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1968 o ano em que a gente começou

Pais & Filhos completa 45 anos junto com a geração que mudou o mundo, acabou com o que era velho e criou movas tradições

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Há alguns dias, o jornal londrino Sunday Times chegou a dizer que o iê-iê-iê, os cabeludos e a minissaia se espalharam pelo mundo e hoje o mais difícil é alguém conseguir se sobressair nessa multidão. Mas o que acontecerá se a minissaia continuar subindo, digamos 5 cm? Há um perigo concreto, pelo menos no Brasil. Se a minissaia muito curta deixar aparecer a peça íntima poderá ser enquadrada no artigo 233, capítulo VI do Código Penal – “do ultraje ao pudor público – praticar ato obsceno em lugar público ou aberto ou exposto ao público”. Segundo a professora Esther Ozon-Monfort, da cadeira de Psicologia Educacional do Curso de Formação de Professores de Ensino Normal da Guanabara e professora de Filosofia do Colégio Pedro 2º, as mães que condenam a minissaia precisam de esclarecimento quanto às necessidades dos jovens, desde a afirmação no grupo até a satisfação e seus impulsos sexuais nascentes.

Leia na íntegra a primeira edição da Pais & Filhos

Esse trecho faz parte da reportagem “Os Riscos da Minissaia”, publicada na Pais & Filhos número 1, que chegou às bancas em setembro de 1968. Revolucionária como o ano em que nasceu, a revista foi a primeira segmentada do Brasil, ou seja, dirigida a um público específico, diferentemente das revistas de interesse geral, como O Cruzeiro ou Realidade e mesmo Veja, lançada no mesmo ano.

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Filha de seu tempo, Pais & Filhos falava abertamente de temas até então tabus, como a sexualidade das crianças e a vida sexual do casal depois dos filhos. Fizeram parte da equipe original da revista Marcia Lobo, que depois se tornaria redatora-chefe de Nova, símbolo da emancipação feminina, e que escreveu, em 2005, Uma História Universal da Fêmea, Moacir Japiassu, romancista autor de Quando Alegre Partiste, que tem como pano de fundo o golpe de 1964. Pais do também jornalista Daniel Japiassu, hoje são avós de Carol, 11, Duda, 9, e Babi, 4. Na época, ainda não eram namorados e não tinham filhos, assim como o restante da redação. 

Solteiros sem filhos

“Seria honesto reconhecer que os solteiros daquela primeira redação aprendemos a cada reportagem que editávamos, embora nenhum de nós tenha tirado de letra a insana lida, quando, mais tarde, formamos família”, conta Moacir. Segundo ele, “a Pais & Filhos ajudou a mostrar que não existia UM jeito certo de educar as crianças”, coisa que faz parte do nosso DNA até hoje.A partir daquele ano emblemático, verdades estabelecidas ruíram e deram lugar a uma nova ordem. A família tradicional, chefiada por um pai cujas palavras eram lei e uma média de 6,3 filhos por casal (hoje são 1,9), jamais seria a mesma. 

“A maioria das mulheres não gosta do emprego nem do salário que recebe. Este pelo menos é o resultado de pesquisas, que divulgaram outro dado importante: apenas 15% trabalham por prazer, enquanto o resto só não fica em casa porque tem de ajudar os pais ou maridos”, afirma a reportagem “Mulher que Trabalha Fora Precisa de Muitas Armas”, publicada na edição da Pais & Filhos de janeiro de 1969.  Ser secretária-executiva é o sonho de quase toda moça que deixa a escola sem profissão. Os anúncios são sedutores: “Estenodatilógrafa, inglês-português, redação própria, organização de arquivos, prática de máquina elétrica, desembaraço, apresentação, serviço de recepcionista, atendimento telefônico etc. Salário em aberto. Inútil apresentar-se sem os requisitos acima.”

Mulher ainda ganha menos

Elas conquistaram o mercado de trabalho, mas o salário das mulheres no Brasil ainda, em 2013, é 28% menor do que dos homens, segundo o IBGE. O rendimento das trabalhadoras com nível superior é 60% do recebido pelos homens com a mesma escolaridade. A geração de 68 teve seus filhos e muitos hoje são avós e avôs. Daquele mundo pré-revolução, deixaram o que era velho para trás: o autoritarismo, o preconceito, a discriminação da mulher, uma moral sexual que aceitava o casamento para toda vida, mesmo que infeliz, e repudiava o divórcio. Nós, filhos dessa geração, que somos pais hoje, provavelmente, só vimos a palavra garçonnière em livros de história. Naqueles tempos, o termo designava o apartamento de um jovem solteiro (mas não necessariamente) usado para encontros amorosos.  

Família ainda é tudo

Do velho mundo, levamos para as próximas gerações valores em que continuamos acreditando: o vínculo entre pai, entre mãe e filho, entre avós e netos, entre irmãos (sejam ou não do mesmo casamento) e também os valores que nortearam a geração de 1968: liberdade para lutar pelos sonhos independentemente se somos homens ou mulheres, maior igualdade entre os sexos, seja na vida profissional ou nos cuidados com a casa e com os filhos, diálogo entre pais e filhos, exercício da sexualidade com naturalidade. Encartado na revista, o suplemento “Só Para Pais”, tratava do tema “Como falar de sexo com as crianças”. Já na introdução, uma boa ideia de como sexo não era palavrão: “Quando seu filho lhe fizer uma pergunta ‘embaraçosa’ você deve ter uma resposta pronta para lhe dar. Educar não é esconder a verdade, que fatalmente será descoberta na rua; é aprender para saber ensinar”.

Velha aos 45

Na mesma edição, uma entrevista com a atriz Tônia Carrero, que completava, então, a idade que a nossa revista completa agora, 45 anos, na época considerada a “idade crítica”, porque, em média aos 46, vinha a menopausa e o fim da capacidade de ter filhos. “Eu não tive problemas ao passar pela idade crítica. Meu trabalho me deu segurança suficiente para superar o problema (…) Por isso luto pela libertação da mulher, o que implica melhores condições de vida para todos, maior campo de trabalho e remuneração justa. Sabe, a independência econômica faz muito bem à pele e à elegância”, disse a atriz. A expectativa de vida nos anos 60 era de 52,4 anos contra 73,5 em 2010. Em um episódio marcante nos anos 60, Tônia fez um escândalo porque não a deixaram entrar com uma amiga no Antonio´s no Leblon, que não era exatamente um lugar conservador, mas point de Rubem Braga, Vinicius de Morais, José Carlos Oliveira e Otto Lara Resende. Hoje é difícil de acreditar, mas mulheres não podiam sentar numa mesa de bar sem a companhia de um homem. 

Desejando o impossível

“Sejamos realistas, exijamos o impossível” era o mote dos jovens que saíam às ruas há 45 anos nos EUA, França, Alemanha, Leste Europeu, México, Brasil. Em comum, o desejo de mudança e a contestação de tudo o que representava autoridade: governo, professores, pais… Essa geração tinha pouco ou nada em comum com a paterna, que havia vivido a Segunda Guerra Mundial, cuja aspiração era basicamente fazer um bom casamento.Nos Estados Unidos, ainda existiam locais que só podiam ser frequentados por brancos. Tanto que, em 1960, quando o então estudante Franklin McCain e outros três amigos negros ousaram se sentar numa lanchonete para brancos na cidade de Greesboro, na Carolina do Norte, e pediram para ser atendidos, foi um escândalo. A afronta às leis de segregação racial mobilizou os EUA e o tornou um ícone da luta pela igualdade de direitos.

“Criticávamos nossos pais por aceitarem o sistema de discriminação e segregação. Em uma dessas conversas, concluíamos que éramos umas fraudes e nos sentimos culpados por isso.””Decidimos agir em um lugar onde as pessoas eram tratadas de acordo com a raça. Nas lojas Woolworth de Nova York, um negro podia comprar qualquer coisa e tomar um lanche no balcão. Na filial do sul, não se podia sentar no restaurante, mesmo depois de fazer compras. Esse era o lugar”, contou McCain ao Estado de S.Paulo em 2012.

Somos todos jovens

“Refrigerante com sabor pra frente. Um jornal que usa como elemento de propaganda o fato dos 41% de seus leitores serem jovens (…) Jovem é a palavra-chave do nosso mundo. Ser jovem agora é condição primordial para ser importante. O poder jovem invade o mundo moderno e torna-se um dado definitivo. No campo feminino, as roupas nunca foram tão avançadas, tão pra frente, tão na onda. A mulher de 30 anos se sente milenar diante das de 25 que usam saia escocesa e meias três- quartos, parecendo que têm 18 anos.”

“A primeira ruga a deixa aflita, o parecer que tem 30 anos realmente fica pior do que ter”, diz a reportagem “Você Ainda Tem 30 anos”, assinada por Sônia Nolasco-Ferreira, que depois se casaria com o polêmico Paulo Francis.

Em 1968, nunca tantos jovens tinham chegado às universidades. A pílula anticoncepcional, apesar de ter sido lançada alguns anos antes, começou a mostrar seu impacto sobre o comportamento nessa época, tanto que cartelas eram exibidas aos jornalistas pelos policiais que invadiram o famoso Congresso da UNE em Ibiúna, no interior de São Paulo, como prova da libertinagem que acontecia entre os estudantes que queriam o fim da ditadura.

É proibido proibir

O que há de único em relação a 1968 é que as pessoas estavam se rebelando a respeito de questões díspares e tinham em comum apenas o desejo de se rebelar, ideias sobre como fazer isso, um sentimento de alienação em relação à ordem estabelecida e um profundo desprezo pelo autoritarismo sob qualquer forma, explica Mark Kurlansky, autor de 1968: O Ano que Abalou o Mundo. Nos EUA, a inspiração vinha em grande parte do movimento pelos direitos civis, que tinha Martin Luther King como uma das principais figuras. Em meio à babel de reivindicações, que abarcava o movimento negro, o feminista e o pelo direito dos homossexuais, uma unanimidade: a oposição à Guerra do Vietnã.

O videotape era uma tecnologia recente, assim como as transmissões via satélite. Pela primeira vez, as notícias da Europa chegavam aos EUA no mesmo dia. Os jovens que protestavam lá podiam ver que outros jovens faziam o mesmo na França ou na Tchecoslováquia. No ano seguinte, o homem pisaria na Lua, e a chegada do astronauta Neil Armstrong ao satélite seria transmitida pela TV, diretamente do espaço. Tudo era possível.

Em cada canto do mundo, a razão para rebelião tinha suas próprias características. Em comum, o desprezo por todo tipo de autoridade. Os mais velhos ficavam um tanto chocados com as mudanças. “Quando você olha para hoje, muitas das conquistas da modernidade foram gestadas ou nasceram em 68. Movimentos como o ecológico, o feminista, o gay, o negro, nasceram em 68 ou adquiriram uma importância muito grande nesse momento. Do ponto de vista do comportamento, o legado de 1968 é inegável”, disse, em entrevista, Zuenir Ventura autor de 1968 – O Ano que Não Terminou e de 1968 – O que Fizemos de Nós, que faz um balanço da revolução.

A culpa é do Dr. Spock

Geração de 68 foi criada com base nos ensinamentos do pediatra

Você pode nunca ter lido o livro Meu Filho, Meu Tesouro, escrito pelo Dr. Spock (não o da série, mas o pediatra norte-americano). Mas muito provavelmente segue várias de suas recomendações. Sua mensagem central era: “Não tenha medo de confiar no bom senso e não leve tão a sério o que dizem seus vizinhos”. Para ele, os pais tinham de confiar na intuição. O livro vendeu mais de 50 milhões de exemplares no mundo todo, em 42 línguas.Além disso, o pediatra defendia que demonstrar amor e carinho era muito mais importante do que tentar disciplinar a criança de maneira rígida. Hoje, tudo o que ele advogava parece óbvio, mas em 1946 não era: abrace seu filho, diga a ele como ele é especial e amado, imponha limites usando palavras, não castigos físicos. Na época, acreditava-se que amar o filho era mimá-lo. E estragá-lo. E, quando os protestos universitários se espalharam pelos EUA, ele foi apontado como um dos culpados. Afinal, os nascidos e criados sob influência e ensinamentos estavam chegando à juventude. Quando a Guerra do Vietnã explodiu, Dr. Spock se pronunciou contra o conflito, ficando ao lado das “crianças rebeldes” que ajudou a criar, tendo sido preso mais de uma vez. Em 1968, ele disse: “Não tem sentido criar crianças se nós vamos queimá-las vivas”. 

Livro: Meu Filho, Meu Tesouro, de Benjamin Spock. Ed. Record.

Você pode fazer parte da nossa história

Durante todo este ano, você vai encontrar reportagens especiais, mostrando o que mudou na família durante esse período, os livros que nossos pais e avós liam e que a gente ainda lê, os hábitos que ainda fazem sentido e os que mudaram completamente.Você tem coleção da Pais & Filhos, um ou vários exemplares anteriores a 2003? No nosso novo site, vamos organizar um arquivo colaborativo. Você envia seu exemplar e nós escaneamos e depois devolvemos. Claro que você pode doar os exemplares para nós, mas não é obrigatório. Sua revista será escaneada e postada no nosso site. Sua foto, nome e perfil será publicado na mesma área. Mande um e-mail para nós, e daremos mais detalhes: revista@revistapaisefilhos.com.br. Você pode nos mandar o arquivo já digitalizado ou pelo Correio. Mande seu nome completo, nome dos seus filhos, além de uma pequena biografia. No caso de querer de volta, coloque seu endereço no envelope. Av. Rebouças, 3181, Jardim Paulistano, CEP 05401-400, São Paulo – SP