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Pede pra sair

Não são só as mães que trabalham que sentem culpa. As que escolheram ficar em casa com os filhos também são julgadas pelos outros ou ficam frustradas

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Uma hora ou outra você vai ter de lidar com o dilema: voltar a trabalhar depois da licença-maternidade ou ficar em casa com o filho? Toda escolha significa abrir mão de alguma coisa e, por isso, vem carregada de culpa mesmo. Ainda mais quando desistimos de algo que nos dava prazer. “Sempre gostei muito de trabalhar, me sentia independente e, mais que isso, sentia que aquele mundo era só meu: não do meu marido nem das crianças! Me sentia importante e realizada”, diz Ligia Korkes, mãe de Olivia, Benjamin e Guilherme, que deixou a empresa em que trabalhava assim que acabou a licença-maternidade do terceiro filho.

Se você está convicta de que ficar em casa é o melhor a fazer, não há espaço pra culpa, mas pode haver uma ponta de insegurança sobre como será o amanhã. Mais uma vez, toda opção tem ônus e bônus. “Se eu me arrepender no futuro de não ter trabalhado, eu posso buscar alguma coisa. Fiz boas faculdades, MBA, pós-graduação etc. Posso correr atrás depois. Mas, se eu me arrepender de não ter ficado com as crianças, não conseguiria voltar no tempo. Esse tempo da infância é único, inesquecível e muito importante para eles e para mim”, diz.

É possível voltar à vida profissional depois dos primeiros anos com as crianças. Uma reportagem do jornal The New York Times de agosto deste ano mostrou histórias de mulheres que largaram seus empregos no final dos anos 90 e início dos anos 2000.

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FECHAR

Dez anos depois, retomaram a carreira. Além de motivos financeiros, a fase das crianças pequenas havia passado. A boa notícia é que a maioria conseguiu voltar, a má é que os salários e cargos não eram mais os mesmos. E a parte curiosa é que muitas escolheram profissões mais “femininas”, de cuidado, ligadas à educação, por exemplo.

A maioria das que optam por trabalhar fora acredita que só as mães que ficam em casa são felizes. Muitas nem imaginam que quem faz essa opção pode sentir algum tipo de culpa também. Pois é. Deixar o emprego para trás significa mais do que aquela diferença de dígitos na conta corrente.

“Estava acostumada a liderar 40 pessoas, a dar e receber feed-back, a executar projetos. De repente, não faço mais parte desse quebra-cabeça”, conta Christiana Mello, mãe de Isabella e Pedro, que saiu do emprego no início do ano, decidida a parar e respirar um pouco. Não foi uma decisão definitiva. Christiana já está montando uma loja virtual com a cunhada e se dedica a ela na parte da tarde, quando os filhos estão na escola. Aliás, não mudou a rotina das crianças, mesmo com mais tempo disponível, para que não sentissem tanta diferença.

Conciliar maternidade e trabalho, o famoso “have it all” (ter tudo), como dizem as americanas, não é mesmo nada fácil. Uma pesquisa da McKinsey de 2012 mostrou que chegar ao topo nem é o objetivo da maioria das mulheres: enquanto 36% dos homens querem se tornar executivos, apenas 18% delas aspiram ao mesmo cargo. Segundo outra pesquisa, da Accenture, o mais importante para as mulheres é a flexibilidade e o equilíbrio na vida profissional e pessoal – mais que o salário.

Culpa de ficar em casa

Muitas mães que não trabalham se culpam por não se considerarem um bom modelo para os filhos e, principalmente, para as filhas. Se eu não trabalho fora, como posso estimular minha filha a ter ambições profissionais?, pensam elas. Esse é um dos motivos de manter uma rotina e ter suas próprias atividades. Além de dar o exemplo do compromisso e horário para as tarefas, isso ajuda a criança a entender que a mãe não está disponível o tempo todo. É bom que ela tenha outros interesses, seja o marido, seja um hobby, seja o trabalho. Ser o único sentido da vida de alguém não é bom para ninguém, nem para os filhos. E não precisa se desculpar na hora de se despedir e dizer coisas na linha “mamãe também preferia ficar em casa”. Seu filho consegue entender que você tem prazer em outras coisas, tanto quanto tem em brincar com ele. Cada coisa a seu tempo.

A cobrança não vem apenas de nós mesmas, mas do que achamos que os outros esperam de nós. “A sociedade cobra muito que sejamos mulheres perfeitas. Optar por ficar um tempo sem trabalhar para cuidar de um filho parecia ser uma decisão errada ou acomodada e eu me cobrava por isso”, conta Elisa Lopes, mãe de Gustavo, que se dedicava apenas ao filho, até que decidiu fazer um processo de coaching, para achar um caminho para sua carreira, e acabou escolhendo se tornar a própria coach, orientando profissionalmente outras pessoas. Ainda está começando, mas já tomou uma decisão: não pretende voltar a trabalhar em período integral.

“Sempre digo que precisamos não apenas mostrar o lado financeiro do trabalho, mas também o resultado mais intangível dele: o prazer que o trabalho gera e a gratificação pessoal. Assim, esses lados tangível e intangível compõem o exemplo que deve ser transmitido aos filhos”, diz a psicóloga Cecília Russo Troiano, mãe de Beatriz e Gabriel, colunista do nosso site e autora dos livros Vida de Equilibrista: Dores e Delícias da Mãe que Trabalha e Aprendiz de Equilibrista: Como Ensinar os Filhos a Conciliar Família e Carreira.

Quem te culpa

A culpa por ter parado de trabalhar não é nada perto do prazer de estar com as crianças. Vê-las crescer, acompanhar as primeiras palavras e passos e ensinar coisas paga qualquer preço.

“Falam muito na qualidade do tempo com as crianças, mas tem coisa que precisa de quantidade”, acredita Ligia. Nós somos desta turma: nada melhor que qualidade em grande quantidade, sempre que possível.

Para Christiana Mello, essa também foi a melhor parte de sair do emprego. E, como mãe também é gente, sentiu uma liberdade enorme de poder fazer suas coisas nos seus próprios horários. “Passei a dedicar algum tempinho durante a semana para mim… Ah, como é bom poder ir fazer as unhas no meio da tarde de quarta-feira de vez em quando!”.

“As maiores possibilidades de educar e passar valores acontecem nos pequenos momentos do dia a dia. A mãe que está muito presente é como se tivesse chance o tempo inteiro. Esse cumprir a rotina junto é muito bom. Estar presente nas refeições, levar e buscar, ver os ambientes que o filho frequenta, conviver com os amigos…”, diz a psicóloga e autora do livro Mulher Sem Script, Natércia Tiba, mãe de Eduardo e Ricardo.

Não faço nada? Como assim?

“A vida das mães era pontuada por cuecas jogadas pelo chão e atividades coletivas da escola, rodízios de carona e apresentações do teatro escolar, a procura do dentista certo e a preocupação por talvez terem escolhido o pediatra errado e níveis intermináveis de detalhes sem importância e absurdos que às vezes faziam com que se sentissem à beira de um ataque de nervos”, assim escreve Judith Warner no prefácio de seu livro Mães que Trabalham – A Loucura Perfeita (Ed. Campus). Ela conta histórias de mulheres que optaram por parar de trabalhar ou encontraram um emprego em meio período e permaneciam infelizes e estressadas.

Sim, porque quem pensa que a mãe que larga o emprego não tem nada para fazer ou tem uma vida tranquila, está muito enganado. Quanto menores os filhos, maior a demanda. E o fato de se dedicar a eles aumenta a pressão externa para que tudo funcione perfeitamente bem dentro de casa. Reclamar? Nem pensar! Vão dizer: “era isso que você queria…” e ainda perguntar o que você faz o dia todo.

“Vidas repletas de festas infantis, consultas com o dentista e cadeirinhas de carro. Vidas que, de alguma forma, pareciam menos importantes do que a de seus maridos, que trabalhavam em período integral – homens que conseguiam, mesmo com os filhos correndo ao redor, derramando leite na mesa, largando roupas e sapatos jogados pelo chão, perder-se na leitura do jornal”, diz a autora sobre a insatisfação de suas entrevistadas.

O fato é que, normalmente, cuidar dos filhos é até mais cansativo do que trabalhar fora. E talvez mais estressante. É um tal de fazer comida, dar banho, arrumar a casa, levar para a escola, para as aulas extras, para as festinhas, sem falar nas lições e limites, que acontecem o tempo todo. “O dia em casa é um eterno ‘faça isso’, ‘faça aquilo’, ‘para de brigar’, ‘senta direito’, ‘lava a mão’, ‘come de boca fechada’, ‘não briga com seu irmão’ etc. Mas é nesses momentos você imprime um pouco dos seus valores”, acredita Ligia.

Reconhecimento

“Ainda não existe um reconhecimento de que tudo o que a mãe faz é muito. A visão dos filhos é de que a mãe não faz nada, não sai de casa. Ela abre mão de uma coisa socialmente reconhecida, o trabalho, por algo que não é reconhecido”, conta Natércia Tiba. Este é um ponto importante: ficar em casa dá trabalho também e você continua merecendo tempo para você. Trabalhando ou ficando em casa, mãe também é gente, não cansamos de repetir.

Metas de mãe

Na vida profissional, a mulher tem um caminho pela frente, um futuro que consegue visualizar, um planejamento, um plano de carreira. Metas objetivas e claras para atingir. Com os filhos, é uma aventura diária. Os resultados da educação serão vistos a longo prazo e os caminhos são mais tortuosos.

Algumas mães acabam tentando ser profissionais dentro de casa, buscando ter o mesmo nível de sucesso na criação dos filhos que tinham no trabalho, o que os deixa estressados. “Todos os papéis novos que a gente desenvolve na vida começam buscando um estereótipo, uma referência. Nesse caso, a referência da mãe pode ser a profissional que ela costumava ser. Aos poucos a gente vai descobrindo como se coloca nesse novo papel. A relação familiar exige maior tolerância e flexibilidade que o trabalho. Se a gente é muito rígida, acaba ficando tensa, como se o filho tivesse sempre que bater cartão”, diz Natércia.

“Há, sim, expectativas que lembram uma performance profissional. Não raro mães usam planilhas para se organizar, estabelecem metas para os filhos, carregam as agendas deles como miniexecutivos etc.”, conta Cecília Russo Troiano. É importante relaxar dentro de casa e curtir os momentos com os filhos tratando-os de acordo com o que são: crianças, e não funcionários. Livros como Pai Minuto, de Spencer Johnson, chegam a aplicar normas gerenciais para a vida em família, com reuniões e estabelecimento de objetivos.

Você também é gente

Dedicar-se 100% ao trabalho não é bacana, assim como dedicar-se 100% às crianças também não. O melhor (e mais difícil, é verdade) é trilhar o caminho do meio. Por mais que deixe de trabalhar, é fundamental ter suas próprias atividades, fazer um curso, se inscrever numa academia de ginástica, ter um hobby… De preferência onde você mantenha a cabeça longe das crianças, nem que seja por meia hora. “É muito ruim apoiar a realização pessoal, o seu bem-estar, na relação com os outros. É importante ter um pilar em você”, diz Natércia. Isso inclui separar um tempo e um espaço pensando em si mesma. Isso também vai fazer as crianças te respeitarem mais. “Para o filho respeitá-la como pessoa, que tem vontades próprias e necessidades próprias. Para que a mãe não se anule”, completa Natércia. Assim como ‘gerente comercial’ não pode definir uma mulher completamente, mãe também não.

Você também é filha, amiga, namorada, fã de cinema, bailarina… Além disso, os filhos querem ter a certeza de que a mãe vai e volta, ela não precisa estar lá o tempo todo. É esse sentido de ir e voltar que gera desenvolvimento, autonomia.

É comum sentir culpa nesses pequenos momentos longe das crianças. Como se fosse proibido fazer ginástica em vez de ficar com elas. Mãe boa é mãe feliz. “Preciso manter uma vida ativa um pouco fora de casa. Almoçar com amigas, ler jornal, conversar com outras pessoas, para não ficar uma pessoa sem assunto e entediada para mim e para o meu marido”, diz Ligia.

Planos para o futuro

Trabalho em meio período, negócio próprio, emprego com horários flexíveis, home office… Existem algumas possibilidades de conciliar carreira e filhos, mesmo que nenhuma delas seja perfeita. A correria sempre vai existir e será necessário escolher, sempre. Algumas coisas são exigidas culturalmente, outras são exigidas por você mesma. O que é mais importante? Se você souber responder, vai lidar melhor com as perdas e ganhos que acompanham qualquer escolha. Lembrando também que escolhas podem mudar com o tempo. Escolha o que é melhor para você aqui e agora. E permita-se mudar de ideia depois, se achar que é o caso. Sem culpa.

Nos Estados Unidos, para cada duas mães que ficam em casa cuidando das crianças, há um pai.

Antes de tomar a decisão

• Test drive: pratique viver sem o seu salário antes de pedir demissão. Se estiver de licença-maternidade, coloque o dinheiro numa poupança sem mexer nele. Além da experiência, você ainda estará fazendo um pé de meia.

• Segure as pontas: se você estava pensando em mudar para uma casa maior, esse pode não ser o momento. Espere até que as coisas de estabilizem com apenas o salário de um dos pais.

• Economize sem sofrer: geralmente a maior despesa e mais fácil de reduzir é a comida. A melhor maneira de fazer isso é se planejando: montando os menus da semana, fazendo as compras com calma e cozinhando. Também dá pra economizar fazendo programas gratuitos com as crianças.

• Lembre-se: funciona com um monte de gente, pode funcionar com você também.

Quem paga a conta

Uma das primeiras coisas que vem à cabeça quando a gente pensa em parar de trabalhar é a questão financeira. Mas se você colocar na ponta do lápis, verá que pode valer a pena, sim, até no bolso. Pense nos gastos que você tem relacionados ao trabalho e que deixará de ter se ficar em casa.

• Babá ou mensalidade de uma creche;

• Transporte – se usa carro, contabilize o estacionamento, a gasolina, o seguro, os impostos… Se usa transporte público, as passagens que usa ao longo do mês;

• A roupa social que você precisa comprar e eventualmente mandar para a lavanderia.

• A comida pronta ou congelada para aos dias em que chega cansada;

• Os almoços fora de casa, com os colegas de trabalho;

• Custos mais altos com médicos se seu filho fica na creche e adoece com frequência.

Um tempo só seu

Veja algumas ideias de atividades para fazer sem as crianças. Vale tudo: cursos, esportes, tratamentos de beleza…

Massagem

O tratamento de 60 minutos no Kabanah Spa, em São Paulo, custa R$ 120. Existem mais de 15 modalidades de massagem, que podem servir para relaxar ou energizar.

Tel.: (11) 3885-8278, kabanahspa.com.br

Curso de culinária

Aprender pratos gourmets para fazer um jantar especial é uma delícia. No Atelier Gourmand, em São Paulo, as aulas são temáticas e custam a partir de R$ 225.

Tel.: (11) 3060-9547, ateliergourmand.com.br

Academia

Fazer esporte faz bem pro corpo e pra alma. Na Smart Fit dá para fazer um plano a partir de R$ 49,90. Há unidades no Brasil inteiro.

smartfit.com.br

Curso de automaquiagem

Para ficar mais bonita, você pode aprender a se maquiar no curso da Contém 1g. Há 6 tipos de curso, eles são realizados nas próprias lojas e saem por R$ 100.

0800 775 1300, contem1g.com.br

Andar de bicicleta

É fácil e barato. Se não tiver uma, pode pegar emprestadas as bicicletas laranjinhas do Itaú. Na primeira vez, você paga R$ 10. Nas seguintes, só paga se usar por mais de meia hora. Faça o cadastro no site e desbloqueie a bike pelo telefone, pela internet ou pelo aplicativo de celular.

Tel.: (11) 3298-8844, mobilicidade.com.br/bikesampa

Trabalho voluntário

Para fazer um trabalho voluntário no Graacc, por exemplo, e ajudar as crianças com câncer, marque uma visita por telefone. Na visita, você poderá preencher um cadastro.

Tel.: (11) 5080-8415, graacc.org.br