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Entrevista : Oscar Quiroga

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

01/01/2013

Por Mônica Figueiredo, mãe de Antônia, e Larissa Purvinni, mãe de Carol, Duda e Babi
 
Vou ao inferno e salvo outras pessoas. Com essa frase Quiroga define o signo de Peixes, sob o qual nasceu. Psicólogo de formação e astrólogo por convicção, deixou a Argentina, então esmagada pela ditadura, em 1978. Aqui no Brasil revolucionou o horóscopo diário com sua coluna no Estadão. Pai da aquariana Nina, do pisciano Gustavo, e do capricorniano Enrique, comprovou que os filhos não nos pertencem e que, ao nascer, já trazem uma dimensão cósmica com a qual vão tomar contato por si, nos momentos de crise, de dor.  Ou seja: ao superprotegê-los, podemos acabar privando-os disso. 
Quiroga defende um resgate do sagrado, que a gente monte um altar e preste homenagem ao desconhecido. Só ao admitir que não sabemos tudo é que podemos aprender. Só ao dividir, podemos multiplicar. O problema é que a gente só aprende a tirar, dos outros, do planeta… e não a devolver. E a Terra está cansada. Se não pararmos de exauri-la, podemos ser expulsos. Segundo Quiroga, vem aí uma grande mudança, que vai se impor, por mais que tentem encobri-la. Essa é a mensagem das estrelas. A gente tem de saber ouvir. E quem sabe não precisar descer ao inferno para se salvar. 
 
Já ouvi falar que não é legal fazer mapa astral de criança, porque é uma sentença de uma pessoa que ainda não está pronta. Você concorda com isso?
Concordo em parte, porque o fato de a astrologia ter se apoderado da linguagem da psicologia para fazer a leitura do mapa aumentou a capacidade de você desvendar um pouco a alma humana. Por esse lado houve um ganho, mas acontece que a psicologia tem o olhar do problema, não da solução. Com isso, o astrólogo pegou o mapa e começou a ver problema. E o mapa não é problema nem solução. O mapa é o que é. E a função do astrólogo é ler o que está escrito. Não é nem prever futuros problemas, porque aí já está induzindo. Não necessariamente uma mãe severa ou um pai permissivo, não necessariamente ser contida vai ser um problema para a criança. O ser humano é criativo para lidar com essas questões.
 
Isso é a salvação dele, inclusive.
É pra isso que a gente serve, do ponto de vista cósmico. A espécie humana serve para criar, para o bem ou para o mal. Às vezes, pra criar, a gente precisa de impedimento, de limitação, de problema… É isso que vai dar o combustível, mas não garante nada, porque aí vem a maldita (e bendita ao mesmo tempo) liberdade.
 
Então você faz o mapa astral de uma criança? 
Sim, faço a leitura com os pais, de preferência com os dois. Mas sempre partindo do princípio de que não se trata da leitura de um problema futuro. Primeiro, porque o mapa não é capaz de ler tudo. O mapa astral lê o que há de cósmico naquela pessoa. E a gente não é treinado para entender a parte cósmica. Quando te perguntam o que você vai ser quando crescer, você nunca vai responder: eu vou me tornar um ser cósmico.
 
E o que é isso, um ser cósmico? 
A existência se dá em vários mundos. O mais concreto é o biológico. O mapa que o rege é o genético.  Mas o corpo não é o mais importante pra nós, porque não somos apenas seres concretos, somos seres abstratos. Por isso inventamos a cultura, que não existe em si: são consensos que estabelecemos. 
 
O jeito de fazer as coisas?  
É esse jeito de inventar. Um exemplo é a relação que as culturas têm com o corpo, o objeto concreto. É diferente como um índio no Xingu ou como um evangélico, aqui em São Paulo, vai se relacionar com ele. O foco da nossa consciência está nessa abstração, cujos níveis não conhecemos. Ficamos sempre no nível do dinheiro, que não existe em si mesmo, vale porque a gente acredita. Vai levar uma nota de R$ 50 para um índio da Austrália…
 
Mas então o dinheiro deveria nos ajudar a acreditar no invisível, em vez de nos tornar materialistas…
Materialista em termos. O que fazemos é dar as costas a níveis de abstração maiores. A cada nível de abstração, você vai fazendo parte de grupos cada vez mais amplos, de vínculos cada vez mais complexos. Começa pela família, depois o trabalho. O dinheiro também te coloca em relação com um monte de outras coisas, ainda pequenas, porque acima do nível cultural existe o cósmico. Fazemos parte de um sistema solar, cuja preservação é mais importante do ponto de vista cósmico do que a preservação de um indivíduo. 
 
E se esses indivíduos começam a sacanear a Terra?
O problema é que somos seres abstratos, sim, mas também muito egoístas. Tentamos fazer de conta que o que é maior que a gente não existe. Só que algo em nós compreende e participa disso. É isso que é cósmico em nós. É aquilo que está em sincronia com a vida do sistema solar. Somos treinados para viver de acordo com as regras da comunidade cultural, que não respondem a todas as perguntas. À medida que você vai evoluindo, vêm as crises. Seu mundo desaba. É aí que entra a liberdade: você pode levar a vida aos cacos ou se reinventar. Pra isso somos criativos. Na medida em que nos reinventamos, começamos também a usar o potencial astrológico.  
 
O que você chama de potencial astrológico? 
É a nossa dimensão cósmica e que você só começa a conhecer na medida em que responde positivamente às crises. Qualquer crise. De repente você esqueceu as chaves. Isso é uma crise, a sua realidade desabou. 
 
Você estava falando das crises como uma maneira de se conectar com o nível cósmico. Essa tendência de os pais tentar preservar os filhos de sofrimentos pode impedi-los de se conectar com o cosmos?
A partir de um determinado nível impede, sim. E é impressionante como a gente, por excesso de amor, acabar diminuindo a possibilidade de nossos filhos se tornarem independentes e ter uma relação com sua própria potencialidade.
 
Você tem filhos pequenos e obviamente fez o mapa astral deles. Foi um recurso que você usou como pai, que te ajudou a conhecê-los?
A leitura do mapa é intelectual. Porque, uma vez que a gente nasce, é limitado por um corpo físico. Só vamos conhecer o que é cósmico em nós na prática, ao responder às crises. Você perguntou se eu uso isso na relação com meus filhos. Não tem como usar, entende? A relação com os filhos pequenos é sempre emergencial. Você pode até planejar um pouco, mas na prática é quando acontece uma coisa que você responde.
Então, pra que serve fazer mapa astral?  
Primeiro, pra entender que há uma outra dimensão de existência. Para os pais entenderem que o filho não é deles, que, quando nasceu, esse filho já era alguém. E teve de nascer em uma família, porque ainda não tem outro jeito de nascer aqui na Terra. 
 
Então pai e mãe são um mal necessário? 
Pai e mãe servem pra inserir na cultura, mas não servem pra te inserir no cósmico, porque no cósmico você é que tem de se inserir.
 
Sozinho?
Nada a gente faz sozinho. Você caça as tuas suspeitas mais íntimas e começa a testar as reações a essas realidades não familiares. E aí você começa realmente uma vida que parece individual. Mas nada em nós é absolutamente individual. Há muito mais em comum entre nós do que de diferente. Muitas pessoas criticam o horóscopo do jornal dizendo que é generalizado. Mas é porque nós somos generalizados, muito mais do que pensamos. Somos seres individuais com certeza, mas a única coisa que temos de mais individualmente é o corpo, e aí está a diferença entre o concreto e o abstrato: quanto mais concreta é uma informação, mais exclusiva ela se torna. O corpo é a informação mais concreta que temos. É a única coisa realmente tua, única e original. 
 
Mas nem a minha vida, não vai haver duas vidas iguais à minha…
Aí já não sei, porque há semelhanças. Mas na medida em que essa informação vai se tornado mais abstrata, ela se torna menos exclusiva e mais inclusiva. Na cultura não existem indivíduos, mas grupos. Por isso, quando fazem pesquisas, não perguntam a 180 milhões de pessoas, perguntam a mil. Quanto mais abstrato, mais unificado é o campo de atuação, e a individualidade vai pro espaço. Só que a gente tem medo de perder a identidade. É um erro. Não é por se vincular ao todo que você perde a sua identidade. 
 
Essa é uma tecla na qual você vem batendo… 
O que antes era uma especulação filosófica, agora é realidade: nossa comunhão com o ecossistema, com a cidadania, espiritual, cósmica… Dessa se fala pouco, por causa do preconceito. Hoje em dia as pessoas já entendem que sozinhas não são nada. De que adianta chegar ao topo pisando em todas as cabeças possíveis? Com quem vão compartilhar?
 
E aí chega lá pra falar com quem? E pra quê? 
Dividindo o que você tem, você vai estabelecendo vínculos no universo. Nada se faz sozinho. Se não tem contato, você enlouquece. As pessoas que acham que vivem sozinhas são grandes exploradores.
 
Exploradores porque vivem sugando? 
Sugando e não dando nada em troca. E aí a congestão com certeza pode ser psicológica, pode ser biológica, pode ser econômica… A gente já aprendeu que não dá para só tirar da natureza. Só que não sabemos como fazer para devolver, porque não se ensina como se devolve.
 
Você tem filhos pequenos, olha pro mundo e fica preocupado?
Preocupadérrimo.
 
Com o que você fica preocupado, objetivamente?
Com a perversão do ser humano. Não há o mínimo cuidado com as crianças. Queremos encurtar a infância numa velocidade cada vez maior, até o limite da pedofilia. Mas não precisa ir tão longe: encurtamos a infância em níveis até socialmente corretos, como mandá-los pra escola cedo. Quando meu filho de 3 anos foi para a escola, eu chorei.
 
Por que ele foi pra escola com 3 anos?
Porque o irmão já ia com 5 e ele foi junto também.
 
Será que a gente não consegue escapar muito do mundo do grupo?
Vivemos em crise porque vemos e sabemos que estamos errando e não estamos sabendo o que fazer. Mas estamos em vias de saber. 
 
É o lado da esperança…
Não é esperança apenas. Porque o questionamento já é um fato. A gente não pensa sozinho, os pensamentos se pensam. Na hora em que se atinge uma massa crítica de seres humanos que pensam a mesma coisa isso se transforma numa ação coletiva. Só que ninguém conhece qual seja esse número crítico. Mas tem uma hora em que acontece. 
 
E o planeta, está sofrendo?
A dor é uma realidade aqui na Terra. Se nós sofremos, o planeta com certeza deve sofrer. A gente se inicia com dor aqui. E, em relação aos filhos, o melhor que a gente pode fazer é sugerir que eles vão ter de lidar com ela. Dor física, do primeiro coração partido, da traição. Há prazer também, mas todo prazer custa uma dorzinha. 
 
Quando leio que o gelo eterno não é mais eterno, acho uma loucura.
A partir do tsunami de 2004, o eixo da Terra se mexeu 6 cm. Não quer dizer apocalipse, mas é uma nova situação. E, diferentemente dos animais, não temos apenas o mecanismo da adaptação, mas também o da elaboração dos acontecimentos. O presidente da maior potência do mundo, que se diz democrática, determina quais são as democracias boas e as ruins, mesmo tendo sido eleito fraudulentamente… Mas se o Hamas é eleito democraticamente, está errado, porque são terroristas. Só que bem e mal não são relativos. O bem se caracteriza sempre pela distribuição e pela multiplicação. Não importa em que nível, o que distribui e multiplica é bem, o que usurpa e diminui é mal. Não há relatividade nisso. 
 
Pra criar, para crescer, você tem de ter as coisas muito firmes, né? 
Quando as pessoas começam a discutir que o bem e o mal são relativos, por trás há um egoísmo que tenta fazer passar por bem uma atitude de usurpação. Ninguém está isento disso, mas, se a gente não começa a questionar, a bola da usurpação já adquiriu um tamanho tão grande que já não adianta você querer se salvar sozinho. Vai ter de haver algum acontecimento que zere isso.
 
Esse acontecimento é uma coisa grande? Pra poder zerar a conta, é isso?
Tem de ser. Eu não tenho o dom da vidência. Sou astrólogo e fico à espera do sinal que me faça suspeitar do que vai ocorrer. Agora em dezembro é um momento em que algo deve acontecer. Mas o mundo como conhecemos não vai se entregar sem fazer uma baderna terrível. E o que há é basicamente um sistema de ocultamento de informações, uma série de mentiras. E, para haver mentiras, tem de existir fatos sobre os quais alguém vai mentir. Quais exatamente são esses fatos, eu não consigo saber. 
 
Estamos vivendo uma época de muita recombinação, é isso?
De mudança de hierarquia dos valores, dos vínculos. Na relação com os pais e com os rmãos, o sagrado se foi. Sem sagrado estamos sem bússola. 
 
Você ensina seus filhos a rezar?
Sim, é fundamental. Acho que tem de ter um altar em casa, que deve servir pra você lembrar que ainda tem muita coisa que você não sabe. Tem de manter esse altar limpo e prestar culto e respeito a esse altar todos os dias da vida. 
Isso faz a gente retornar àquilo que é fundamental, que é você ter uma relação de respeito com aquilo que ainda não conhece. 
 
E como vocês rezam?
Eles foram ensinados a rezar o clássico, e eu ensino também a pensar que há um coração, que a vida está encerrada no centro do coração e que está tentando se manifestar da melhor forma possível. Todas as noites, pelo menos antes de dormir, entramos em contato com isso. 
 
Faz pouco tempo que aprendi que se rezava nesse momento, antes de dormir, para que, simbolicamente, a gente entre no escuro protegido. 
Nos sonhos você tem mais chances de entrar em contato com o cosmos. É simples, mas nós exageramos no profano, e exagerar no profano significa que perdemos a coluna vertebral do que nos vincula ao sagrado.
 
Ter filhos trouxe pra você mais essa consciência?  
Ter filhos depois dos 40 deu uma melhorada na cabeça genial. Eles trouxeram a noção do que é importante aqui. 
 
Além dos meninos, você tem uma menina que mora nos Estados Unidos. Como você mantém a unidade, é no amor, é no laço, é na internet?
É na palavra, na base do que se conversa e no fato de eu assumir o papel de pai. Tem mães e pais que dizem ser amigos dos filhos. É uma maluquice. A gente tem uma dura tarefa, a tarefa da serenidade, da limitação. Não dá para ter sempre uma conversa horizontal com teu filho. Eventualmente, sim, como na hora em que se reza, ficamos no mesmo nível, porque estamos perante a algo superior a ambos.
 
O filho de 5 anos de uma amiga chegou em casa dizendo: “Mãe, você sabe que existe Deus?”. E ela falou que sabia. “Você sabia que Deus é o nosso pai? Então, se Deus é nosso pai, nós somos irmãos.”
Seremos irmãos na hora do espírito, mas seremos pais e filhos na hora da cultura, que é a maior parte do tempo. 
 
É ótimo trazer para o cotidiano o sagrado, porque dessacralizamos a vida em todos os níveis, né?
Sagrado é o fato de você colocar como coluna vertebral que tudo o que você faça, sinta ou expresse é parte de um todo maior. 
A gente não sabe até onde vai o limite da cidadania, assim como não sabemos até onde vai o limite do que é cósmico. Não profana o fato de querer saber, o que profana é que a gente coloque limites para esse saber. 
 
O problema é como a gente lida com o que a gente aprende.
É a gente dizer “é isto e não existe outra coisa”. Você usurpa a possibilidade de outras pessoas trazerem uma visão que pode desintegrar a sua. Um dia você acorda e tudo o que pensava está errado. É uma crise de identidade, mas a gente tem de se preparar pra isso. E cada vez que acontece a gente retrocede para o conforto anterior, que recriamos psicologicamente. Na medida em que você aceita o desafio, toma essa crise como um convite, por mais que doa, em vez de te fazer retroceder, a dor passa a impeli-lo em direção ao desconhecido. 
 
Quando você olha pros teus filhos, o que quer pra eles?
Pra eles vai acontecer o que acontece com todo mundo, passarão pela crise da identidade sexual, vão se sentir péssimos durante a adolescência, são iniciações que acontecem com todos nós. Então, pra eles, eu não posso criar nada, vai acontecer o que acontece com todo mundo. O que eu gostaria é que partissem sempre do princípio de que eles podem acontecer mais do que deixar que as coisas lhes aconteçam. Isso é sabedoria e sabedoria a gente aprende na prática