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Sobre sustos e sorrisos

Em sua coluna, Ana Castelo Branco fala sobre o dia em que recebeu a notícia que seu filho tem síndrome de down

Queria saber se ele iria sorrir

Queria saber se ele iria sorrir

Aconteceu 24 horas depois do parto. O médico entrou no meu quarto e ficou zanzando de lá pra cá cheio de conversa mole. Mas não desconfiei. Ele estava esperando meu marido voltar do jantar para dar a notícia. Para mim, porque meu marido já sabia. Imagina a situação: você, no restaurante do hospital, feliz da vida, celebrando seu primeiro filho. De repente, surgem o ginecologista e o pediatra pedindo para conversar ali fora. Fico pensando no que passou pela cabeça e pelo coração dele. Pior, imagino como ele se sentiu ao voltar para a mesa, depois de receber a notícia, tendo que encarar os amigos.

Os médicos perguntaram a ele se deviam me dar logo a notícia ou se era melhor esperar o resultado do exame de cariótipo, para o diagnóstico. Ele respondeu que preferia contar logo. Para mim, foi uma grande prova de que somos um casal de verdade, de que meu marido sabe que estamos juntos para o que der e vier e, principalmente, de que ele nunca vai me deixar no escuro. Com 40 anos, ainda morro de medo do escuro.

Voltando ao quarto, meu marido chegou um pouco depois do médico e trancou a porta. Ainda assim, não me toquei. Mas, quando meu marido fez a introdução dizendo “Amor, eu e o doutor estamos aqui para…”, entendi tudo. Não lembro exatamente como ele falou. Recordo apenas de palavras soltas: Mateus, talvez, down. Costumo dizer que nesse momento fui sugada para dentro de um filme. Tudo ficou enevoado. Não estou usando essa palavra para efeito dramático. Tudo ficou enevoado e assim permaneceu durante um bom tempo. Semanas.

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FECHAR

Eu só tinha duas perguntas. A primeira era se a síndrome representava risco à vida do Mateus. O médico garantiu que não. A segunda pergunta, eu não tive coragem de fazer. Nem naquele momento e nem nunca. Achei que era um detalhe pequeno demais perto da situação. Fiquei com medo de me acharem fútil, mas o que eu queria mesmo era saber se o Mateus um dia ia sorrir.

Dizem que todo pai e toda mãe idealizam o bebê que estão esperando e que todos passam, em diferentes graus, por uma coisa chamada frustração narcísica. Porque nenhum bebê nasce exatamente como a gente sonha. Ou ele não vai puxar os olhos azuis do avô. Ou ele vai chorar muito mais do que você imaginava. Alguma coisa não vai sair do jeito que você planejou.

Nunca me preocupei com a cor dos olhos do Mateus. Nunca perdi um segundo sonhando com um bebê Johnson. Mas eu sempre quis ter um bebê risonho.
E, como eu sabia muito pouco sobre a síndrome de down, tive medo que ela roubasse a única coisa que era muito importante para mim. Depois da saúde, claro.

Quatro meses depois, Mateus se revelou o bebê mais sorridente que já conheci. Ele nunca vai ter ideia do efeito que aquelas gengivas banguelas causavam em mim. Rapidamente também percebi suas dificuldades. O sentar só aconteceu aos 10 meses. E o andar, com mais de 2 anos. O falar, vixe, já vi que vai demorar. Mas não importa. Estou realizada. Por vê-lo todos os dias aprendendo algo novo, mas, principalmente, por ser capaz de fazê-lo sorrir. É a única coisa que realmente importa. Pelo menos para mim.

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