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Ziraldo

Jornalista, editor, desenhista, escritor e Menino Maluquinho oitentão.

Redação Pais&Filhos

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Ziraldo entrou na vida das crianças em 1969, com Flicts, seu primeiro livro infantil. No mesmo ano, Neil Armstrong pisou na Lua. Em uma das edições, o astronauta deixa seu autógrafo e confirma: a Lua é Flicts. Armstrong morreu neste ano, aos 82, mas Ziraldo, que completa 81 hoje, está bem vivo. Ele nos recebeu em seu estúdio, no bairro carioca da Lagoa em 2012. Dez anos depois de Flicts, Ziraldo deu a luz ao Menino Maluquinho, com muito da infância mineira do autor, que ainda não terminou.

Você se considera mais desenhista, jornalista ou escritor?
O Drummond disse uma vez: “Ziraldo é um homem que faz”. Sempre tive como lema que o tempo que você gasta sonhando é o mesmo que você gasta fazendo. Nunca sonhei com nada que não estivesse ao meu alcance, por isso sempre pensei em coisas que eu pudesse fazer sozinho. Desde criança, me considerava um desenhista, mas não sabia o que iria fazer com isso. Lembro que estava deitado na sala do hotel do meu avô, desenhando um tatu, quando alguém disse: ‘Ele está dizendo que isto é um tatu’. Aí me lembro de sentir naquele momento que não estava dizendo nada, eu estava desenhando.

Quantos livros seus são lançados por ano?
Tenho a obrigação de fazer um por ano, mas nunca faço um só. Não paro de trabalhar. Além disso, tenho os subprodutos dos meus livros, como os do Menino Maluquinho. Neste ano, já lancei os Meninos de Marte e o Grande Livro das Tias, uma remontagem de três livros que eu fiz em outros anos. As tias compram livros para as crianças, mas elas não sacaram que eu estava puxando o saco delas. Tinha oito tias, então deitei e rolei nesse convívio.

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Elas são mineiras?
Sim, mas vieram para o Rio há muito tempo.

Você já se considera carioca?
Não. Sou mineiro, tenho muita ligação com Minas Gerais. Mas o mineiro engana muito, é fogo.

Por quê?
As melhores pessoas que eu conheço são mineiras – e as piores também, de maneira que essa coisa de que os mineiros têm bom senso é mentira. Mesmo assim, meus grandes amigos de infância e adolescência são mineiros.

Vocês mantêm contato?
Sim, permanente.

Eles aparecem em alguns dos seus livros?
Eles são os personagens da Turma do Pererê. São os bichinhos, o tatu, a onça, o macaco, todos têm os nomes desses meus amigos. Eu tinha 26, 27 anos, quando fiz a revistinha. Estava muito ligado à minha terra. São histórias bem mineiras, então achei simpático mostrar a minha infância. Gosto muito de ter tido uma infância mineira.

O que tem de específico na infância mineira?
A minha cidade era de interior e bem atípica. É uma cidade que festeja muito quando os filhos saem do lar. Quando um filho passa no vestibular, é uma festa só. Agora, no meu aniversário, a festa vai ser lá.

Você fala que não sabe nem ligar o computador, então você trabalha muito manualmente?
Agora eu não trabalho sozinho, tenho digitadora e “mouse man”, o cara que coloca o mouse pra mim. Na equipe que faz a história em quadrinhos tem gente que está comigo há mais de 20 anos. Agora, estou sofrendo com as impressões, porque são todas digitais, só sei mexer com as analógicas. Se eu precisar de impressora, estou perdido, porque não sei ligar nem tenho paciência.

O que você acha desses lugares, como alguns estados nos Estados Unidos, que estão abolindo o ensino da caligrafia para as crianças e vão direto para o computador?
Você não pode estimular nada que perca a função da sua mão. Mas é uma coisa que não me assusta, pois o ser humano tem de viver ajustado ao tempo dele. Certamente, os meus netos vão se ajustar a isso. Por mais que essas coisas digitais estejam desumanizando o ser humano, acho que a essência humana não vai mudar. O que eu posso fazer para parar a marcha da digitalização da alma humana? Não posso fazer nada, nem ficar com pena dos meus netos. Como eles são meus descendentes, quero que eles sejam felizes. Gosto mesmo é de inventar, escrever e ilustrar livros para crianças. Não estou preocupado com as plataformas, estou preocupado com o conteúdo.

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O Menino Maluquinho está saindo em um aplicativo para iPad. Não tem como prever se o livro vai sobreviver a essas tecnologias. Em alguns trabalhos seus, como o Planeta Lilás e a Bela Borboleta, você trabalha com essa metáfora do livro como universo. Como você vê isso? O iPad traz novas possibilidades?
Não me preocupo com isso, porque nunca vou produzir nada para iPad em toda a minha vida. O meu neto vai adaptar o meu livro para o iPad com uma precisão absoluta, mas vou continuar fazendo o que eu sei fazer. Não quero que a plataforma livro desapareça, pois a palavra escrita é o que condiciona a alma humana, é o átomo da alma. Com o uso dessa partícula, você constrói o universo da sua imaginação, que é o mais importante. Então acho que o ser humano não vai se livrar do livro, ele pode se livrar do papel, mas do livro não tem jeito.

Você diz que ler é mais importante que estudar.
Se você não leu, não teve contato com a palavra, vai ser difícil estudar. O que podemos fazer para termos um mundo mais educado, mais justo, mais feliz? A gente tem de educar o povo brasileiro, parar tudo e cuidar da leitura e da escrita. Se a educação é a coisa mais importante do mundo, a escrita é a coisa mais importante da educação. Você tem que dar instrumento e ferramenta para o sujeito aprender. Mas como ele vai aprender sem cabedal, sem instrumento? O instrumento é dominar a palavra escrita, ele tem que saber escrever, ler e contar. Temos que preparar o governo e a sociedade para fazer uma coisa emergencial: a partir de hoje não cresce mais nem uma criança analfabeta no Brasil. Você não vacina a criança para não ter poliomelite? Então você vai vacinar a criança para não ter “analfabetite”. Devemos mobilizar o Zé Gotinha da leitura.

E como seria isso?
Você não vai ensinar só dentro da sala de aula. Vai levar a criança para o cinema, para o museu, ter experiências lúdicas para estimular a criatividade dela, vai contar como o mundo é. Quando ela estiver lendo, escrevendo e contando – como quem respira –, aí ela vai começar a receber um ensino organizado em disciplinas. Aprendi toda a tabuada sem calculadora, porque eu cantava. Você sabe 150 músicas de cor, então cante que você guarda, escreva que você guarda. O problema não é do ensino médio, é do ensino fundamental. Se não tiver opressão, cada uma vai aprender em seu tempo, sem aula de reforço. Einstein, com 13 anos, ainda era semi-analfabeto. Cada um de nós tem um tempo.

Está em discussão se o livro Caçadas de Pedrinho, do Monteiro Lobato, pode continuar a ser adotado pelos programas governamentais por causa dos trechos racistas. O Pasquim hoje talvez não fosse possível… Apesar de não estarmos mais numa ditadura, existem muitos controles.
Sempre tive gato em casa, mas nunca na minha vida eu ‘atirei o pau no gato’. Você acha que o fato de eu cantar essa música significa que eu vou ficar ruim, vou sair pela rua matando gato adoidado? Então a coisa toda do Monteiro Lobato é porque grupos radicais descobriram que ele era higienista. Monteiro Lobato achava que a gente não tinha atingido um nível civilizatório por não termos tido a Ku Klux Klan, por termos miscigenação. Esses comportamentos do Monteiro Lobato são censuráveis, mas a literatura dele não, pois ela é estimulante da imaginação. De vez em quando ele perdia o controle e se referia à Nastácia com certo desprezo pela negra, mas nunca me ocorreu que ele a estivesse desprezando. Deixa rolar o livro e informa o professor; não pode proibir.

Com 80 anos, você se sente velho ou menino?
Estou escrevendo uma matéria para a revista Bravo! sobre os meus 80 anos. Fiz uma pesquisa com caras como o Ferreira Gullar; a nossa atitude diante do fato de termos 80 anos é de pura perplexidade. Nunca ninguém chamou ninguém de setentão. Quando a expectativa de vida aumentou, começaram a chamar de cinquentão, depois de sessentão. Mas dez anos depois, 70 anos é a década esquecida. Agora é a primeira vez que a comemoração de 80 anos se apresenta. Antes dessa geração, estavam todos em casa, xingando. Fiz um desenho em que eu botei os meus 8 amigos oitentões. Todos estão fazendo coisas, agitando.

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A gente continua sendo a gente mesmo.
Sim. Outra coisa é a relação com a proximidade da morte, eu pensei que ia ser muito duro. A minha geração não me deu nenhum elemento para achar que eu chegaria aos 80 anos. Eu não tinha sonho nenhum de chegar aos 80 anos, queria chegar ao século 21. Acho divertido ter chegado a essa idade. Evidentemente que as duas pílulas ajudaram muito. A rosa e a azul.

O Viagra e o anticoncepcional, é isso mesmo?
É, isso. A pílula rosa foi uma ruptura. A pílula azul acabou com a primeira morte do homem.

Você gravou no CD e DVD Pequeno Cidadão (grupo do qual faz parte o filho Antonio) uma música que você cantava para eles, a Pererê, né?
Cantava essa cantiga para a Daniela (Thomas). Sempre gostei de compor, mas era péssimo compositor. Não conseguia aprender a tocar violão. Meus filhos realizaram todas as coisas que eu não pude realizar, fizeram cinema, música, tudo o que eu queria também fazer. Filho realiza muita coisa, você só não pode forçar a barra para eles as realizarem. Meus três filhos sempre me deram muita alegria.

Família é tudo. Você concorda?
A família é tudo. A família é um fenômeno natural, ninguém nasce na rua, ninguém é posto na vida sem proteção.

A infância passa muito rápido. Como fazer para aproveitar melhor?
A infância passa muito rápido, mas dura a vida inteira. Sou capaz de desenhar com alguma precisão todas as casas da rua onde eu passei a infância, e dizer quem morava em cada uma. Lembro o nome de todos os meus vizinhos. Se for fazer uma história em quadrinhos, desenho eles todos. É um susto, lembro um dia em que cheguei em casa e tinha um cara fazendo a  barba. Era o meu filho. Então passa muito depressa. Uma coisa muito boa de você ver o seu filho crescer é ler com ele. Eu teria feito mais isso. Também hoje você nunca tem tempo para o filho. Você está preocupado em dar uma vida melhor para ele, mas a vida vai passando.

 

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