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“Gente com síndrome de Down não é mongolóide, não”

Imagem “Gente com síndrome de Down não é mongolóide, não”

Publicado em 11/02/2015, às 17h01 - Atualizado em 02/03/2021, às 12h28 por Redação Pais&Filhos


“Amigos, colegas, conhecidos e mais ou menos conhecidos aqui do “face”, vocês provavelmente não ficaram sabendo. Mas esta semana rolou um pequeno furdunço aqui pra gente que vive este mundo da síndrome de down. A jornalista Sílvia Pilz, de O Globo, escreveu um texto contra o politicamente correto. Contra o tempo em que podíamos chamar anão de anão e não de “pessoa verticalmente prejudicada” e blablabla. A princípio, concordo. Considero-me uma pessoa com bem poucos preconceitos. Não me sinto a vontade de dizer que não tenho nenhum porque, não sei, talvez exista algum aqui no fundinho. Mas tenho horror a esta onda politicamente correta e chata que o mundo anda surfando.

O problema é que, em seu texto, Sílvia Pilz fala que “esbarrar em crianças com síndrome de down gera um grande desconforto”. Chato de se ler, né? Mas, ok. Eu também não sabia lidar muito bem com estas pessoas antes do Mateus nascer e não vou julgar ninguém por se sentir assim só porque passei pro lado de cá da cerca.

O lance é que a comunidade de pais, mães, amigos, vizinhos e simpatizantes das pessoas com síndrome de down está bem indignada com a tal jornalista. Claro que fui atrás do texto. E fiquei chocada com o conteúdo retrógrado e feio que esta mulher foi capaz de escrever.

Pô, a turma da síndrome de down está magoada? E os negros? Caramba! O que ela fala sobre os negros é muito pior! Resumindo, ela diz que as meninas negras que não alisam seus cabelos fazem parte de um movimento em que “quanto mais feio, melhor”. Nossa mãe! E a coisa não para por aí. Como não gosto muito de julgar assim de cara, fui atrás de outros textos da jornalista. E: surpresa! O preconceito segue. Para todo lado.

Mas sinto-me especialmente curiosa para entender qual é a questão dela em relação às pessoas com síndrome de down. Em um outro texto, relatando uma viagem à Espanha, ela diz que encontrou um “enxame” de crianças com síndrome de down em uma praça e que isso “parecia um pesadelo”. Mais à frente, no mesmo texto, ela volta à questão mais ou menos assim: “Por onde andam aquelas crianças com síndrome de down? Elas devem ter algo a ensinar. Afinal, os pais delas sempre falam sobre como elas são especiais. Nossa, como o ser humano tem dificuldade de admitir seus fardos”. É mais ou menos assim, tá? Estou escrevendo de cabeça.

O que eu posso dizer é que: Amore, fardo é seu cu. Sou completamente contra a definição paternalista e boba de que meu filho é “anjo” ou “especial”. Mas “fardo”, não, Dona Sílvia… É um pouco diferente do que a gente imaginava a experiência de ter um filho. E a gente aprende sim. Com dor, com amor, com batalha e medo. Aliás, um dos meus maiores medos, daqueles que me tiram o sono, é gente como você.

O que eu não consigo entender é porque uma jornalista bem sucedida, bonita, dona de uma coluna em um dos jornais mais importantes do país, onde pode abordar o assunto que quiser, insiste tanto neste. Fala de viagem, cita gente com síndrome de down. Dá um ponto de vista, cita a síndrome de novo.

Louco, né? Trauma? O que é? Ah, e antes que me esqueça, a respeito de seu texto sobre o politicamente correto: anão é anão mesmo. Não é “pessoa verticalmente prejudicada”. Pode chamar assim que eles não se magoam. Cego é cego mesmo. Não precisa ser chamado de “deficiente visual”. Isso eu vi Dona Dorina Norwill pessolmente explicar. Mas gente com síndrome de down não é mongolóide, não. Não soa legal nem para nossas crianças e nem para as pessoas nascidas na Mongólia.

O furdunço em torno do texto da moça rendeu uma entrevista em que ela diz que os textos dela são “de humor”, que “só a classe média se ofende”. Como se apenas pessoas de uma distintíssima classe superior fossem capazes de captar as sutilezas de suas palavras. Amiga, na boa, me poupe. Porque, hoje mesmo, dando um google em seus textos, percebi que não é mais possível encontrar as versões originais. Todos foram alterados. Sobre o “enxame” de crianças com síndrome de down na Espanha, você não fala mais sobre “fardo”. Apenas diz que talvez elas tenham algo a ensinar.

Mas toda esta história me deixou uma lição. Eu também vivo alardeando que sinto saudades do tempo em que a gente não precisava ser tão politicamente correto o tempo todo. Hoje, mudei de opinião. O politicamente correto é pentelho mas existe para colocar um freio em gente como a Sílvia. Ok, hoje há uma grande frescura sobre o quê e como podemos nos expressar. Mas antigamente também era normal negro ser escravo, mulher não votar e criança com síndrome de down ser abandonada ou criada dentro de um quarto escuro, entre tantos outros absurdos. E, para estes tempos, eu não quero voltar não.”


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