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Cada um, cada um

A gente se esforça pra dar um tratamento sem diferenças para os filhos, mas, na prática, quase nunca consegue e se enche de culpa. Por que será?

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Você está numa loja e vê um brinquedinho que é a cara do seu filho mais velho. Mas, se comprar, precisa achar algo para o mais novo também, afinal não pode tratá-los de maneira diferente. Outro dia você lê uma história para o menorzinho e sente culpa por não fazer o mesmo com o mais velho. Sem falar naquela tarde em que só um deles vai ao cinema com você, enquanto o outro fica em casa com o pai. Quase sempre a culpa vem de mãos dadas ao agir de maneiras diferentes com os filhos. Mas cada criança tem uma personalidade, não dá para tratar igual. Atenção: não estamos falando em gostar mais de um ou de outro, é só de outro jeito!

Numa tarde, a psicóloga Lidia Aratangy, mãe de Cláudia, Silvia, Ucha e Sérgio, estava servindo lanche para duas de suas filhas. Ao colocar o suco no copo das meninas, elas começaram a medir qual tinha o copo mais cheio, numa tentativa clara de estabelecer qual seria a predileta da mãe. A psicóloga interveio pra acabar com essa competição ali mesmo: “Cadê a sede de cada uma?”, perguntou. “Eu dou o suco conforme a sede, e não conforme o quanto a outra tem no copo.”

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O episódio serve para ilustrar um dos maiores dilemas de quem tem família numerosa. A culpa por perceber que, ao final do dia, o copo de um dos filhos pode ter ficado mais cheio que o do outro. Com a consciência pesada, às vezes a gente conclui que está “fazendo diferença entre os filhos” – comportamento proibidíssimo para quem tenta atingir a perfeição da imparcialidade – e decreta, então, que a partir de agora os copos dos filhos serão igualmente cheios. Mas será que é desse comportamento homogêneo que os filhos precisam?

“Os filhos são diferentes, a mãe é diferente para cada um deles. Não significa fazer mais para um do que para o outro, apenas respeitar a individualidade de cada um”, diz Lidia, que acredita ainda ser importante deixar de lado a culpa para conseguir identificar na criança qual sua necessidade, e prover de acordo com ela. “Oras, se num certo dia um filho tem mais sede, ele receberá mais suco que os demais. Mas não por isso é o mais amado.”

Aliás, tratar todos da mesma maneira pode até ser um erro, segundo a psicóloga e pedagoga Elizabeth Monteiro, mãe da Gabriela, Samuel, Tarsila e Francisco, nossa colunista e autora de quatro livros, entre eles A Culpa É da Mãe. Ela conta que as mães lhe perguntam: “Onde foi que eu errei? Criei todos da mesma maneira!”, quando um é mais levado que o outro. Pela formação de psicóloga e pela experiência como mãe de quatro filhos, aprendeu que nenhuma pessoa é igual à outra e temos de ser pais diferentes para cada um.

A chave está em detectar a personalidade do filho e ter um comportamento compatível: “O filho mais malandro, por exemplo, tem de ser mais cobrado e vigiado. O mais delicado e sensível, tratado com mais delicadeza. O agressivo, com menos agressividade e mais firmeza. O certinho, com menos crítica; e assim por diante”, explica.

Esse tratamento individualizado exige tempo e sensibilidade por parte dos pais. Quando se tem dois filhos a tarefa já não é das mais fáceis. Imagine, então, lidar com cinco? Na casa da espanhola Beatriz Satrustegui, mãe de Inigo, Casilda, Bosco, Beltran e Genoveva, o desafio está em encontrar um equilíbrio entre aquele conjunto de regras que todos devem seguir, independente de sua maneira de ser, e o individualismo de cada filho. “Dentro de uma família, existem regras e valores marcados pelos pais que valem para todos. E cada um dos filhos deve deixar de lado qualquer ‘vício’ que possa ter para se encaixar nessa dinâmica”. Sendo assim, não importa se um filho é mais preguiçoso, outro mais dependente, ou se outro ainda tem um perfil mais egoísta. Para Beatriz, cabe aos pais identificar essas características e agir no sentido de ajudar cada um a superá-las para que consigam participar da vida em família de forma mais harmoniosa.

Lidia Aratangy é a favor de os pais passarem mais tempo com os filhos a fim de conhecê-los melhor:

“Às vezes não dá pra ter qualidade sem quantidade. É preciso de tempo pra saber dos gostos do seu filho. Tempo individual pra cada um e tempo pra todos juntos”, defende.

O queridinho da mamãe

A publicitária e designer Lívia Casteletti, mãe de Júlia, Felipe e Camila, de 17, 12 e 4 anos respectivamente, já ouviu tantas vezes dos filhos que estava preferindo um ao outro que, pra ela, isso já é até normal. Em determinadas situações, ela chega a assumir que um está mesmo recebendo mais atenção que os outros, mas explica aos filhos o motivo dessa diferença. “Cada um se encontra em uma fase da vida diferente, por isso eu vou agir de acordo com o que cada fase exige. Eles fazem bico, mas sei que no fundo sabem que há diferenças e exigências para cada idade que não podem ser comparadas.”

E sabem mesmo. Num estudo da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, as pesquisadoras Laurie Kramer e Amanda Kowal entrevistaram 61 meninos e meninas entre 11 e 13 anos, e verificaram que, desde pequenos, os irmãos são capazes de perceber que os pais estabelecem relações diferentes entre eles, sem que isso os incomode. No estudo, ao identificar um tratamento diferenciado a um dos irmãos por parte dos pais, 75% das crianças eram capazes de compreender por que isso acontecia, levando em conta as diferenças existentes entre elas e os irmãos, como idade, atributos pessoais, necessidades específicas ou a forma com que cada um se relacionava com os pais.

Outro estudo, feito pela Universidade da Califórnia, também nos Estados Unidos, traz alívio para os pais que se sentem culpados em perceber certa preferência por um dos filhos: ao observar durante três anos as relações familiares de 384 pares de irmãos e seus pais, foi possível constatar que 65% das mães e 70% dos pais pendiam para uma das crias. Segundo a psicopedagoga e psicanalista infantil Deborah Ramos, filha de Silas e Inês, não se trata de gostar mais de um ou de outro.

Essas preferências – que existem mesmo e não precisam agregar mais culpa à já pesada bagagem dos pais – são questões de afinidades. “Existe identificação, como em qualquer relacionamento. Não é questão de amor, o que acontece é a melhor identificação em questão de personalidade e forma de se relacionar, que acaba, muitas vezes, em maior empatia com determinado filho”, explica ela.

Um momento pra cada um

Um filho é beijoqueiro e passa o dia oferecendo abraços. O outro é fechado e demonstra não gostar de carinho físico. Como fazer para que ambos se sintam amados igualmente, respeitando a maneira de ser de cada um? O segredo está em ser atento aos sinais que as crianças emitem. “Tem filhos que se sentem seguros do amor dos pais ao receberem carinho físico. Outros são mais fechados e precisam da atenção dos pais pra se sentirem valorizados. Só no trato com aquela criança que a gente sabe do que ela precisa”, diz a psicóloga Lidia Aratangy.

Sendo mãe de cinco, Beatriz consegue perceber bem como cada filho precisa ser tratado à sua maneira: “É preciso estar atenta o tempo todo. Se para um dos filhos é mais difícil dar e aceitar o carinho físico, então a iniciativa de ser carinhoso tem que partir do pai e da mãe. Buscar um momento de lhe dar um beijo, um abraço, e gerar nele confiança para que ele possa se aproximar”, argumenta. Ela tem como regra dar pelo menos cinco minutos por dia de atenção exclusiva a cada um dos filhos.

A psicóloga Elizabeth Monteiro é a favor de instaurar o “dia do filho único” nas famílias numerosas, principalmente quando um deles está dando mais trabalho. “É importante que a mãe saia sozinha com cada um dos filhos, que o pai também o faça e que o casal também faça, sem os filhos”, sugere. Sim, é fundamental mesmo, mas na correria do dia a dia às vezes falta tempo pra colocar em prática.

Beatriz une o útil ao agradável e costuma usar esses programas individuais como forma de compensar um dos filhos por algo bacana que ele tenha feito. “Temos que aplaudir publicamente as virtudes e os esforços de cada um dos filhos. Percebo que essas saídas nos unem muito”, conta.

Uma ida ao teatro, um abraço desprevenido no meio do corredor, um bilhetinho na última página do caderno da escola. Quais demonstrações de carinho são mais assertivas para cada filho? Não existe uma resposta. Cada mãe é única, cada filho também. E no fundo, eles vêm com bula: é só saber ler que a gente entende direitinho o que eles querem.

A conclusão é que uma mesma mãe pode e deve ser diferente para cada um deles. “Com o tempo, fui aprendendo a tratar cada filho do seu jeito, e depois cada neto, sem pensar na culpa, confiando mais nas crianças. A maternidade ensina”, conclui Lidia, que sabiamente se recusou a encher os copos das filhas com a mesma quantidade de suco, porque sabia que o tamanho da sede nunca é igual.

Identificando os sinais de seu filho

Algumas mudanças no comportamento podem indicar que ele precisa de atenção individualizada

Se a criança era alegre e brincalhona e fica triste, introspectiva.

  Se faz muitas comparações com os irmãos (“pra ele você fez isso, pra mim não”).

Se explode de raiva sem justificativa.

Se teve regressões no comportamento, principalmente quando tem um irmão menor, como fazer xixi na calça.

Se faz muita birra.

Se é agressiva com os irmãos.

Programinhas a dois

Maneiras simples de dar atenção exclusiva a um de seus filhos

1. Ver álbum de fotos

Sentados juntos no sofá, ver fotos de quando ele era bebê, contar histórias…

2. Tomar sorvete

Num dia de calor, você e seu filho vão até a padaria comprar um picolé e curtem o momento juntos.

3. Assistir ao jogo de futebol

Faça um programa especial, com direito a pipoca e camisa do time.

4. Plantar uma árvore

Ou uma mudinha pequena no vaso.

“Vou agir de acordo com o que cada fase exige. Eles fazem bico, mas sei que no fundo sabem que há diferenças que não podem ser comparadas.” Lívia Casteletti, mãe de Júlia, Felipe e Camila. Filhos em idades diferentes têm tratamentos diferentes

Consultoria: Deborah Oliveira, filha de Silas e Inês, psicopedagoga e psicanalista Infantil, tel.: (11) 5181-3074; Elizabeth Monteiro, mãe da Gabriela, Samuel, Tarsila e Francisco, psicóloga e pedagoga, autora dos livros Criando Filhos em Tempos Difíceis, Criando Adolescentes em Tempos difíceis, A Culpa É Da Mãe e Cadê o Pai Dessa Criança?; Lidia Aratangy, mãe de Cláudia, Silvia, Ucha e Sérgio, terapeuta de casais e família e escritora.