Família

Pela estrada afora

Marcelo, Gabi e Enrique, de 3 anos, se jogaram numa aventura: uma viagem de motorhome pelos Estados Unidos.

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Imagine e acena: você, o amor da sua vida e o seu filho… No meio do deserto, repleto de cânions, sem qualquer sinal de vida humana ao lado. A hospedagem? Um carro (ou, como diz meu filho, Enrique, de 3 anos: um carro-casa). Gostou da paisagem? Desligue o motor e passe o tempo que quiser! Pegue as coisas na geladeira e faça o seu piquenique. Assim foram os meus dias no mês que passamos nos Estados Unidos, em nossa grande viagem de motorhome.

Motorhome é uma espécie de trailer. Um carro, tipo um furgão, mas com toda a estrutura de uma casinha. Adecisão da viagem surgiu porque queríamos uma coisa diferente, que saísse daquela lógica de praia, resort com criança, hotel-fazenda.

Foram 28 dias, 4 mil quilômetros, muitas risadas, pôr do sol, luas incríveis e lindas histórias para as nossas vidas.

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FECHAR

Fechamos o aluguel do nosso motorhome com uma agência de viagens. Saímos de São Paulo e voamos até São Francisco de avião. Viagem longa. Ficamos lá por dois dias.

Antes de pegar o motothome, é necessário assistir a um vídeo explicativo que ensina coisas do tipo: esvaziar o esgoto do carro e conectar energia à bateria. Muito útil!

As crianças piram quando entram num carro desses. Os olhos do meu filho brilhavam quando ele entendeu a engenharia do veículo e concretizou que, realmente, era possível existir um carro-casa!

Descemos a Califórnia ao longo de três dias, pela costa. A estrada, estreita, dava emoção extra. Era tudo tão lindo, tão novo! Uma sensação de liberdade. Tinha de parar toda hora para tirar foto, olhar com mais calma a paisagem. Descíamos do motorhome e nos abraçávamos de alegria!

Passar pelas grandes cidades com um carrão desses não é legal! Nem um pouco. Então, não paramos em Los Angeles e seguimos direto pela estrada rumo ao Grand Canyon. Até lá, foram mais três dias de paisagens lunares, com noites absolutamente estreladas. Era inverno. À noite, a temperatura chegava aos 3 graus, mas durante o dia, os termômetros marcavam 15.

Preferia dirigir de dia. O Enrique ficava brincando lá atrás, assistindo a paisagem pela janela. Foi assim que avistou, pela primeira vez na vida, “um branquinho na terra”. Alguns dos lugares por que passamos estavam cobertos de neve, e pudemos brincar de fazer bonecos, de guerra de bolas de neve e de desenhos pelo chão.

Parávamos para comer em qualquer lugar gostoso, com uma vista boa. Armávamos a nossa cesta, cheia de comidinhas deliciosas, e ficávamos conversando e fazendo planos para as nossas vidas. Essa viagem te convida a cultivar um convívio com as pessoas.

Olhos nos olhos, toques, mãos dadas, conversas mais tranquilas, risadas… Os momentos das refeições eram deliciosos! Do café da manhã, com aquela fumacinha saindo xícara quente, contemplando a vista de uma gigantesca montanha, ao jantar, com as luzes apagadas, só a lua nos iluminando e os olhares se cruzando nas estrelas.

Eu sempre sonhei em visitar essa região do Grand Canyon, e nunca esperava dormir lá! Foi sensacional a experiência. Os olhos se perdem no emaranhado de recortes na terra. Até o Enrique, com toda a sua empolgação a cada vez que parávamos, silenciou quando viu o buraco na terra. Durou pouco, mas foi intenso.

Fizemos um roteiro antes de sair de São Paulo, não o seguimos. Porque não é você que escolhe as cidades, elas que te escolhem! Passamos o Natal no deserto. No Monument Valley: lugar mágico, daqueles anúncios de televisão, de filmes de cowboy! Estávamos sozinhos lá. Lavamos nossas roupas na lavanaderia do camping, já tínhamos comprado mantimentos e fizemos uma linda ceia. Os três! Sós e acompanhados de cada ponto luminoso do céu. Escrevemos uma carta ao Papai Noel e a deixamos fora do motorhome. Lógico que preparamos tudo para o dia seguinte. O Enrique acordo e, quando saímos do carro, lá estavam seus presentes. Foi lindo ver a carinha dele!

Na época do ano em que fomos, os campings ficam vazios. Já no verão, entre junho e setembro, há muitos! Ao chegar no camping, você pega um papel explicativo que diz qual é o lugar em que deve ficar e deixa o dinheiro numa caixa. Só. Dormimos num incrível em Lake Powell. Nosso motorhome, o lago e o breu. Não havia luz em nenhum lugar. Essa sensação é transformadora!

No fim, foi difícil deixar aquele carro-casa na loja. Saímos em silêncio, com um aperto no coração. A cada milha rodada, você sente como se a vida estivesse passando embaixo dos seus pés. Você caminha para frente e não quer chegar a lugar algum. Só quer continuar sonhando até a próxima parada. Aquela sensação de que o que você mais precisa na vida é do amor e das pessoas que ama é capaz de nos inspirar. A conexão com a natureza é capaz de nos reconectar com o simples da vida, com aquilo de que realmente precisamos.

Pude ver o meu filho crescer. Orgulhoso, compartilhei meus sonhos com ele. Ele pôde presenciar a parceria de vida que tenho com a minha esposa, a Gabi. Nós pudemos nos apoiar na simplicidade. Nós nos amamos profundamente entre desertos, estrelas, luares e entardeceres.

Os desafios de viajar de motorhome

Comer

Para mim, foram os momentos mais gostosos! Parávamos nos supermercados perto das cidades. Há um, chamado The Whole Foods Makert, especializado em integrais, incrível! Comprávamos verduras, saladas, peixes, arroz, frutas e fazíamos verdadeiros banquetes! O motorhome tem armários por todos os lados e geladeira grande. Dá para fazer uma compra e passar quatro dias bem. Tem de ligar o exaustor e deixar a porta aberta se você não quer ficar cheirando a comida.

Tomar banho

Nós optamos tomar banho sempre nos banheiros dos campings. Mais confortáveis e quentinhos! Alguns cobram.

Dormir

O motorhome que alugamos comportava cinco pessoas. Apertadas, mas cabiam. Para três, é ótimo! Há bastante espaço para espalhar as malas, as comidas, os brinquedos… As camas são super gostosas e você pode alugar com a agência do motorhome as roupas de cama, além do jogo completo de cozinha.

Campings

Todas as cidades americanas, pelo menos nas regiões onde estivemos, têm uma baita estrutura para motorhome. Você pode dormir nos parques ou em campings particulares. Eles oferecem internet, banheiros ultralimpos e sistema de captação de esgoto e fornecimento de água, além de eletricidde para os eu carro. Existem diversos aplicativos que localizam o camping mais próximo e te ajudam a reservar (no verão isso é essencial) o seu espaço.

Estradas

As estradas são ótimas! Existe uma faixa exclusiva para veículos mais lentos e pesados. São sempre sinalizadas e têm estrutura de serviços a cada 30km.

É bom saber:

  • Compre um carrinho para levar seu filho. Ajuda demais! Compramos um por US$14.
  • Leve todos os remédios que seu pediatra sugerir.
  • Compre um produto de limpeza e um rodinho para limpar o chão. É útil demais!
  • Se for estacionar o carrão dentro de uma cidade, converse com os moradores da rua. Ele é grande e atrapalha.
  • Conheça os principais campings particulares antes de ir. Fique nos públicos, mas tenha os particulares como alternativa. Nós ficamos na rede KOA (koa.com).
  • Tenha sempre moedas de 25 cents. Para lavar roupa nos campings, e tomar banho em alguns deles, são necessários2 dólares em moedas desse tipo.
  • Os motorhomes não têm GPS. Portanto, leve mapas ou compre um.
  • Tenha dinheiro em espécie para gorjetas e compras menores. Leve cartão de crédito para emergências. E leve cartão pré-pago para todo o resto!
  • Compre, em qualquer loja dos Estados Unidos, o chip pré-pago de seu celular.
  • O aluguel desse motorhome custou cerca de US$1500 por duas semanas, incluindo imposto, seguro, kits de roupa de cama e de cozinha.