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Duda Porto de Souza

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

A escritora Eduarda Porto de Souza, filha do fotógrafo Miro e da modelo Gisela, neta de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, tem 26 anos, mas já está perto de realizar um grande sonho: inaugurar uma biblioteca em que educação e entretenimento são sinônimos – prevista para novembro de 2012 (www.bibliotecainfantil.com.br).

O projeto começou com um e-mail disparado para os amigos. Como retorno, alguns hahaha e uma resposta de Patricia Cardim, do Centro Universitário Belas Artes, de São Paulo, que cedeu espaço. Duda se comprometeu a reunir 22 mil volumes. Já tem mais de 20 mil. Para ela, que tem TOC, é difícil virar páginas. Por isso, sonha poder ajudar crianças com dificuldade de aprendizagem. Essa página a gente aposta que ela consegue virar.

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Por Larissa Purvinni, neta de Domicele, Bruno, Eulina e Nicola

Na escola, na infância, gostava de ler?
Eu tinha muita dificuldade de ler, tenho dificuldade de ler ainda hoje. Eu tenho TOC [Transtorno Obssessivo Compulsivo], então, pra mim, virar a página é muito difícil. Muito, muito, muito difícil. E o livro tem uma coisa muito simbólica e muito forte do contato. Há uma conexão que o livro dá que vai muito além do livro, ainda mais nessa geração internet.

Quando você era criança, alguém lia história para você, você teve esse momento?
Não, não tive e me fez muita falta.

Você diz que um livro que te marcou muito
Foi O Pequeno Príncipe.

Você se lembra quando foi a primeira vez que você leu esse livro?
Nossa, eu tinha 20 e tantos anos. Já era adulta.

Por que mexeu com você ter lido esse livro?
Sou muito, muito, muito fã do Michael Jackson. A ligação dele com personagens como O Pequeno Príncipe e Peter Pan bate muito forte para mim. No livro gosto, acima de tudo, da parte da rosa. Quando vejo a devoção do menino àquela rosa, sinto muitas coisas, bate muito forte no meu coração. Nosso sistema escolar não dá conta dessas questões. Você viu aquele documentário Waiting For Superman (Esperando o Super-Homem)?

Sim, aquele sobre a situação da educação nos Estados Unidos?
É. Não se dá importância para as humanas como se dá para as exatas, porque têm pessoas que não conseguem conciliar os dois pra passar na escola. Tudo é importante. Não dá para descartar nada. Não existe ‘eu não vou precisar disso na minha profissão’, que é uma coisa que a gente precisa muito tirar da conversa.

É a grande conversa da maneira como é ensinado…
Exatamente. Essa rigidez do sistema escolar… TOC, déficit de atenção, dislexia, são doenças das crianças de hoje. Se isso não mudar, e isso é comprovado cientificamente, nós vamos ter várias dessas outras novas doenças.

Você acha que a solução pra isso seria ter uma educação mais gostosa, que focasse menos no desempenho e mais no conhecimento?
É a possibilidade da criatividade. Se a matemática não se encaixa na sua vida, é um problema. É a mesma coisa que estávamos falando em relação ao livro. Vejo crianças de 3, 4 anos que passam horas na internet e não têm tempo para se dedicar a outras formas de conhecimento. Eu acho que o jogo na internet vale tanto quanto, mas a criança tem de ter a noção de que existe o livro, a coisa impressa.

Na escola, na infância, gostava de ler?
Eu tinha muita dificuldade de ler, tenho dificuldade de ler ainda hoje. Eu tenho TOC [Transtorno Obssessivo Compulsivo], então, pra mim, virar a página é muito difícil. Muito, muito, muito difícil. E o livro tem uma coisa muito simbólica e muito forte do contato. Há uma conexão que o livro dá que vai muito além do livro, ainda mais nessa geração internet.

Quando você era criança, alguém lia história para você, você teve esse momento?
Não, não tive e me fez muita falta.

É a grande conversa da maneira como é ensinado…
Exatamente. Essa rigidez do sistema escolar… TOC, déficit de atenção, dislexia, são doenças das crianças de hoje. Se isso não mudar, e isso é comprovado cientificamente, nós vamos ter várias dessas outras novas doenças.

Com os e-books se popularizando também aqui no Brasil, você acha que o interesse pelos livros vai diminuir? Ou uma coisa não substitui a outra?
Trabalho com artes plásticas e, para mim, o impresso tem um valor gigantesco de toque. Acho que, com o boom de e-books, a gente vai ter uma volta das coisas impressas.

Há uma volta desta paixão pela coisa física, de você pegar aquele livro de infância que tem a dedicatória?
Se eu pudesse dar um iPad para cada criança no mundo agora, eu ia amar de paixão. Tem jogos educativos, tem coisas incríveis, acho que o iPad faz parte da história e acho que vai virar peça de museu. E a gente vive neste mundo, virtualmente, definitivamente. Espero que o preço do iPad caia. Temos de tirar bom proveito disso. Mas o iPad não vai matar o livro impresso. Não dá para chegar num iPad quando as pessoas não têm a possibilidade de comer, entendeu?

Como você acha que essa sua iniciativa faz parte disso? Tornar a leitura algo divertido, porque aqui é coisa de vestibular…       
Uma palavra que gosto de usar é "edutenimento".  É muito difícil você pegar um adolescente de 15 ou 16 anos que não pense: “Ai, que saco, mais um dia de escola”.

A Tatiana Belinky diz que criança não gosta de estudar, gosta de aprender…
Todo mundo tem vontade de aprender.

A criança quer saber tudo, e ler responde a, pelo menos, uma parte das perguntas…
Tem um livro chamado The Element, escrito por Ken Robinson, em que ele conta a história de uma menina cujos pais são chamados na escola, porque ela não conseguia se sair bem em matemática, ciências… E ela foi levada ao médico, que disse: “Vou conversar com seus pais, você espera fora da sala”. Estava tocando uma música, e ele olhou para a janela e viu que a menina estava dançando. “Olha, não tem nada que vocês possam fazer a não ser colocar sua filha numa escola de dança”. A menina veio a ser a coreógrafa de musicais como Cats. É uma das mulheres mais importantes da dança hoje. Você tem de celebrar a criança do jeito que ela é. Tem pais e mães querendo mudar a personalidade da criança: “Não quero que meu filho seja homossexual, que seja tímido…”  

E esse projeto I Love You More, com a Forum?
Eles fizeram uma edição especial de camisetas com a frase I Love You More. E várias pessoas, como Luana Piovani e Lulu Santos, toparam posar para fotos. Ninguém perguntou sobre cachê. A ideia era fazer a camiseta e mandar para formadores de opinião. Meu pai é fotógrafo, isso ajuda, e eu comecei a contar para as pessoas. De repente tinha pessoas incríveis ligando, querendo participar. Elas foram fotografadas e virou uma exposição.
 
Na montagem da biblioteca teve alguma referência internacional?
O Victoria and Albert Museum, de Londres, tem exatamente isso: educação e entretenimento. Tem outro, no México, o Papalote Museo Del Niño, com tudo do tamanho da criança e uma sala de cinema 3D que passa uns documentários maravilhosos, com a maior tela da América Latina. E tem fila de crianças a qualquer momento do dia.

Como vai ser o espaço lá na Belas Artes?
Os livros ficam na altura da criança. Claro que a biblioteca pode ser frequentada por pessoas de qualquer idade. Mas todo espaço arquitetônico é pensado para poder atender a criança de 0 a 18 anos. O contrato que assinei com a Belas Artes prevê que eu tenho de ter 22 mil livros, e a equipe deles faz o projeto arquitetônico. Mas o que eu quero realmente é inspirar as pessoas a fazerem coisas parecidas dentro de suas próprias comunidades.

É verdade que a Oprah Winfrey doou livros?
Eu adoro a Oprah. Ela doou livros, sim, mas nem é por causa disso. Eu adoro toda a maneira de pensar dela.

Dentro da biblioteca tem algum espaço de convivência de pais e filhos?
Tem sim, é como uma brinquedoteca, uma livro-brinquedoteca, porque tem livro, CD, DVD, tem a parte de áudio, de revista, de gibis. Tem um espaço que é todo para pintar, e, é claro, tem lugar para o adulto poder sentar, porque banquinho de criança não dá.

Então, todo acervo vai estar disponível para empréstimo ou as obras mais raras só poderão ser vistas lá?
Olha, a minha vontade é que absolutamente todo acervo esteja disponível para empréstimo.

Algum escritor brasileiro te marcou?
Por ter estudado na escola britânica, tive muito pouco contato com a cultura brasileira. Não tenho vergonha de falar que eu não conhecia os livros do meu próprio avô… [o jornalista Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, autor da série Febeapá – Festival de Besteira que Assola o País, escrito durante a ditadura militar]. Sempre vai ter gente para falar mal: "ela tem essa pretensão de fazer essa biblioteca e não conhece os livros do próprio avô". Realmente eu não conheci, mas antes tarde do que nunca.

Você acha é ruim não ter contato com a cultura do país em que você nasceu?
Sim, fez falta pra mim. Eu sou péssima em história do Brasil. E claro é muito rico você poder ter contato com duas culturas. Era muito bom ter o brigadeiro e coisas tipicamente britânicas. Lembro que eu trouxe para a minha mãe uma torta de maçã, bem inglesa. Para mim aquilo é como um livro, uma maneira de eu poder estar conectada com ela. Falar línguas é maravilhoso.

Quais línguas você domina?
Inglês, português, espanhol, francês, italiano e alemão.    

Sobre sua dificuldade de aprendizado, quando você começou a perceber que tinha alguma coisa difícil para você?
Ninguém notou e isso me deixa, não sei a palavra…, com raiva.

Hoje são coisas que as pessoas percebem mais. Antigamente não era assim…
Ah, sem dúvida, mas nem é tanto questão de antigamente. Tenho 26 anos. O pessoal na escola poderia ter me dado uma forcinha, quando eu não conseguia fazer uma redação. Mas eu não culpo ninguém. Espero chamar a atenção para essas questões e poder fazer alguma coisa nesse sentido.

Perguntas Pais e Filhos

Você acha que família é tudo?
Amizade é tudo.

Como os pais fazem pra aproveitar a infância dos filhos, que passa tão rápido?
Sendo eternamente criança

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