprendi a pesar as palavras que minha mãe me disse e me diz.
Muitas vezes me desautoriza, cala minha voz, e me dá a nítida sensação de ser insuperável.
A melhor mãe do mundo.
Outras a pior, como todas nós.
Mães estão sempre certas.
Ou não.
Ao passo que compreendemos nossas mães como mulheres, pessoas, com nome outro que não seja mãe, compreendemos nossa própria maternidade.
E a impossibilidade de sentir-se, como o que chamou Winnicott, grande pediatra e psicanalista, de “mãe suficientemente boa” para nos mesmos; mas suficientemente boas para nossos filhos.
A única e velha saída do velho Édipo.
Tarefa antiga e mais árdua, sair de casa, ser dona de sua própria vida.
Somos mães andantes, errantes, e crescentes como as nossas.
Constantemente aprendendo a ser mãe.
Constantemente lembrando de ter sido filha.
Constantemente pensando em acertar os acertos da voz da mãe e evitar os erros.
Acontece que como diz minha querida Luciane, tua voz muda, a minha fala.
A voz de uma mãe nunca emudece.
Mas precisa constantemente se modificar.
Até um dia em que se torna menos voz da mãe, e apenas avó do neto. Em seu pleno direito e exercício.
Aí sim, dentro de nós, a nossa voz pode falar.
Ao nosso modo, ao nosso tom, mesmo discordante e necessariamente discordante da voz de nossas mães.
Pois mãe, só tem uma.

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