Gravidez

“Não é só o bebê prematuro que sofre”: mães das UTIs neonatais também precisam de acolhimento

A gravidez de risco pode afetar a saúde da mãe, assim como a de todos que estão ao redor do bebê - Getty Images
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Publicado em 21/11/2022, às 08h29 - Atualizado em 29/11/2022, às 06h15 por Giovanna Machado,


Das inúmeras preocupações que chegam com a gravidez, são poucas as mães que pensam na possibilidade de o filho nascer prematuro. Mas esta é uma realidade de muitas famílias. Prematuro é todo o bebê que nasce com menos de 37 semanas de gestação. Segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 300 mil bebês nascem de forma prematura todos os anos no país, que ocupa o 10º lugar no ranking mundial dos que mais registram nascimentos precoces.

A gravidez de risco pode afetar a saúde da mãe, assim como a de todos que estão ao redor do bebê (Foto: Getty Images)

De acordo com Aline Hennemann, enfermeira e Vice-Diretora Executiva da ONG Prematuridade.com, núcleo dedicado a oferecer acolhimento para todos que passam pela experiência, o nascimento prematuro é a principal causa de mortalidade infantil até 5 anos de idade em todo o mundo.

A profissional frisa a importância da construção de uma rede de apoio efetiva, que inclua a família e os profissionais da saúde, na situação de prematuridade. Auxiliar a crise emocional que os pais atravessam é de extrema importância para que eles se fortaleçam e possam cuidar do bebê de forma positiva e eficaz. “Precisamos pensar sempre na questão do acolhimento. Além de acolher, vincular essa família, para que ela possa se sentir parte do processo do cuidado do bebê prematuro na UTI neonatal. Eles não podem ser deixados à parte”, defende Aline. 

“Nós pensamos muito na rede de apoio, para que ela possa cuidar daquele bebê em situação de vulnerabilidade. Não é só o bebê que sofre. A mãe sente, o pai também, então é muito importante que eles sejam bem cuidados, para que possam cuidar da suas crianças”, reforça a voluntária da ONG.

“Amor e medo andavam de mãos dadas”

Thays Vallias, mãe de gêmeas prematuras 

No início da gestação, Thays Vallias, de 42 anos, na época com 35, ficou feliz com a notícia que recebeu: estava grávida de gêmeas! Bárbara e Lavínia foram frutos de uma fertilização in vitro. Para quem sofreu para engravidar, a inesperada surpresa em dose dupla resultou em um misto de euforia e apreensão. 

A mãe, já com 22 semanas, descobriu durante um ultrassommorfológico – exame de imagem detalhado, responsável por avaliar a gestação – que o seu colo do útero estava com 3 milímetros, quando o ideal eram 3 centímetros. Para complicar ainda mais, Thays soube que sofria de insuficiência istmocervical, quando a mulher corre o risco de sofrer um aborto tardio ou de ter um parto prematuro. Com muito repouso, acompanhamento médico e dedicação, ela conseguiu segurar as gêmeas por mais 3 semanas. 

Com  25 semanas e 5 dias as meninas nasceram. Bárbara pesava 920 gramas e Lavínia 905 gramas, ambas com 33 centímetros. Horas depois do nascimento, uma das gêmeas teve uma parada cardíaca e não resistiu. “Ela se transformou na nossa Florzinha eternizada no Jardim do Céu. É o motivo de nossa saudade. Bárbara, após 89 dias de UTI Neonatal, e diversas intercorrências, finalmente foi para casa. É nosso Docinho de Pimenta, razão dos nossos sorrisos”, conta a mãe emocionada ao lembrar do ocorrido. 

Thays Vallias, mãe de Bárbara (Foto: Instagram/@thaysvallias e Arquivo Pessoal)

Thays relata que sua experiência na UTI neonatal foi como uma verdadeira montanha russa de emoções. “Eu não sabia quanto tempo eu teria ao lado de Bárbara. Claro que houve momentos de desespero, angústia, mas o amor era maior. Os dias se passavam, o amor e medo andavam de mãos dadas, mas ver aquele serzinho tão ‘pitiquinho’ lutando a cada segundo para viver reduzia tudo ao nosso redor”, afirma ela.  

De acordo com a Dra. Daniela Fiorenzano, coordenadora da UTI neonatal da Maternidade São Luiz Star, a notícia de que o bebê vai ser acompanhado na unidade de terapia intensiva é muito dolorosa para os pais, pois o cenário que eles imaginam é sempre hostil e amedrontador.

“Existe uma grande preocupação por parte da equipe médica e multidisciplinar para tornar a permanência da família no hospital menos angustiante. Além de oferecermos ajuda de psicólogos, escutamos ativamente, sanamos as dúvidas de forma transparente e tentamos agir com bastante empatia. Procuramos cultivar essas habilidades pois sabemos que tranquilizam os pais”,  conclui.

Para as mães que estão passando por esse momento com os filhos na UTI Neonatal, Thays deixa sua mensagem: “Permita-se chorar e viver o seu medo, mas principalmente permita-se amar seu filho. Leia histórias, cante músicas, fale sobre você e sua família. As horas dentro de uma UTI Neonatal são infinitas. O fato é que você não sabe quanto tempo terá ao lado dele, então aproveite cada instante!”.

Toque acolhedor

Maayara, mãe de Rafaela

Maayara também viveu o medo e a apreensão de acompanhar um filho prematuro na UTI. A filha, Rafaela, nasceu com 25 semanas de gestação, chegando a pesar 745 gramas. A mãe conta que foi um susto muito grande, pois não esperava que isso poderia acontecer. “Senti muito medo de perder minha menina, ele tomou conta de mim nos primeiros instantes. Nunca tinha vivido isso, ter um filho prematuro, para mim era tudo novo, assustador!”. 

A mãe relembra a felicidade de contar cada grama que a filha ganhava na incubadorapois, mesmo pouco, era uma vitória. Lembrou também do apoio da família. “Estiveram ao meu lado em todo esse processo e me deram todo auxílio que eu precisava naquele momento”, afirma Maayara.

Maayara, mãe de Rafaela (Foto: Arquivo Pessoal)

“Cada dia que passava eu via ela lutando cada vez mais, e me mostrando a guerreira que era. Ela era tão pequenininha e tão forte!”. A bebê passou 76 dias internada e a mãe a acompanhou em tempo integral. 

De acordo com Romy Zacharias, coordenadora médica da Neonatologia do Hospital Albert Einstein, esse contato dos pais com o bebê é fundamental. “A gente estimula muito o contato pele a pele. Se o bebê não puder sair da incubadora a gente estimula os pais através do toque acolhedor. E a participação em todo esse cuidado é muito rica não só para eles, mas para a criação do vínculo com a criança”. 

Um ano após o nascimento de Rafaela, Maayara ressignificou esse momento difícil. “A mensagem que eu deixo para as mamães que estão passando por isso tudo é: sejam fortes e tenham muita fé”, finaliza.


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