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Sala de parto humanizado e a história acabou em cesárea

Redação Pais&Filhos

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André Mascarenhas, pai de João, é jornalista.

Sala de parto humanizado, acompanhamento de doula, bebê prestes a sair, até que… Cordão umbilical enrolado. E a história acabou em cesárea. Ou melhor, começou.

O João nasceu às 0h21 do dia 10 de agosto de 2010, o início de uma terça-feira. Lembro-me de poucos dias da minha vida com tamanha riqueza de detalhes. Recordo–me, por exemplo, do tom quase prosaico da voz da Thais quando o celular tocou, o que me fez questionar se aquilo não seria apenas mais uma contração de Braxton, um alarme falso ou algo que, talvez, ainda pudesse ser adiado.
– Amor, vem pra casa porque eu estou em trabalho de parto. Mas vem com calma que está tudo sob controle. – Foram essas palavras que me fizeram duvidar, por alguns segundos, que aquilo estivesse acontecendo de verdade.
– Você tem certeza, Tha? Não é um alarme falso?
– Não. Eu já tomei um Buscopan, banho, fiquei quietinha, mas as contrações continuam vindo; e em intervalos regulares – explicou ela, com a voz ainda mais calma. – Agora é pra valer. Já falei com a Dra. Lu e com a Miriam. – continuou ela, referindo-se, respectivamente, à obstetra e à doula que acompanhariam o parto. Foi aí que a ficha começou a cair. Desliguei o telefone e, por mais alguns longos segundos, fiquei paralisado.
Ao longo dos nove meses de gestação, foram tantas as visitas ao hospital para exames de rotina, que eu tinha todo o percurso, com os atalhos e rotas de fuga, absolutamente claro em minha cabeça. Em meio a contrações fortes o suficiente para fazer a ficha cair de vez, chegamos ao hospital por volta das 8 da noite e menos de três horas após a primeira ligação, minha mulher e eu estávamos na sala de parto.
Claro que, no caminho entre a recepção do pronto-socorro e a sala de parto, percebi que havia esquecido a máquina fotográfica no carro, que já havia sido levado para o estacionamento pelo serviço de valet do hospital. A Thais foi a primeira a me incentivar a buscar o equipamento, embora eu resistisse, temeroso de perder algum detalhe importante. “O João não vai nascer agora”, ela me convenceu. Foi fácil recuperar a máquina. Difícil foi encontrar a sala de parto. Depois de subir alguns andares de elevador, descer outros de escada, perguntar para dois ou três seguranças fui, devidamente paramentado, finalmente encaminhado para a sala de parto.
Ao entrar no quarto reservado pelo hospital para “partos humanizados”, encontrei minha mulher dentro de uma banheira de hidromassagem, relaxando de bruços ao som de música ambiente e poucas luzes. Depois de todas aquelas horas de tensão, senti-me, pela primeira vez na noite, tranquilo para aproveitar aquele momento.
Com a chegada da obstetra, fomos encaminhados para uma outra sala, na qual a Thais tomaria a anestesia e iniciaria os procedimentos para, finalmente, receber o João. As cerca de duas horas entre a anestesia e o início dos esforços para expulsão do João correram bem.
A coisa voltou a ficar um pouco mais tensa por volta das 23h30, quando, apesar da dilatação completa e do esforço descomunal da Thais, era possível ver os cabelinhos do meu filho, mas nada de aparecer a cabeça inteira. Foram umas três ou quatro tentativas até as médicas concluírem que o João estava enrolado no cordão umbilical, o que fazia ele vir e voltar, num movimento em espiral.
Durante o processo de gestação, preocupado com o excesso de conselhos um tanto xiitas sobre o parto normal, procurei me informar sobre os riscos da falta de oxigenação durante o nascimento. Entendo que as sequelas decorrentes desse tipo de problema ocorrem apenas em casos extremos, mas vendo todo o esforço da minha mulher e meu filho literamente enrolado para sair, não tive dúvidas. Pedi para a obstetra que optasse por uma cesariana.
Fomos encaminhados para uma outra sala, uma nova dose de anestesia foi aplicada e, em poucos minutos e a meia luz para não assustar o João em demasia naquele que seria o primeiro “trauma” de sua vida, vi o lindo rosto de meu filho pela primeira vez. Um pouco chocado com toda aquela situação, por alguns instantes tive a impressão de que o João estava desacordado, mas logo ele abriu seus olhinhos e um saudável berreiro! A expressão em seu rosto era uma mistura de estranhamento e emoção profunda. Era como se, mesmo sem conhecer nada desse mundo, ele já soubesse que iniciaria ali a deliciosa aventura de sua vida.

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