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Quase centenária

Aos 98 anos e com uma memória incrível, Alayde não deixa de torcer pelo seu time

Redação Pais&Filhos

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Minha avó, Alayde, nasceu em Monção em 1914. Uma cidade que não existe mais no mapa do estado de São Paulo, embora conste da carteira de identidade que ela usa até hoje, emitida em 1969 pelo governo dos Estados Unidos do Brasil. Em seu lugar está Iaras, uma cidade pequena, com uma inconfundível cara de interior.


Em um dos bancos de cimento espalhados entre as árvores centenárias da praça central está inscrito o nome de seu pai, Manoel Haggi. Sentamo-nos nele há pouco tempo, não faz cinco anos, quando fomos visitar a cidade, eu, minha avó, meus pais e meus filhos.


Buscávamos o local onde ficava a casa de meu bisavô, um “mascate”, que casou-se com uma filha de fazendeiros, e acabou prefeito da cidade. A casa não está mais lá, mas parece que a vejo pela descrição que ouvi, com as paredes brancas de madeira dupla, as varandas e as enormes jabuticabeiras no quintal. Minha avó morava ali com cinco irmãos, sendo duas gêmeas, de quem devo ter herdado os genes que deram origem aos meus dois filhos mais novos, Martin e Artur, hoje com 6 anos.

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Foi de uma das janelas dessa casa, agora imaginária, que minha avó viu soldados constitucionalistas acampados na praça que ficava em frente. “Chegavam aos montes”, lembra-se. Escondeu-se embaixo da mesa quando tiros foram disparados contra a delegacia. Viu sua mãe preparar arroz, feijão, farofa e carne de porco, abatido ali mesmo, para servir aos soldados.


Não foi a primeira, nem a última batalha que presenciou. Minha avó nasceu em 1914, em plena Guerra Mundial. Seu filho mais velho, William, nasceu no fim da segunda delas. Essa, vó Alayde acompanhou pelo rádio, com os ouvidos atentos às transmissões da BBC. Também foi ali que minha avó começou os estudos, com professores particulares. Apenas a filha mais velha, sua irmã Isaltina, ganhara o direito de frequentar a escola cedo. Mais tarde, matriculou-se no internato de freiras de Agudos, cidade vizinha para onde a família se mudou.

 


Formou-se em magistério como a primeira aluna da classe, em 1935, e logo em seguida casou-se, enfrentando a oposição de seu pai e tendo que fugir pela janela. Não parou mais e isso fez com que se mantivesse tão ativa até hoje, com seus 98 anos, e lucidez de dar inveja a muita gente jovem. Com memória incrível, lembra e nos conta cada um desses episódios históricos, em que observou e muitas vezes protagonizou mudanças na história.


Incansável, fala aos netos e bisnetos sobre os filmes de Carlitos aos quais assistia no cinema, com um piano tocando ao vivo para a plateia. Orgulha-se de ter participado, na década de 1930, da primeira eleição em que as mulheres puderam votar. Apesar do preconceito e dos tabus que envolviam o assunto, separou-se na década de 1950, e continuou criando seus filhos em Bauru, onde trabalhou até se aposentar.  
Hoje, quando os bisnetos a veem sentada no sofá de casa, fazendo casaquinhos de crochê com os quais todos se vestiram, não sabem dos quase cem anos de história que viveu e continua vivendo intensamente. Faz dois anos, estava na arquibancada do Pacaembu vendo um jogo do Corinthians, como há dois dias estava de pé bem cedo para ver seu time sagrar-se bicampeão do mundo em Yokohama, no Japão. Quando vocês estiverem lendo esse texto, estará a bordo de um navio rumo a Buenos Aires, acompanhada de sua filha, Noemia, minha mãe; netos e bisnetos, como meu filho Tomás e seus primos João e Teresa, a quem espero que ainda conte muitas histórias."

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