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Do tubo ao YouTube

Álvaro Paes de Barros, diretor do YouTube, pensa na relação das crianças de hoje com a televisão e com a internet

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Louco por TV desde pequeno, Álvaro Paes de Barros parece estar no lugar certo (e em uma hora desafiadora): é diretor de conteúdo do YouTube Brasil. Seu trabalho não é só ficar assistindo vídeos o dia todo, como seus filhos, Manuela e Caio, pensam, embora, claro, uma parte do trabalho seja esse, sim. Faz parte também do lado sedutor de sua rotina conhecer pessoas famosas, entre elas vários ídolos e referências das crianças – como a Mônica, filha do Mauricio de Sousa, que inspirou a personagem dentuça e bravinha. Ele acredita que YouTube é para as crianças hoje o que a televisão era na infância dele. E, por mais contraditório que pareça, vê nesse caminho oportunidade para reunir a família novamente. Na casa do Álvaro, por exemplo, toda noite tem programação elaborada a várias mãos: cada um escolhe um vídeo para mostrar aos outros. É uma forma de dividirem conhecimento e entenderem os gostos uns dos outros. #ficaadica

Como você vê ter duas crianças pequenas em casa, considerando a relação da gente hoje com a tecnologia? 

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O que me veio à cabeça agora foi a forma como eu consumia TV quando era moleque. Eu sou um cara que sempre gostou muito de televisão. Me lembro de tomar muitas broncas dos meus pais pelo tempo excessivo que ficava na frente dela.

O que você via?

De tudo. Desde desenho animado até novela. A televisão pra mim era uma espécie de caixa mágica. E era quase uma combinação formal a família se reunir ao redor dela! Hoje, a forma como eu e meus filhos nos relacionamos com a televisão é muito diferente do que era antes. É sem dúvida uma relação muito mais ativa  do que a que se tinha.

E quanto aos seus filhos, como você controla? Como você os educa com relação à internet?

Meus filhos assistem absolutamente de tudo. Veem programas na rede aberta da televisão, que eles ligam da forma mais tradicional do mundo, tipo Chiquititas e Carrossel. Novelas a gente não assiste com eles. DVD físico também não entra mais na minha casa, só Netflix e NOW. Percebo que entendem bem o que cada plataforma oferece.

Você controla o que eles assistem?

Sim. Na TV paga a gente tem todo o Parental Control, que faz o setting por idade. Mas eles pouco ficam na frente da TV sem a gente por perto porque têm um dia bastante agitado. O uso de eletrônicos é controlado por tempo. Eles têm os iPads deles. O meu filho tem o dele e a minha filha acha que tem o dela também, na verdade usa o da minha esposa (risos). Eles têm meia hora por dia pra jogar. E aí, dependendo de como se comportam, ganham ou perdem tempo.

Como você foi trabalhar com televisão? 

Acho que foi minha vontade de me manter sempre perto da TV que me levou, de forma inconsciente, a ir trabalhar nela. Quando entrei na faculdade de administração, resolvi buscar um estágio. Olhava no mural e fiz a via-crúcis nas empresas: Nestlé, Procter & Gamble, consultoria, banco, muito banco. Eu fiz entrevistas em todas, mas não fui aceito em nenhuma. Por acaso, comecei um curso de espanhol e um colega trabalhava na TVA e me indicou para uma vaga. Fiz essa entrevista e deu certo. Eu logo achei muito interessante trabalhar com televisão por assinatura, com os canais segmentados, atender a uma audiência sedenta por conteúdo. Achei que aquilo poderia transformar alguma coisa. Foi o mesmo tipo de atração que me fez vir para o YouTube anos depois. Eu percebi que o YouTube pode ser pra TV paga o que a TV paga foi pra TV aberta.

Os seus filhos entendem qual é o seu trabalho?

Acho que os meus filhos não entendem exatamente o que eu faço e qual é minha missão aqui. Eles acham que meu trabalho é muito divertido. Eu acabo mesmo vendo mais vídeo do que muita gente. Outro dia esteve aqui a Mônica de Sousa. A minha filha, em particular, gosta muito das revistinhas da Mônica. Eu sou muito pouco tiete, mas tirei uma foto com ela e mostrei pros meus filhos. O Caio, meu filho, joga Minecraft, e tem alguns canais que são muito focados nisso (em ensinar os truques do jogo). Tem dois garotos em específico que têm uma audiência enorme, o Venom e Monark. Eles têm milhões e milhões de views. 10% do tráfego total do YouTube tá nas mãos deles. Outro dia estive com eles, e  contei para o meu filho. Ele me achou um herói. “Não acredito, pai. A próxima vez que o Monark for lá você me chama?”

Então seu trabalho é uma farra, na visão deles?

Sim, eles acham que o meu trabalho é jogar pingue-pongue, comer o dia inteiro, assistir vídeos no YouTube e me encontrar com pessoas interessantes. Mas isso é só parte. A outra é uma atuação direta na transformação da forma de se consumir conteúdo e informação, o que é muito complexo.

Como vocês acessam esse conteúdo na sua casa? 

A gente incorporou um dispositivo lá em casa – e vai parecer aqui que eu estou fazendo propaganda do Google – que é o Chromecasts. O dispositivo custa 35 dólares nos EUA (ainda não está à venda no Brasil), e é mais ou menos uma Apple TV. Basicamente ele conecta sua televisão e você começa a controlar dos seus dispositivos móveis.

Vocês assistem os vídeos do YouTube na TV?

Sim, é muito bacana, porque o dispositivo faz aquilo que a televisão fazia com a minha família, que é reunir todo mundo na frente da televisão. O momento anterior, da segmentação, separou a família. Cada criança ficava na sua televisão ou no seu computador. Mas agora com coisas como o Chromecasts a família se reúne de novo. Hoje a nossa casa funciona desta forma: jantar, Chiquititas, depois todo mundo escova os dentes e vai para nossa televisão do quarto, e faz essa brincadeira do YouTube, onde cada um mostra seu vídeo. São vídeos de 4, 5 minutos. Assim, ninguém fica bravo em assistir um vídeo que não gosta, porque sabe que vai terminar rápido. Se eu descobri uma banda nova, então mostro essa banda. Minha filha descobriu um canal japonês que faz miniaturas com massinha, tipo picolé, sushi, superminimalistas. Mostrou para todos nós.

Você acha importante passar esse tempo junto em família?

Gosto de tomar café e jantar junto. Para mim é uma coisa sagrada. Até comprei uma bicicleta pra poder chegar mais cedo. Jantamos em família. Não tem essa história de sair da mesa ou ficar com iPad durante a refeição. Eu cresci assim e faço assim. Nunca tive televisão no meu quarto, na minha casa sempre teve só uma televisão. Hoje tem uma no meu quarto e uma na sala, porque minha mulher gosta de assistir um pouco antes de dormir, e eu gosto da televisão pra jogar.

Agora vamos sair um pouco da sua família. Como o YouTube está vendo a família em geral em seus projetos? 

Importante lembrar que o YouTube não faz nem quer fazer conteúdo. Ele é uma plataforma. Ele quer ser entendido como uma das plataformas da indústria de distribuição de conteúdo. Até pouco tempo atrás ele era um grande depositório de vídeos. A gente não tem nenhuma vergonha disso; é muito bacana. Mas acreditamos que podemos ser muito mais do que isso. A gente vem repensando a plataforma, na questão de navegação, algoritmo, comunicação, pra que as pessoas entendam que nós somos mais uma plataforma. A indústria de conteúdo é muito boa pra administrar todas essas janelas. E ela, historicamente, sempre se aproveitou dessas janelas muito bem. Cinema, TV aberta, TV fechada, dentro da TV fechada os canais premium, canais básicos etc. Aí tem os DVDs, que vão sendo pouco a pouco substituídos. A indústria sempre foi muito ágil pra entender e organizar essa distribuição de conteúdo.

Hoje a gente tem uma grande quantidade de conteúdo, inclusive o da revista, que está online, de graça, porque a gente entra nas outras ferramentas de monetização. Como você vê essas transformações?

Isso é uma conversa importante. Mas acho que ela é acompanhada de emoção desmedida, quando na verdade é uma análise fria de canais de distribuição. Eu entendo que vem com uma série de desafios. Como se monetiza, se é com publicidade, através de assinatura, com app pago, vídeo, posts pagos. Eu não sei. E acho que ainda vai haver uma turbulência nesse processo de entender as novas plataformas como parte de um ecossistema muito maior.

Como o YouTube está lidando com a questão da segurança das crianças na rede?

Existe uma preocupação do YouTube em fazer com que a plataforma seja mais segura e divertida para o público infantil. Há uma série de iniciativas que a gente vem fazendo pra tocar nesses dois pontos. O conteúdo família só vai viver com sucesso na plataforma se a gente atender esses dois pontos, uma questão estrutural. A gente sempre brinca que o YouTube precisa ser a grande casa para conteúdo de grande qualidade. A gente tem que fazer esses ajustes pra que ele seja uma casa muito boa para esse conteúdo que é muito bom.O conteúdo família é uma prioridade quase que estratégica para nós este ano. Por duas razões: primeiro porque ele traz audiência. Costuma ser muito assistido. Esse público traz um viewer share bastante alto que é importante pra nós. A segunda coisa é que você cria o hábito de se assistir em família. Pode-se começar pensando no conteúdo para a criança, e que influencia a decisão do que a família assiste. Nesse movimento, a gente traz a família inteira pro YouTube e a gente começa a mostrar que ele é também um lugar de conteúdo de extrema qualidade. Ele é um destino de entretenimento e não só um depositório de vídeos.

Família é tudo? Pra você faz sentido?

Faz total sentido. Todas as minhas escolhas são com base na minha família: como eu trabalho, quando eu trabalho, como eu dou a importância aos problemas. Eles pautam a minha vida.

A infância passa rápido, como fazer para aproveitar melhor?

O que eu mais procuro hoje, usando a flexibilidade e a tecnologia que o Google oferece, é trabalhar em horários alternativos ou de casa. Janto com as crianças sempre que posso e faço home office pelo menos uma vez por semana para buscá-los na escola…