Gravidez

Sexo a três

Se o único sentido que a palavra sexo te remete é o do bebê, tem algo errrado

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Algumas décadas já se passaram desde que a revolução feminista mudou o comportamento das mulheres e o sexo ganhou um novo significado. Ele não é mais feito somente para a procriação, e sim por prazer. Portanto, é totalmente natural transar durante a gravidez, mesmo que muita gente ainda tenha medo, estranhe o barrigão ou fique cheio de dúvidas.
Às vezes a falta de diálogo e de intimidade entre o casal acaba transformando o que era para ser mais uma ponte de união em uma espécie de fronteira, que só distancia a mulher e o homem justamente em um momento tão especial, como a chegada de um bebê. Nesta fase, tudo na sua vida vai virar de cabeça para baixo, mudar e adaptar-se a essa nova pessoa na família. Tudo mesmo, até o sexo! Então, aproveite.

Pedras no caminho

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Tanto para os pais quanto para as mães, costuma existir uma preocupação em relação ao bem estar do bebê durante o sexo. É compreensível e faz parte. “Para muitos, é um incômodo o ‘sexo a três’, como já ouvi dizer. Para os homens é um pouco mais dificultoso, porque ele está penetrando e ali está o filho”, diz o psiquiatra e especialista em sexualidade Alexandre Saadeh, filho de Ivone e Rachad. Mas que fique claro: durante a penetração, não há riscos de o pênis machucar o bebê.

Fabiana Diaz, mãe de uma menina de 3 anos e no nono mês da segunda gestação, conta que, depois do sexto mês, o marido passou a não querer mais transar com ela, com medo de que a barriga mexesse e por não se sentir atraído. Acontece mesmo. Muitas vezes, a própria mulher não se sente atraente em razão das mudanças em seu corpo. “O homem faz sexo para ficar bem e a mulher quando está bem”, explica a psicanalista Sandra Teixeira, mãe de Daniel e Gustavo. Outra coisa que dificulta o desejo sexual na mulher são as náuseas e o mal-estar, principalmente nos três primeiros meses de gestação.

A Clarice Porto, mãe de um menino de 4 anos e grávida de quase 20 semanas, conta ter engordado muito rápido no início de ambas as gestações. “Eu ficava muito irritada e nervosa. Queria ficar sozinha no meu mundinho”, conta. De acordo com Sandra, a mulher precisa do olhar amoroso, compreensivo e sem críticas do marido. “Ele precisa enxergar beleza nessa fase”, esclarece Sandra. Além disso, o primeiro trimestre de uma gravidez é recheado de novidades e surpresas, e o medo de uma não-continuidade dela também existe. Tudo isso contribui para a diminuição das atividades sexuais.

No segundo trimestre os desconfortos físicos e as apreensões anteriores diminuem e, então, o sexo melhora, de acordo com a ginecologista e obstetra com especialização em sexologia Stéfane Coutinho, filha de Jarcinete e Newton. É o que está acontecendo com Clarice. “Agora, transamos todos os dias, às vezes, mais de uma vez”, conta ela.

Já no terceiro trimestre, podemos sentir uma queda gradativa do apetite sexual por conta dos desconfortos físicos, das dores e até do tamanho da barriga. “Depois do sétimo mês, o barrigão começa a incomodar e fica até engraçado”, diverte-se Clarice.

Mais desejo
O que não muda durante a gravidez é a vontade das mulheres de receber carinho. E, lembre-se, não é necessário haver penetração em todas as relações. “É comum a grávida ter uma libido acentuada. Isso fica muito intenso e é bom aproveitar, porque depois acontece o oposto. Toda a energia de vida dela vai para o bebê”, explica a psicanalista.

Um pai envolvido com a gestação, com o nascimento e com os cuidados de um recém-nascido vai aceitar e aguentar melhor a falta de libido tão comum no período pós-parto, momento em que ela pode, de novo, ficar com a autoestima lá embaixo e desanimada para o sexo. Independentemente de seu desejo sexual ter aumentado ou diminuído na gestação, o que não pode faltar é o velho diálogo com o parceiro.

“A conversa é fundamental para que a gente não se sinta rejeitada. Eu não me senti, pois a gente conversava muito e eu respeitei isso nele”, conta Fabiana. O que não pode é haver pressão por parte da mulher que está com o desejo aceso ou do marido que está sofrendo com a falta de libido da companheira. Após o nascimento e de acordo com o crescimento do bebê, durante o primeiro ano de vida, é o homem quem vai fazer os cortes iniciais na ligação simbiótica entre mãe e filho.

De acordo com a psicanalista, é ele quem a ajuda, com paciência e amor, a se desligar desta dependência e, gradualmente, voltar a ter uma vida sexual próxima da que o casal tinha antes da gravidez. “É bom aproveitar para renovar esses laços de intimidade, sem medo e constrangimentos. Depois que o bebê nasce, demora pra gente pegar no tranco. Quando volta é muito melhor que antes, mas até chegar nisso, vai um bom tempo”, diz Mariana Corsi, mãe de Giovana e grávida de Gustavo.

Se o seu desejo sexual diminui, não se preocupe. Observe e reflita sobre aquilo que está acontecendo com você, que é passageiro. Não deixe de estar aberta a uma brincadeira que pode ser prazerosa.

Tá liberado
Somente o obstetra que acompanha a gestante no pré-natal pode dizer se a mulher não pode ter relações sexuais nesta fase. Em algumas situações, o repouso  e a abstinência sexual são importantes.
Se seu médico não citou nenhuma contraindicação, saiba que apenas o sexo anal não é indicado na gravidez. “Muitas vezes, as grávidas têm dificuldade para evacuar e hemorróidas. Portanto, não é confortável para elas”, explica Alexandre. Já o sexo oral e a masturbação, são muito bem-vindos. Segundo Alexandre, não existem problemas em estimular a região da entrada vaginal.

As gestantes que estão em um relacionamento estável com seus parceiros costumam não usar preservativo, por não se preocuparem com a concepção. “Devemos sempre lembrar que a camisinha é importante em todas as relações sexuais, para proteção de doenças sexualmente transmissíveis”, preconiza a ginecologista Stéfane Coutinho.

As posições
É claro que dependendo da fase da gestação, algumas posições não são muito confortáveis. É mais agradável para a grávida estar por cima, pois ela tem controle durante a penetração. A posição “de quatro” é prazerosa para ambos os sexos e é bastante indicada para grávidas do primeiro e segundo trimestre.

Já para o fim da gravidez, as relações sexuais precisam ser menos intensas. Os orgasmos podem causar dores como se fossem contrações e acabar acelerando o trabalho de parto. “Converse com seu obstetra para saber até quando você e seu marido podem manter as relações”, alerta o psiquiatra. Nestes casos, o tradicional ‘papai e mamãe’ é o mais aconselhado. Outra opção é a gestante de costas para o homem, de lado.

Claro que vocês vão achar a posição que mais agrada aos dois sem incomodar o barrigão. O importante é manter o seu lado mulher, mesmo depois que descobrir o lado mãe.

O meu sangue  ferve por você
Para a manutenção da gestação é imprescindível a presença do hormônio progesterona, que reduz a quantidade de outro hormônio, a testosterona, que aumenta o apetite e as fantasiats sexuais. Porém, a progesterona acaba por incitar outros hormônios que têm relação com o sexo, como a dopamina e a ocitocina.Quem também sofre alterações por causa da progesterona são os feromônios, os famosos odores sexuais. Isso diminui a probabilidade de atração sexual.

Consultoria
Alexandre Saadeh, filho de Ivone e Rachad, é psiquiatra e especialista em sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de Faculdade de Medicina de São Paulo e coordenador do Ambulatório de Transtorno de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (AMTIGOS). Sandra Teixeira, mãe de Daniel e Gustavo, é psicanalista, tel.: (21) 2556-3319. Stéfane Coutinho, filha de Jarcinete e Newton, é ginecologista e obstetra especializada em sexologia do Hospital e Maternidade São Cristóvão.