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Reagindo à depressão pós-parto

Alessandra, mãe de Giovanna, conta como encarou a depressão pós-parto.

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

 

Bom, queria contar um pouquinho da minha experiência com a depressão pós parto (DPP), contar exatamento como tudo aconteceu e tentar ajudar outras mães que possam estar passando por isso.
 
Então, no domingo quando tive alta do hospital, cheguei em casa e acabei não seguindo as prescrições médicas de fazer repouso. Estava me sentindo bem, então desfiz as malas, fui pra internet postar fotos, dei mama até em pé. Aí resolvi descansar um pouco, quando acordei me senti muito estranha, parecia que estava meio ‘fora do corpo’, aquela sensação de quem tá de porre e fica meio aérea. Fui falar com meu marido e me assustei mais, pois ouvia a voz dele como se estivesse robotizada, muito estranho. Aí me deitei, comecei a sentir um formigamento estranho no peito e nos braços, tinha a nítida impressão que ia ter algum problema cardíaco, que ia morrer. Ui chega a dar um arrepio de escrever isso, mas é verdade, naquele momento acreditei mesmo que ia morrer, é uma mistura de pânico e razão, não sei explicar com palavras. Mas não falei isso para o meu marido para não assustá-lo, procurei manter a calma, pelo menos externamente, mas no meu pensamento só rezava e pedia a Deus pra me deixar ver minha filha crescer. Liguei pra minha médica, ela pediu p/ o meu marido medir minha pressão e que eu deitasse com as pernas bem pra cima imediatamente, pois devia ser das anestesias. Minha pressão estava alta, talvez até pelo nervosismo.
 
A essa altura já tinha ligado pra minha mãe e também para minha cunhada, pedindo que viessem para ter alguém pra me acompanhar ao hospital e pra ficar com a Gi, até eu me admiro do meu alto controle naquele momento. Minha amiga Mê, tinha combinado de vir nos ver e acabou chegando bem nesse horário e muito me ajudou nesse momento, pois me passou tranqüilidade. Minha mãe veio correndo junto com a minha vó e logo em seguida minha cunhada também. 
 
Foi muito complicado passar calma para todos e ao mesmo tempo sentir o que eu estava sentindo. Começaram as divagações sobre problemas de infecção, anestesia, etc. Então depois de duas horas me senti um pouco melhor e achei que tudo ia ficar bem, que devia ser da anestesia como minha médica disse. No dia seguinte acordei e aquela sensação de pânico voltou, era uma tontura, uma sensação ‘extra-corpo’. Na mesma hora liguei pra minha médica e disse que precisava voltar para o hospital. Bom, foram mais 5 dias de hospital em repouso absoluto, como contei na história do meu parto.
 
Relatei tudo isso, na verdade, porque minha médica e meu psiquiatra disseram que aquela sensação de pânico era o 1o sinal da DPP.
 
Daí pra frente parece que não conseguia me sentir segura, tinha medo de sair sozinha com minha filha, a sensação que eu tinha é que se eu fizesse isso ia desmaiar no meio da rua. Comecei a sentir uma tristeza sem razão de ser, me sentia insegura e até, em alguns momentos, incapaz de cuidar da minha filha. Mas achei que essa sensação era normal, que logo ia passar, mas não passou, cada vez ia me sentindo pior, chorava por qualquer motivo e até sem motivo nenhum. Não tinha disposição para fazer nada, tinha medo de assumir alguma responsabilidade, me sentia mal quando tinha várias pessoas ao meu redor, mesmo que dá família. Fiquei completamente introspectiva, só falava se falassem comigo e mesmo assim somente o necessário.
 
Nisso, foram se passando os meses, eu achando que era tudo normal, que devia ser só uma sensação passageira do pós-parto, o que chamam de baby blues, achei que eu ia conseguir reagir sozinha, mas não foi assim. Cheguei no fundo do poço, chorava muito e sentia uma insegurança incomum. Quase me separei por conta disso, pois fiquei de um jeito que acho que nem eu mesma me agüentava mais. Aí resolvi marcar consulta com a minha médica, só que só consegui para 2 semanas depois. Depois disso, combinei com a minha amiga de ir ao shopping, só nós duas pra tentar espairecer e me sentir melhor. Bom, foi só a gente começar a conversar que desatei a chorar, não conseguia me controlar, as lágrimas rolavam, então ela pegou meu celular e ligou para minha médica e contou como eu estava, minha médica mandou eu passar no outro dia lá no consultório. Nossa naquele momento já me senti melhor, me senti acolhida, apoiada e sabia que ia conseguir resolver com ajuda médica.
 
Minha médica ficou apavorada como eu consegui esperar tanto, minha filha já estava com 4 meses, que devia ter falado com ela. Bom, ela me receitou fluxetina e um ansiolítico. Achei que em seguida já estaria ótima, mas que nada, melhorei muito pouco, achava que era assim mesmo, e já ia eu deixando o tempo passar. Até que um dia tive uma outra crise de choro compulsivo e finalmente marquei o psiquiatra, conforme minha médica havia indicado. Foi então que comecei o tratamento com anti-depressivo e equilid, melhorei bastante, mas não estava 100%. Então o psiquiatra decidiu aumentar a dosagem do anti-depressivo, nossa, como mágica, todos aqueles sentimentos ruins passaram, me senti feliz, como se tivesse renascido, é incrível.
 
Depois de algum tempo de tratamento, finalmente consegui renascer das cinza, é exatamente esta a sensação, consegui voltar a olhar a minha volta e sorrir, aproveitar minha bebê, realmente curtir a maternidade, ela já estava com 7 meses. Não tive rejeição por ela, em nenhum momento, mas por vezes me sentia muito mais frágil que ela. Os primeiros meses exigem muito de uma mãe, são poucos momentos de sono, a gente não consegue mais ir no banheiro e muito menos tomar um banho como antes, o bebê exige demais, e eu vivi para isso e somente para isso, enquanto estava na depressão, não existia a Alessandra, apenas a mãe da Giovana, e isso é muito ruim. Foram 3 anos e meio de tratamento para depressão, pois demorei muito para buscar ajuda.
 
Hoje tenho uma filha linda, saudável, de 5 anos, com o sorriso mais lindo do mundo, e sou uma mãe feliz e muito, muito orgulhosa. Nos dias difíceis basta olhar para esse rostinho e pronto, qualquer problema se torna pequeno, e vamos em frente.

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