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Aqui com seus botões

Por causa deles, ficou mais fácil tomar banho e mais difícil limpar o nariz na manga

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Quando um menino chega em casa depois de uma briga, todo sujo e com o olho roxo, sempre pode mentir e se gabar de ter deixado o adversário em situação bem mais precária. Mas é impossível inventar uma boa desculpa para escapar do castigo e manter a dignidade quando chega com as calças caindo, sem um botão na roupa, porque todos foram arrancados como troféus pelo rival. É o que acontece no livro A Guerra dos Botões, do francês Louis Pergaud. 

Apesar de a história, que se passa no interior da França, ser de 1913, continua a fazer sentido e sucesso; tanto que uma nova (a quarta) versão para o cinema estreou este ano. Não foi por acaso que Pergaud escolheu o pequeno acessório para simbolizar a vitória e/ou a desmoralização dos jovens brigões do livro. Botões não só eram essenciais e caros naquela época em que não existiam zíper ou velcro, como sempre foram de alguma forma emblemáticos. Basta lembrar que abotoar a roupa sozinha é grande conquista para uma criança e, vida afora, todos costumamos “conversar com nossos botões” antes de tomar decisões complicadas ou por simples devaneio.
Liberdade, intimidade, conforto, status, até falta de pudor – eles tiveram vários significados ao longo do tempo. E foi um bocado de tempo. Encontrado em escavações em Mohenjo-daro, no vale do Indo (atual Paquistão), o mais antigo botão conhecido tem 5 000 anos: uma concha com dois orifícios, usada talvez como amuleto. Aliás, manter a roupa fechada foi – por incrível que pareça – uma das últimas coisas que fizeram.
O mais sofisticado que romanos e outros povos antigos tinham para prender túnicas e capas era algo parecido com um ancestral do alfinete de fralda, que podia ou não ficar escondido sob peças geralmente de bronze, osso, chifre ou madeira, trabalhados e com um aro na parte de baixo que servia para fixá-las na roupa.
E com esta forma e função de enfeite chegaram ao século 13, quando a real história do botão como o conhecemos começa.
Os cruzados que foram à guerra contra os infiéis no Oriente Médio voltaram para a Europa com um troféu que tinha tudo a ver com o dos personagens de Louis Pergaud: a arte de fazer casas para os botões, em vez das precárias alças de linha da época. Era uma daquelas soluções que parecem óbvias depois que alguém tem a idéia e provocou uma revolução na moda. Tornou possível trajes ajustados ao corpo, bem mais sensuais e reveladores. Os botões resolveram outro problema, este de higiene; agora, sempre que necessário, homens e mulheres podiam trocar sem problemas as longas mangas, parte da vestimenta que sujava com mais facilidade. Logo as damas perceberam as possibilidades romântico/eróticas da novidade e, durante os torneios, passaram a tirar as mangas (limpas, naturalmente) e prendê-las nas lanças de seus cavaleiros preferidos.
Para poucos
Claro que tão importante adereço artesanal era para poucos. Botões tornaram-se símbolo de status, até porque em alguns casos eram verdadeiras joias de ouro, prata, diamante, pérola, coral… Claro também que as damas e os senhores medievais extrapolavam na ostentação, a ponto de leis serem editadas para tentar restringir o excesso.
O problema estava no fato de, de uma hora para outra, não ser mais possível identificar a nobreza pela roupa. Por isto, os legisladores decidiram que ricos sem sangue azul não poderiam usar mais de 50 botões. Não adiantou grande coisa, assim como foram vãs as tentativas dos conservadores de tachar de imoral quem os usasse. O argumento era o seguinte: só pessoas levianas poderiam se interessar por um artefato diabólico cuja única finalidade era facilitar o ato escandaloso de tirar a roupa. É bom esclarecer, porém, que no caso do guarda-roupa feminino, o conforto e a praticidade representados pelos botões foram um benefício parcial. Permitiam trocar algumas peças sobrepostas, mas não despir-se inteiramente. Durante mais uns bons 500 anos os vestidos continuariam a ser amarrados com dezenas de laços ou até mesmo costurados no corpo e descosturados antes e depois de usar.
Apesar do repúdio e da repressão, a França virou o reino dos botões e por volta de 1250 era criada em Paris a primeira guilda (espécie de sindicato) de fabricantes. Nos quatro séculos seguintes, o exagero só aumentou. Os gibões da nobreza ostentavam 38 botões, a maioria ornamental, mas alguns de importância vital como os colocados nos cotovelos, que ao serem desabotoados facilitavam os movimentos dos espadachins. Era comum os muito ricos competirem em quantidade e qualidade. Ficou famoso o traje de veludo negro com 13.400 botões de ouro que Francisco I da França usou em 1520 para recepcionar – e ofuscar – o rei Henrique VII da Inglaterra. Era comum também serem usados como penhor ou pagamento de dívidas. Tanto que os italianos ainda chamam as salas de reunião dos poderosos de stanze dei bottoni – sala dos botões.
Os menos abastados começaram a ter acesso ao cobiçado acessório a partir de meados de 1600, sob Luís XIV, o Rei Sol, quando surgiram os primeiros botões de madeira e osso banhados com metal dourado. As mulheres ainda esperariam 100 anos para ganhar o direito de usar vestidos inteiramente abotoados; na verdade, tão abotoados que não conseguiam dar conta sozinhas, precisavam que empregadas fizessem o “serviço”.
Era para facilitar a vida das pobres serviçais que os botões femininos ficavam (e ficam até hoje) do lado oposto dos masculinos. Dava um trabalho danado, não só pela quantidade como pelos feitios complicados, barrocos e rococós. São desta época, por exemplo, os modelos relicário conhecidos como habitat, verdadeiras caixinhas com tampa de vidro onde podiam ser guardadas flores secas e outras lembrancinhas e que traficantes de drogas costumavam usar para transportar discretamente suas mercadorias proibidas.
Acessório romântico
Os jovens galantes do século 18 também inventaram uma forma estranha e discretíssima de cotejar suas pretendidas: botões escondidos na parte de dentro do casaco – quanto mais, melhor. Aproximavam-se da moça, abriam a roupa e … mostravam como estavam interessados e como eram bom partido. Depois de aceitos pela donzela, os realmente românticos substituíam os botões da paquera pelos do compromisso, com o rosto da
prometida pintado em porcelana; este também era costurado no forro do casaco, longe de olhares indiscretos e junto do coração. Foi a rainha Maria Antonieta quem lançou a moda dos botões com pinturas sobre porcelana, marfim ou papel protegidas por vidro e emolduradas com ouro e cobre. Mas ela era bem mais explícita, preferia cenas eróticas, embora também apreciasse paisagens. Ironicamente, os revolucionários que acabariam com a festa da rainha em 1789 adaptaram a ideia pintando slogans em botões. Na época, os plebeus já tinham acesso não só aos modelos de vidro, como aos ainda mais baratos forrados de tecido e aos de falso diamante – cristal lapidado com a nova técnica desenvolvida em 1703 por George Strass.
A Revolução Industrial que se seguiu à Revolução Francesa transferiu para a Inglaterra a hegemonia dos botões, que passaram a ser fabricados em massa em máquinas que deixaram um intelectual como Charles Dickens maravilhado. Em 1852, ele publicou um artigo no Household Words, jornal que editava, descrevendo como matrizes cortavam folhas de aço nos formatos da moda, enquanto mulheres e crianças preparavam tecido e papelão para a forração que seria feita em uma segunda máquina.
Uma terceira se encarregava de fazer os quatro furos nos modelos lisos e outra “afundava” por pressão o centro de cada um. A produção a pleno vapor era possível também graças a novos materiais mais econômicos, como as conchas do mar (substitutas a partir de 1850 da cara madrepérola), o chifre, o corozo (conhecido como marfim vegetal), o coco e o galalite (uma proteína plástica de origem orgânica obtida pela primeira vez em 1897 pelos químicos Adolph Spitteler e W. Kirsche).
Grande demanda tiveram os botões de metal para uniformes militares e os de pressão, inventados em 1807 pelo dinamarquês Bertel Sanders. Ambos acabaram fazendo moda em blazers e japonas civis e em calças jeans. E a partir dos anos 20 os estilistas de certa forma reinventaram os botões decorativos. Agora unindo o útil ao agradável, foram transformados em itens de moda nos formatos mais inesperados (de frutas e âncoras a maços de cigarros), alguns deles memoráveis como os livros abertos de Marcel Rochas; os acrobatas no “casaquinho Circo”de Elsa Schiaparelli; os vasos de flores, raposas, sereias e cobras de Jean Patou.
Para Christian Dior, botões eram tão importantes quanto o design e a modelagem das roupas. Com o que concorda o italiano Franco Jacassi, dono da maior coleção particular do mundo – aliás, um dos maiores colecionadores de moda vintage. Sociólogo e dono, desde 1986, da Vintage Delirium, é uma lenda do mundo fashion como consultor de estilistas do porte de Gianni Versace, Calvin Klein, Tom Ford, Donna Karan e Karl Lagerfeld que procuravam inspiração e/ou um acessório fora de série em sua loja em Milão. Só de botões, são cerca de 10 milhões, todos à venda. Sem contar, claro, os 70 mil que guarda em casa e jamais venderá. Entre eles, os que inspiraram seu “delírio”: botões com os quais brincava na infância, fazendo de conta que eram soldados de Napoleão vencendo batalhas. Sua forma personalíssima de também travar uma emocionante Guerra dos Botões.

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