Gravidez

Mãe no plural

na segunda gravidez, é comum rolar um medo de não amar tanto o segundo filho quanto o primeiro. Mas, calma o vínculo vai se formar, sim.

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Ter um segundo filho é entrar novamente em um território desconhecido. A lógica diz que tudo se passará de forma mais tranquila. Sim, muitas das dúvidas e ansiedades que tínhamos na primeira gravidez acabam mesmo ficando para trás. Ainda assim, uma gestação nunca é igual a outra. O filho também não será como o primeiro, claro. E agora já estamos em outra fase, com outras experiências… A segunda gravidez traz dilemas, desafios e sentimentos únicos. Se você está passando por isso, já sabe. Se planeja ser mãe ou pai mais uma vez, prepare-se para começar uma jornada completamente nova.

Juliana Bastos, mãe de Luca e Vitória, sempre quis ter dois filhos. A segunda gravidez foi planejada e mais do que desejada. Ainda assim, a caminho da maternidade para dar à luz Vitória, Juliana não conseguia controlar o choro, pensando no sofrimento do primogênito. “Meu coração estava apertado porque eu tinha em casa uma criança de 2 anos e meio que dependia muito de mim. Eu me cobrava porque sabia que não poderia mais me dedicar 100% a ele. Também tinha medo de como ele ia reagir”, lembra.

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O sentimento de estar traindo o primeiro filho é comum com a notícia da segunda gravidez – ou até meses depois do nascimento do segundo bebê. “A dificuldade em dividir a pessoa amada é comum a todos nós, e a mãe acaba sensibilizada pelo sofrimento do primeiro filho. Ela vive como se tivesse prometido a ele que jamais amaria outro e sente culpa por não conseguir evitar a dor, o ciúme, a frustração e a tristeza que a criança sente”, afirma a psicanalista Eliana Caligiuri, mãe de Julio Cesar e Juliana.

Embora a chegada do irmão represente um sofrimento para o primogênito, faz bem para a criança, pois acaba com a ilusão de que os pais vivem exclusivamente para ela – algo que terá de aprender mais cedo ou mais tarde. Cabe a nós renunciar ao ideal de dar ao primeiro filho apenas experiências de prazer e satisfação: dor, frustração e ciúmes são parte da vida. “Se a mãe ficar prisioneira desse ideal, ela não poderá experimentar e observar a riqueza da vivência de ter um outro filho”, diz Eliana.Felizmente, Juliana percebeu isso ainda na maternidade, ao ver a primeira reação de Luca.

Ele sorriu e fez sinal de positivo. Percebi como fui boba por criar essas preocupações na minha cabeça. Claro que o ciúme existe, mas o carinho que um tem pelo outro é a coisa mais linda do mundo. Não dá para dar atenção 100% para nenhum deles, mas não é nada impossível ser mãe de dois”, conta.

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Explode coração

Saber se conseguirá amar o segundo filho tanto quanto ama o primeiro é outra dúvida comum entre quem se prepara para ser mãe novamente. Para Aice Regina Pierotti, mãe de Dante e Dora, mais do que uma dúvida, durante a gravidez ela tinha uma certeza: o primogênito seria seu preferido. “Eu pensava que não seria capaz de amar tanto a Dora quanto o Dante, porque já era um amor tão grande. Não dava para acreditar que era possível amar mais alguém da mesma forma”, lembra.

A dúvida ou sentimento de “preferência” acaba sendo reforçado pelas diferenças que normalmente ocorrem entre a primeira e a segunda gestação. “Quando você fica grávida pela primeira vez, aquilo é a coisa mais importante da sua vida. Mas no segundo filho, a gravidez não é mais prioridade porque você já tem um amor muito grande pela primeira criança”, explica Aice. No caso dela, porém, a suposta preferência se mostrou irreal logo nas primeiras semanas de vida da caçula. “Agora vejo como eu estava errada. Amo imensamente os dois; ela tem só dois meses e já não consigo ver minha vida sem ela”, afirma.

Segundo a psicanalista e coordenadora do Instituto Gerar, Vera Iaconelli, mãe de Gabriela e Mariana, sentimentos como esses são comuns porque os pais não se lembram que mesmo a relação com o filho mais velho não veio pronta, que ela foi construída com o tempo. “Quando o primeiro nasce, ele também é um “estranho” para os pais. Mas na hora da chegada do segundo filho, essa primeira etapa já foi vencida com o mais velho, a relação já está bem desenvolvida, íntima”, explica. A comparação com momentos diferentes pode trazer a insegurança.

Da mesma forma que o ciúme entre os irmãos não pode ser negado, as emoções da mãe e do pai devem ser encaradas de forma natural. Só é preciso manter o coração aberto para aprender com a nova situação, sem se cobrar demais, e procurar reconhecer o potencial de enriquecimento que a vinda de mais um filho traz para as relações de toda a família.

Os pais também amam

Os dramas e inseguranças que surgem com a chegada do segundo filho não atingem exclusivamente as mães. Embora num primeiro momento eles fiquem mais focados em questões práticas, muitos pais também vivem aflições emocionais. “Às vezes acontece de o pai se solidarizar com o ciúme que o mais velho sente – afinal ele perde a esposa para o bebê – e acabar se aproximando mais desse filho”, explica Vera. E isso é ótimo! O pai deve aproveitar para mostrar ao primogênito as vantagens de ser maior e sair só com ele. Enquanto isso, libera a mãe para cuidar do recém-nascido.

Felipe Souza, pai de João e Ana Paula, sabe bem o que é essa experiência. “Nem costumo falar isso porque soa mal… mas a verdade é que quando a Ana Paula chegou, aquele bebezinho que só mamava e chorava não significava muito para mim”, confessa. Por isso, nas primeiras semanas, se dedicou mesmo a “entreter” o João. Felipe, no entanto, nunca teve dúvidas de que também aprenderia a amar a filha. “Para mim, estabeler o vínculo é um processo. Lembro que foi assim no nascimento do João”, afirma. E é mesmo. É só fazer esse exercício de lembrar da primeira gravidez. Já já, você esquece tudo de novo.

Ciúmes entre irmãos

Sim, o ciúme e alguma dose de sofrimento para o mais velho são inevitáveis. Mas nós podemos fazer a nossa parte para tornar a relação entre os irmãos a mais harmônica possível. Esse trabalho deve começar ainda durante a gravidez.

“A mãe pode ir aproximando os dois com brincadeiras entre os irmãos dentro e fora da barriga, como cantar uma música, ler um poema. Quando o bebê mexer, chame o irmão para sentir”, sugere a psicóloga perinatal Rafaela Shiavo, filha de Maximina e José Luiz.

Outra conduta importante é ajudar o mais velho a nomear o ciúme e a raiva que estiver sentindo. “É comum a criança dizer que detesta o irmão, que quer devolvê-lo para a maternidade. Os pais devem dizer ‘ok, você está triste, está com ciúme’ e nunca inibir essa expressão. O que deve ser controlado são apenas as manifestações violentas”, aconselha a psicanalista Vera Iaconelli.

Filhos únicos

Filha única, Maíra de Azevedo Pompeu, mãe de Cora e Laura, sempre quis ter dois filhos. Mas do ponto de vista emocional, ficar grávida de Laura foi um “salto no escuro”.

“Não sabia como me sentiria sendo mãe de duas crianças, porque venho de uma família em que não existiu essa situação”.

Segundo a psicanalista Eliana Caligiuri, filhos únicos de fato têm menos referências para lidar com isso. “Nos casos de a mãe ser primeira filha, ela terá de lidar com sentimentos e conflitos que viveu com seus pais, muitos deles inconscientes, atualizados na relação com seus filhos”, explica Eliana.

 

Consultoria

Eliana Caligiuri, mãe de Julio Cesar e Juliana, é psicanalista. Rafaela Shiavo, filha de Maximina e José Luiz, é psicóloga perinatal. Vera Iaconelli, mãe de Gabriela e Mariana, é psicanalista, coordenadora do Instituto Gerar (institutogerar.com.br).