Colunistas

Boa forma, sim. Suadeira, não

"Se eu seguisse meu coração, voltava pra academia dos meus 17 anos e me reconciliava com a água"

shutterstock_244230367

(Foto: Shutterstock)

Eu já tinha 17 anos e o pula pula das aulas de ginástica rítmica não era pra mim. Me irritava com o som alto, a suadeira e o foco excessivo nos glúteos. Foi minha avó quem sugeriu a hidroginástica. Comprei um maiô de helanca preto, uma touca de borracha rosa e me matriculei na turma das 18 hs, à principio, três vezes por semana. Depois mudei pra todo os dias.

Me sentia em casa naquela piscina. A turma, composta por senhoras de 60 a 70 anos, era sensacional. Trocávamos receitas de longevidade no vestiário. Nossa guru era a Emília. Ela tinha 67 anos e um corpaço. “Só na hidro”, garantia. Mas, enquanto passava talco nos pés e na touca, liberava um ou outro segredo da boa forma.

Foi ela quem me ensinou a comer couve. Contava que pela manhã, aferventava uma folha do vegetal, batia e tomava com um pouco de limão. A barriga dela era uma tábua. Nunca testei a receita, mas procuro ingerir o máximo de couve por refeição. Quando lembro de comprar e de comer antes que as folhas amarelem, é claro.

Anúncio

FECHAR

Parei com a hidro dos 20 aos 25. Eu caminhava muito nessa época e me aventurava em esportes como ballet e surfe. Não obtive muito êxito em nenhum deles. Aos 26, grávida da primeira filha, voltei para as águas calmas e quentinhas e os exercícios relaxantes que só uma aula de ginástica na água proporciona. Troquei o maiozão, que já não me servia, por biquinis de duas peças por causa da barriga e do bronze. Fazer hidro em piscina aberta é outra história.

Essa turma também era um arraso. Era verão, eu morava em Florianópolis e as aulas aconteciam no jardim da casa de uma vizinha. Fátima, a professora, era uma grande amiga. A dona da casa, uma senhora solteira, morava com a irmã, que também malhava na piscina. Mesmo grávida, eu era super dedicada. Tanto que o médico me obrigou a parar.

Foi a minha despedida das piscinas. A turma parou comigo, pois a dona da casa teve um câncer de mama e teve que fazer tratamento. Soube que se curou e ficou muito bem depois. Que bom. Eu também tive uma linda menininha de nome Anita.

Anos mais tarde, em Porto Alegre, num ato falho do destino, calhou de eu morar ao lado de uma escola de natação. Me matriculei, não pude evitar. Essa turma era meio baixo astral. Muitas senhoras praticando por recomendação médica. Gente deprimida e cheia de manias. Uma colega, a Lúcia, era muito estranha. Obcecada por mim e inimiga de meia turma, era tão excêntrica que causava mal estar na piscina. As outras contavam que ela mandava o marido fazer cocô na academia porque não admitia que ele sujasse o banheiro em casa. Tão mais simples ensinar o moço a limpar, não?

Com o tempo não consegui mais conciliar trabalho, hidro e os conflitos da turma, saí. Nunca mais voltei pras piscinas. Sinto falta. Nos últimos anos, mais madura e ciente da predileção por esportes de pessoas maduras, pratiquei pilates e yôga. Yôga é muito bom, eu entrava em transe nas aulas.

Hoje, morando em Curitiba de novo, entrei na academia de pilates do lado de casa. O clima é bom. Uma colega só fala da família e de viagens. Ela é negra e tem uma flexibilidade surpreendente. Deve correr atrás dos netos como poucas. O outro, como eu, é apaixonado por yôga, mas reconhece que o pilates é mais efetivo no combate às dores cervicais. Se eu seguisse meu coração, voltava pra academia dos meus 17 anos e me reconciliava com a água, apesar de ser nocivo para os cabelos, que hoje levam tinta. Aposto que a Emília ainda está lá, sambando na cara das novatas como o Ney Matogrosso, praticamente um embaixador e atleta olímpico da hidro, faz em seus shows.

Leia também:

Criança com vitiligo se sente mais confiante tendo um amigo na mesma condição

Boa notícia: comer chocolate torna a pessoa mais propensa a amar, diz estudo

Foto de um pai confortando seu filho doente causa polêmica nas redes sociais

Pais&Filhos TV