Família

Questão de escolha: um Natal felizardo

Natal é mais que presente, é um dia de trocar coisas boas com que a gente gosta

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

25/12/2012

Por Ângela-Lago, escritora e ilustradora

Quem me compra um jardim com flores?”, pergunta Cecília Meireles, no seu livro de poemas para crianças Isto ou Aquilo. “Quem me compra este caracol? /Quem me compra um raio de sol? (…) /E o grilinho dentro do chão? /Este é meu leilão!”

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Cecília Meireles leiloa o melhor dos mundos. Mas, para possuí-lo, é preciso ter em mãos moedas valiosas: poesia, simplicidade, olhos, poros e ouvidos abertos, gosto pela vida. Outras moedas não sabem comprá-lo.

O jardim de Cecília Meireles talvez fique à parte do mundo do consumo. O filósofo e político francês Luc Ferry, ao discursar na cidade do Porto no início deste ano, alertou-nos sobre a diferença entre o consumo e a fruição. Em sua fala, disponível no youtube, aponta que o bom consumidor é uma espécie de viciado, levado a consumir cada dia mais e impedido, com isso, de usufruir plenamente de sua vida. O filósofo nos lembra que trocamos o celular por outro mais colorido, embora o novo não facilite a conversa.
O consumo tem leis que nem sempre refletem as nossas verdadeiras necessidades. E cada vez mais ele se impõe a nós, para garantir um “progresso” acelerado. Afinal, o comércio tem a estabilidade de uma bicicleta. E hoje não basta andar, há que correr para continuar de pé.
O que acontecerá se dermos ao nosso João Felizardo interno a chance de fazer escolhas mais genuínas e desdenhar as escolhas previsíveis do consumo? Poderíamos, então, fazer como ele: trocar o pesado pelo leve, a velocidade pela vagareza. 
Imaginem fazer isso em pleno Natal, com a cidade febril e a droga da droga do consumo nos tentando? Devagar, nos diremos. De-va-gar. Menos. Que tal não marcar encontros e desencontros apressados e barulhentos com os amigos e inimigos ocultos e aparecidos? Que tal não comprar às pressas entre empurrões e filas? Que tal não engolir sem mastigar o açúcar sentimental das músicas e  filmes especiais da época? Que tal anunciarmos aos quatro ventos: o Natal não é obrigatório. Ou ainda: o Natal não dura um mês. Só uma noite.
Você que me lê já deve estar desconfiado de que sou mais um personagem do tipo que Charles Dickens desenhou com o Scrooge.  Que detesto o Natal e que preciso ser redimida com urgência.
Nada disso. Bem que eu queria que este Natal fosse no último andar. Num lugar especial, como o jardim leiloado. É também Cecília Meireles quem o canta no mesmo Isto ou Aquilo: “No último andar é mais bonito. /Do último andar se vê o mar. /É lá que eu quero morar. /O último andar é muito longe. /Custa-se muito a chegar. /Mas é lá que eu quero morar.” 

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