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Trabalhar fora ou não?

Jeane, mãe de Heitor, teve medo de passar os dias infeliz (e longe do filho)

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Complicadinho falar de culpa, né? Além de termos que selecionar uma, dos montes que carregamos, acabamos assumindo nossas próprias fraquezas quando falamos delas. Mas, selecionando uma bem recente, que causou um reboliço na minha vida profissional, vou falar da culpa que sentia por não ter tempo para meu filho.

Tenho 32 anos, e me lembro muito bem quando, por volta dos 15, olhava mulheres que eram somente donas de casa, com um olhar de pena. Pena do tipo: mas você vai mesmo depender do seu marido pra tudo? Eram os anos 90. Cresci ouvindo uma ladainha do meu pai (isso mesmo, meu pai), que eu tinha que estudar para não depender de homem nenhum.

Quantas e quantas vezes, eu julguei pessoas próximas a mim, que tinham deixado de trabalhar, ou ganhavam pouco trabalhando meio período, para cuidar da casa e dos filhos. Pois é, paguei a língua.

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Ser mãe foi tudo que eu sempre quis. Costumo dizer que não esperei o Heitor 9 meses, e sim 30 anos. E depois que acabou a minha licença-maternidade, por mais que eu estivesse super motivada para voltar ao trabalho, já que fiquei 5 meses em casa, tinha aquele aperto no peito de não passar o dia com ele. 

E olha que eu tenho lá as minhas vantagens: o Heitor fica na escola da minha irmã, em um ambiente super agradável, cercado de pessoas que o amam, minha mãe volta e meia estava lá paparicando ele, eu ia amamentá-lo todos os dias na hora do meu almoço… Mas de repente tudo se tornou insuportável para mim, a ponto de nenhuma vantagem que eu tivesse no meu trabalho compensasse a falta dele.

E para tomar a decisão de sair do meu trabalho? Quantas culpas eu não coloquei na balança? A de deixar meu marido responsável pela casa por um período, a de não conseguir me virar como freelancer (que era o meu plano), a de não ter plano de saúde, férias, 13º salário, tantas coisas que… Obvio: fiquei doente.

Mas nenhum desses “medos” foi medo suficiente. Sou analista e penso em risco o tempo todo, e na minha lista de prós e contras, não tinha risco maior que passar o meu dia infeliz. Dramático, não? Pois sei que tem muita mãe por aí lendo o texto e sentindo a mesma coisa.

Em nenhuma dessas neuroses eu tive medo de jogar minha carreira pela janela, de verdade. Na real, se meus blogs fossem um meio de vida ($$$) eu deixaria para lá todos os Documentos de Visão de Negócio e Algoritmos pra lá. Por mais que eu goste do que faço.

Então depois de alguns meses nessa situação de stress emocional, papo pra lá e papo pra cá com o RH da empresa, me desliguei e voltei para casa. Sem nem saber por onde recomeçar. Eu continuo mandando ele pra escola (agora meio período), mesmo com 1 aninho ele sente uma falta absurda dos coleguinhas, das tias, das atividades, não tem motivo mantê-lo no tédio de um apartamento o dia todo. E eu, com isso, consigo organizar a minha vida e fazer um trabalhos por fora.

Dois meses depois dessa decisão, ainda não sei o que vai ser da minha vida. Se vou aceitar outro emprego, se vou trabalhar por conta própria. Mas o fato é que todas as outras culpas (que eu certamente ainda carrego) me machucam menos agora que antes. 

Jeane Avellar é mãe do Heitor, e autora do Blog Meu Filho Usou (http://meufilhousou.blogspot.com.br).