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Entrevista: Leonardo Posternak

Com a morte do filho mais novo, aos 30 anos, o pediatra retomou o Instituto da Família com toda a força

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

O centro de estudos Thiago Posternak é uma homenagem ao caçula e um motivo para seguir ajudando ainda mais pais e filhos.

Faz oito anos que você começou o Instituto da Família, o que mudou de lá pra cá?
Continuamos com o curso para pediatras, em que tentamos mostrar que existem outras maneiras de olhar os pacientes. Você trabalha com o sujeito, não com o objeto. Quando você olha uma pessoa, por mais orgânica que seja, ela tem componentes que não são objetivos, são subjetivos. Então, tentamos mostrar todas essas coisas. Depois, continua uma fase de teoria e prática. As consultas são feitas numa Câmara de Gessel, em que do lado do consultório há um espelho e do lado do observador, um vidro. Claro que os pacientes são avisados e, se não quiserem ser observados, serão atendidos do mesmo jeito. Os pediatras continuam até o fim do curso atendendo e sendo, de alguma maneira, supervisionados. Eles se tornam seres relacionais com a família.

Como o pediatra participa dessa consulta?
Existe o conceito de transferência e o de contratransferência. Isso significa o quanto de experiências anteriores esta mãe vai trazer ao pediatra e como o médico vai agir contratransferencialmente, gostando mais ou menos das histórias, porque também nele se reativam situações anteriores.
Sempre que eu falo sobre isso, uso o exemplo da pequena quitanda. O João, que atende sempre um mesmo cliente, um dia vende para ele uma dúzia de laranjas. E uma delas está podre. Como a relação entre ele e o cliente é muito boa, tanto transferencial como contratransferencialmente, o cliente fala: “João, você me vendeu 11 laranjas boas, mas uma está podre. Você pode trocar pra mim?”. E acabou. Mas um dia João está de férias e quem atende esse cliente é o Chico. O cliente, em vez de entrar e fazer como fez com João, pula, briga e grita, e fala que ele é um ladrão. Com isso quero mostrar que a transferência e a contratransferência acontecem aqui, agora, entre nós.

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E, no curso, como isso se aplica?
Perguntamos ao pediatra o que ele sentiu da pessoa, o que ele pensa. Então, ele começa a se acostumar a trabalhar assim. Pensamos que a família é um lugar de muito afeto, mas também de conflitos. Ela pode ser facilitadora de saúde, mas, em casos especiais, pode gerar sintomas ou enfermidades. Tem uma brincadeira que diz que a pediatria é muito boa, mas é uma pena que a mãe esteja presente nas consultas.

Por quê?
A mãe é a que questiona. A criança sozinha não existe, ela é parte de uma relação. Aqui no Instituto também atendemos crianças de famílias menos favorecidas. A gente tenta fornecer um lugar onde eles possam conversar, vir com demandas claras, como “meu filho não come”, mas também existem as ocultas. O médico tem de ter habilidade para descobrir essa parte. Ele não tem que tentar diagnosticar que a culpa por a criança não comer é da mãe; e, sim, tentar ver o porquê. Talvez a mãe tenha muito medo de que ele não coma, então insiste demais e, então, o filho não come. Ou seja, existe sempre uma demanda que a mãe não traz.

Quantos médicos o Instituto já formou?
No total, foram 40. Escolhemos pessoas que possam multiplicar a ideia do Instituto, como um professor da USP ou da Escola Paulista de Medicina ou da Santa Casa. Assim, quando ele volta para o seu trabalho, vai se relacionar com médicos mais jovens e passar adiante o conhecimento.

Esses pediatras, provavelmente, lidam também com as famílias de classe alta. Os problemas são os mesmos ou são diferentes?
Os problemas são os mesmos. Damos preferência para as famílias mais carentes. Já recebemos famílias mais abastadas, que ficaram sabendo do Instituto e quiseram trazer o filho. Elas não pagavam a consulta, mas acabavam deixando um cheque de doação. Mas não é exigido nada. Fizemos convênios com orfanatos e atendíamos a criança junto com a cuidadora. Era interessante, porque ela dizia que vinha com a mãe. A criança tem a necessidade de ter um laço afetivo.

A alimentação continua sendo a principal questão nas consultas?
Sim, é “meu filho não come”. Provavelmente, a segunda é “meu filho não dorme”.

Mas qual é porcentagem das crianças que realmente não comem?
A imensa maioria, sem entrar em estatísticas, não tem clínica orgânica para justificar. Às vezes, a criança até engorda bem. E “meu filho não come” tem outra questão embutida, que é quanto a mãe acha que uma criança tem que comer, e quanto ela oferece para o filho, não respeitando a sua necessidade.

Existe uma grande preocupação de pais e pediatras sobre se a criança está ganhando peso ou não e isso gera ansiedade.
Aquela medicina baseada em métodos cartesianos faz o médico ser levado por estatísticas, gráficos. Normas, em crianças, não funcionam. As tabelas de crescimento são para ter uma orientação, não uma classificação de crianças. A pergunta mais frequente que se faz ao pediatra ao sair do berçário é quanto o bebê pesa. Neste curso interdisciplinar do Instituto, estamos dando muita ênfase, por exemplo, ao desenvolvimento psíquico normal.

Como assim?
Uma coisa nova é a detecção precoce do autismo, que é fantástico. Para que um médico possa olhar sinais clínicos de autismo precoce ou sinais de risco de entrar em um autismo, este médico tem que ler o bebê de outra maneira. Não é só pesar, medir, dar vacinas, dar boa alimentação. Quando eu olho para o bebê, ele olha para mim? Como ele reage quando eu falo com ele, quando eu dou um beijo na barriga? Isso são coisas normais, mas que nunca nos ensinaram. Antigamente, se diagnosticava o autismo aos 4 anos apenas. A gente quer que os pediatras se tornem bons especialistas do normal. Quando você se acostuma ao normal, ele te dá um branco, e, neste branco, aparecem os coloridos. Se você encaminha uma criança com 12 meses para o tratamento autista, você tem mais chances de ter bons resultados. Falar de cura de autismo não sei se podemos, não sei se estamos qualificados. Mas que você coloca essas crianças em uma vida social e afetiva muito melhor, com certeza.

Na questão do autismo, a gente sabe de casos em que a mãe já notava algo diferente.
Porque a criança autista é muito tranquila. E uma criança muito tranquila é o sonho de qualquer família: não chora, se alimenta quando a mãe quer, dorme bem, até excessivamente. O que você pensa? As suas amigas têm inveja de você.

Aumentaram os casos de autismo?
Não é que o autismo esteja em aumento. É o diagnóstico que melhorou. Antes do autismo, precisamos ver diferentes sinais do que nós chamamos de sofrimento do bebê. Sofrimento é uma palavra pesada, mas não tem outra. É uma criança que não come nada, que não dorme nada, que não olha no olho da mãe, que não se integra em nenhum grupo. E, além disso, tem sinais corporais, como choros inconsoláveis. Uma criança pequena que está bem chora, mas se encontra algo – a chupeta, o peito – se acalma. Numa criança com risco autístico, o sofrimento não acaba. Então, você tem uma série de sinais, que se chamam barulhentos, porque chamam atenção, e uma série de sinais silenciosos, aos quais o pediatra tem que estar atento. Por que eu falo em pediatra em um bebê com risco autístico? Porque eu nunca vi uma mãe sair da maternidade e ir direto procurar uma psicóloga. O pediatra é o primeiro contato dos pais e ele tem que estar preparado para encaminhar para um tratamento especializado.

Às vezes existe uma ausência do pai, mesmo que só no discurso da mãe. Você sente que a mulher está mais dominante?
Creio que sim, mas aqui no meu consultório os pais estão presentes. Existem coisas que não vão mudar porque a mãe tem outro tipo de presença. A figura que mais coloca o pai dentro da família, mesmo quando ele está ausente, é a mãe. Se ela se esquece do pai e toma o filho como uma galinha possessiva, então ele está fora. Nos primeiros 3 meses, é a fase simbiótica, boa para a mãe e boa para o filho. Não que o pai não tenha função, mas é uma função mais de apoio. Depois a função paterna é de corte: cortar o cordão que esqueceram de romper na maternidade. Ele tem que recuperar a mulher na sua cama, mostrar pra ela de alguma maneira e com as suas palavras que o filho que eles têm é a coisa mais importante do mundo, sim, mas que também não é a única coisa importante.

Têm aparecido mais problemas como síndrome do pânico e ansiedade em crianças?
Acho que o que mudou foi a maneira de olhar os filhos. Há 40 anos, os pais não tinham a mínima ideia do que era a psicanálise, davam uma chinelada e pronto. Hoje, as famílias não colocam mais limites. Mas o que temos que ter muito cuidado é que existem grupos que inventam patologias, como chamar a birra de personalidade opositora, para poder medicar. Estes são os psiquiatras que estão par a par com os laboratórios. Uma criança com medo não é síndrome do pânico.  

Criança saudável dá problema?
Criança saudável também dá problema. Aí, em geral, são falhas dos pais, que não querem ser rígidos e não percebem que o limite tem que ser colocado. Então, não se permite que ela tenha contato com a frustração. A criança precisa se sentir limitada.

Hoje tem a questão do bullying.
Bullying teve sempre. Sempre há um grupo de crianças de 7 anos que são perversas, porque nessa idade elas são muito perversas. Veja a criança que usava óculos, a Olívia Palito, a baleia. Isso sempre existiu, mas a sociedade, neste caso representada pela escola, sabia trabalhar com isso. Hoje já virou caso de polícia. Às vezes, é necessário, mas às vezes acho que se passa dos limites. O bullying deveria ser tratado na escola junto com uma psicóloga escolar. A escola comprou a ideia de que eles são instrutores, têm que seguir o currículo do Ministério. A educação é da família, 90% da família, mas você tem que ter uma escola que te apoie, que te ajude.

Os pais querem dar uma boa preparação para os filhos, mas acabam deixando um buraco no convívio hoje. Como resolver?
De fato, a gente vive numa sociedade dramática e competitiva. Tudo é emergencial. O econômico pesa. Os pais que estão passando aperto não querem que o filho passe pela mesma situação. Nós, pais, sempre queremos que os filhos façam coisas que não conseguimos fazer. O bebê nasce com uma responsabilidade que não pediu: tem de ser o mais bonito do mundo, o que vai ter o desenvolvimento psicomotor mais aguçado, que vai andar e falar no dia certo. Só que esse dia certo não existe. Quando a gente exige uma boa escola, imediatamente exige deles um bom rendimento. Você quer ter um retorno do seu investimento. E cada criança tem seu tempo.

E os pais têm pressa.
Do ponto de vista familiar, vejo uma pressa desmesurada e incoerente. É muito comum que apareça aqui no consultório uma mãe dizendo que o menino do quarto andar, que tem a mesma idade, já começou a engatinhar, como se esse dia em que engatinhou o vizinho fosse o dia em que todas as crianças dessa idade deveriam engatinhar. A urgência dos pais faz com que a criança segure a cabeça, dê um sorriso, sente sozinha, engatinhe, fique de pé e depois tenha mais dificuldade para fazer tudo porque está tentando responder a uma demanda, não a uma possibilidade dela. As pré-escolas são o lugar onde a criança deve entrar para brincar, para ter uma relação social, brigar por um brinquedo, às vezes ganhar, às vezes perder, às vezes ser líder, às vezes ser liderado.

E o que os pais precisam ensinar aos filhos?
Se eu tivesse de dar uma única definição da importância da educação familiar, diria o seguinte: que a criança possa aceitar que a frustração existe e que não mata, que depois da frustração a gente pode continuar sendo feliz.

Superproteger os filhos é uma característica cultural brasileira?
Existe uma certa dificuldade em deixar a criança crescer, o que justifica mamadeiras e chupetas até idades que não são lógicas: 4 ou 5 anos. A criança precisa saber que alguma coisa do bebê vai perder e que a mãe está muito contente com o que ele está desenvolvendo agora.
O que os pais deveriam fazer é mostrar como estão felizes com as novas aquisições e não tratar o filho como um bebezinho, porque aí, por mais que exija um comportamento mais amadurecido num momento de limites, não percebe que está criando uma criança regredida. E essa dupla mensagem faz com que a criança se pergunte: querem que eu cresça ou que eu continue bebê?

Você sentiu que mudou como pai com o passar do tempo?
O primeiro filho representa muito sofrimento, desconhecimento, angústia, não entendemos por que chora. Com o segundo já conhecemos alguma coisa. O que descobri como pai e como pediatra é que, independentemente da posição do filho, cada um deles nos pega em uma ferida que nós temos e não sabemos e, por causa disso, com um conseguimos ser firmes e, com outro, não. O amor é o mesmo: a tonalidade do amor com cada filho e a possibilidade de educar é que tem a ver com a nossa própria história.

Você se via como um pai diferente para o Thiago e para a Luciana?
Cheguei ao Brasil com Luciana com quase 2 anos. Ela nasceu em Buenos Aires e veio com a gente. Eu conseguia frustrá-la. Sempre racionalizei que era porque eu era residente e minha mulher professora. O limite era o dinheiro. Aí venho pro Brasil e nasce o Thiago. E o Thiago me pedia um carrinho e, em vez de dizer que não, eu trazia dois. Quando levei a questão pro analista, ele me perguntou: “Você sabe pra quem compra esse outro carrinho?”. E eu respondi: “Acho que é para mim”.

Você perdeu o Thiago e perder um filho não tem definição…
Não é que não se pode definir, não se pode nomear. A morte de um filho é uma coisa inominável. É aquilo que não se pode dizer, porque você não pode entender, não pode acreditar, não pode aceitar. Ele tinha a vida pela frente, e isso foi fraturado. Não avisei ninguém que tinha morrido meu filho, nem a família da Argentina. Eu não podia falar da morte do meu filho.

Como você sente que essa experiência interferiu na sua vida familiar e profissional?
Essas são as boas contradições da vida. Apesar da perda, do drama, foi um estímulo. O Instituto da Família estava fechado e, assim que ele morreu, decidi retomar os trabalhos. O Centro de Estudos passou a se chamar Thiago Posternak, porque ele trabalhou intensamente na abertura do Instituto. Foi uma homenagem.

E como ficou sua relação com a Luciana?
Com minha filha sempre tive um bom relacionamento, mas, a partir da morte do Thiago, nos tornamos mais confidentes. Essa é outra coisa que a morte do Thiago me ensinou como pai e pediatra. Percebia no ar uma relação muito ruim entre eles, que me preocupava muito. Quando o Thiago morreu, a Luciana me mostrou algo que eu desconhecia: eles, fora de casa, eram muito amigos.

Como médico, também deve ter sido difícil.
Achamos que podemos controlar as coisas. Entendi muitas coisas a partir de uma experiência que não desejo para ninguém. A morte de meu filho me fez entender que, quando morre um paciente, não adianta falar ou fazer: eu tenho de estar perto. A única vez que alguém me falou uma coisa que tinha sentido foi um paciente. Quando me afastei do abraço e vi seu rosto, percebi que era alguém que tinha perdido um filho também.

O dia a dia no consultório ajudou também a superar essa perda?
O trabalho no consultório foi um auxiliar terapêutico muito importante para mim. O fato de esses pais me trazerem os filhos para que eu possa ajudá-los foi uma certa reparação. Me mostra que estou vivo e que sou útil. A clínica me organizou muito. Minha esposa começou a estudar direito já na terceira idade.
Isso manteve para ela a ideia de que o futuro tem outras coisas. Caso contrário, você fica jogado no túmulo de alguém, chorando permanentemente a perda. A elaboração do luto dura um ano. Já é o suficiente. Depois, já se trata de um luto patológico.

A sua mulher lidou com isso da mesma forma que você?
Não. Outra coisa que eu descobri é que não preciso ir muito ao cemitério. Quando preciso do Thiago, ele aparece. Já minha esposa precisa levar uma flor uma vez por semana. Cada um lida de um jeito. Durante um tempo tinha a foto do Thiago por perto, mas a foto dele não me fazia bem. Eu quero o Thiago que está aqui (aponta o coração) e que não tem tanta cara. Ele sumiu? De jeito nenhum. Está muito presente.

Perguntas Pais & Filhos

Família é tudo. Você concorda?
“Tudo” engloba o bom e o ruim que levaremos para sempre na nossa vida. A família é quase sempre sua saúde física ou psíquica, mas, lamentavelmente, pode facilitar o aparecimento de enfermidades. A proposta do Instituto é cuidar da formação e manutenção dos vínculos familiares e prevenir o surgimento de conflitos ou resolvê-los antes que fiquem cristalizados.
 
A infância passa rápido. Como fazer para aproveitar melhor?
O futuro da criança é hoje. Muitas vezes, em função de preparar o filho para um brilhante futuro,  se esquece
de aproveitar o presente.
E um presente bem aproveitado garante o futuro.

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