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Na minha época era Danceata

Como explicar ao filho que tudo que está passando na televisão são manifestações

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Eu não quero entrar no mérito do que é certo ou errado. Ando de metrô, sofro com o reajuste das tarifas, me sinto ameaçada com a violência dessa cidade e sim, isso também é um problema meu. Mas não quero julgar quem está certo ou errado. Só sei que tudo que tem acontecido em São Paulo nos últimos dias, vai muito além do que vinte centavos. E eu, como mãe, estou com medo. 

Aos cinco anos participei da minha primeira manifestação. Morava no Rio Vermelho, bairro de Salvador e lá tinha uma fábrica de papel. A fábrica estava prestes a ser demolida para virar um posto de gasolina e um Mc Donalds. Foi quando meu pai e um punhado de amigos e moradores da região se juntaram para fazer o movimento da fábrica. A ideia era transformar tudo aquilo em um grande centro cultural. 

Eu lembro bem. Tinha cinco anos, mas lembro do muro de cimento que as crianças podiam pintar. Meu pai barbudo e cabeludo e todos nós no terreno gritando. Lembro do barulho dos caminhões com as caçambas, que chacoalhavam restos de entulho. Naquele movimento, fizemos uma Danceata. 

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Esses dias a galera da fábrica criou uma página no Facebook. Juntaram depoimentos de Jorge Amado e notícias de jornais da época.  Fotos recuperadas, manifestos e desenhos. Que refrescaram minha memória num clique. 

Anos depois, eu e duas amigas do prédio fomos até um programa de TV da TVE para protestar contra porcalhões que jogavam lixo pela janela e sujavam a nossa área de lazer. Foi babado! Denunciamos, na época, um vizinho que jogou uma lista telefônica pela janela! 

Em 89 eu fui às ruas com meu pai pelo Lula. Lembro de um comício na praça Castro Alves. Ela forrada de vermelho e eu com uma bandeira do meu tamanho. Em 92, já sem meu pai, ganhei minha independência nas ruas com o pessoal da escola. Saímos do Campo Grande, lá em Salvador, com caras pintadas, vestindo preto e gritando “Fora Collor”. 

Em nenhum dos casos, pelo que me lembre, vi polícia e quebra-quebra. Sempre lutei pelo que quis e pelos meus ideais. Sou teimosa, e quando coloco uma coisa na cabeça ninguém me segura. Isso gera até briga em casa. E falo sempre pro meu filho:  “Não desista! Lute pelo o que você quer.” 

Mas vendo tudo que tem acontecido em São Paulo, tenho ficado com medo. Muito medo de continuar falando pro meu filho para lutar pelos ideais dele. Porque a luta, por aqui, tem acabado em guerra. E aí a linha entre um jovem idealista e um vândalo fica muito tênue. Quero danceatas, e não porradaria. Quero caras pintadas e não caras machucadas.  Quero meu filho gritando em coro, lutando pelo que acredita. Mas não pixando os muros do Masp. 

De novo, não quero entrar no certo ou errado. Aqui em casa, mesmo quando se quer muito uma coisa, não vale bater, riscar parede ou quebrar nada. Não vale agredir, nem física nem verbalmente. E não vale chamar o pai, tem que resolver comigo, se o problema foi comigo. Vale conversar, argumentar e até persuadir. Mas na paz. 

E aí? Como explicar ao filho que tudo que está passando na televisão são manifestações, são jovens lutando pelos seus ideais? Que polícia pode bater e manifestante pode jogar pedra, que quebrar a rua é o.k. e bala de borracha também? Confundi.

 Preferi entrar na página do Movimento da Fábrica, no Face, e mostrar pra ele o que é a luta por algo em que se acredita de forma pacífica e sem guerra. Mesmo que a fábrica tenha virado posto, a gente tentou. E toda tentativa é válida. Verás que um filho seu não foge a luta, meu filho. Mas luta não é guerra.