Pais

Conversa de homem: Trilha sonora

Cada momento da vida de Alice, desde a descoberta da gravidez, foi marcado por uma música

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

“Dez de outubro de 2008, tenho 28 anos e, em poucos minutos, vão cantar os parabéns para os meus 29. Batuco, grito e profetizo. “Meu último ano de guri!”

Cantaram os parabéns, eu já tenho 29 anos.

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Já é 6 de novembro.

Lucia vai para um casamento em Porto Alegre, e eu fico em São Paulo. Na capital gaúcha, Lucia vai até uma lanchonete, pede um xis (o gaúcho chama assim, em vez de cheese), e batatas fritas… Pouco antes do casamento ela me liga.

– Gatinho, acho que estou grávida…

– O quê?

– Estou enjoada…

– Mas tu não chegou e comeu um xis? Deve ser isso!

– Não é, eu sinto, é diferente…

– Para, gatinha… Compra um teste!

Confirmado, Lucia estava grávida.

Todos os dias que se seguiram foram estranhos, talvez porque realmente alguma coisa estava mudando em mim. Caminhava na rua e de repente toca no meu iPod I’m a Child, do Neil Young. Começo a chorar. Sim, estou grávido, e os sentimentos afloram.

Nesse dia, quando voltei pra casa, escrevi uma carta para o meu pai, dando os parabéns para ele, uma carta de admiração para um sujeito amoroso que criou os filhos, pois a vida o fez viúvo.

Chegou a hora, a Alice vai nascer.

A ideia do parto natural e em casa teve que ser mudada de última hora. Na maternidade, que não atendia nosso convênio, chegamos e recebemos a conta. Choramos. Na hora veio a música do Tim Maia na cabeça… “Quando a gente ama, não pensa em dinheiro, só se quer amar, se quer amar, se quer amar…”(Na sala de parto, tocava uma seleção musical, com várias músicas para nossa pequena, uma delas, Meu Bem, interpretada por Ronnie Von. O pediatra abraça a doula e dançam, enquanto Lucia se esforça, e a obstetra ajuda, e eu não sei muito o que faço ali dentro).

A cada contração, Lucia aperta uma barra de ferro. Seguro a mão dela e, na contração seguinte, sinto meus ossos estalarem. Segunda contração, não sinto mais minha mão… Retorno a mão dela para a barra, que, afinal, é de ferro. Mas ajudo, fazendo cafuné na cabeça, pedindo que tudo dê certo, beijando sua testa. De repente, toca uma música chamada What A Day For a Daydream, e nasce Alice. É um serzinho tão pequeno. Prefere a mãe do que eu. Vamos nos conhecendo, tenho medo de perdê-la.

Tínhamos combinado que a família só poderia nos visitar uma semana depois. No segundo dia de Alice, já olho para Lucia e com os olhos fundos digo: “Se quiser antecipar a passagem da tua mãe, acho que pode ser bem legal”. Vovó chega, eu durmo 3 horas seguidas e comemoro.

Alice tem 3 anos agora, ama o metrô, banho de banheira, férias, chocolate, churrasco, gosta do seu sapato de abelha, tem muito estilo e personalidade, é muito musical e imaginativa.

As broncas são mais frequentes, ser pai é dizer nãos, ser mais pulso firme e isso é muito difícil. Dar educação… Coma sua salada, não deixe essa fruta no prato! Olha bem no meu olho, presta atenção, arruma teu quarto!

Mas ser pai é saber contar as melhores histórias sem livro, com vozes diferentes. Saber que quando der 3h da manhã ela vai correr pra nossa cama, que no banho ela vai me dar um beijo, que o abraço dela é o melhor que existe.São quase 4 anos, ela ama me ajudar na cozinha, gosta de garupa, pipoca e suco de uva.Enfim, aos 29 anos, deixei de ser guri, hoje aos 33, sou Ricardo, sou o Tata, o Palito, sou Pai!