Família

Devagar e sempre

Nossos especialistas explicam por que, às vezes, o menos pode ser mais

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

30/12/2012

Por Doug Most/Tradução Sofia Benini, filha de Maria Paula e Nery

Meio atordoada, pensou em pedir pra filha pensar melhor, dizer que ela poderia se arrepender de desistir da ginástica, depois de cinco anos de aulas e horas e horas (e horas) de treino. “Mas a criança sabe o que é melhor pra ela, a gente é que tem de parar e ouvir”, concluiu. “Minha filha sabe de seus limites. Foi um grande aprendizado para mim”. 

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“O conceito de 'superpais' está em declínio”, diz Carl Honoré, autor de Sob Pressão – Criança Nenhuma Merece Superpais, livro que está ajudando a popularizar a filosofia do “slow parenting”, movimento criado por ele. Sabe aquele lance de slow food em oposição a fast food? É por aí. Saborear a vida com os filhos em vez de transformá-la numa corrida. “Acho que o pêndulo, agora, está indo para o outro lado. Mais e mais famílias estão dando uma freada, voltando atrás e parando de tratar a criança como se ela estivesse numa olimpíada.”
Baixando a bola
Depois do “fique rico” dos anos 90 e do “passe 24 horas por dia e 7 dias por semana online” do novo milênio, a fase do “desacelere” está emergindo como uma nova tendência mundial. O movimento ainda é mais famoso quando se trata de alimentação, já que cada vez mais famílias estão substituindo os fast foods e as comidas prontas por alimentos orgânicos, preparados em casa, com ingredientes frescos e naturais. 
Pegar leve na criação dos filhos é outra manifestação da mesma filosofia. Apesar de não haver ainda estatísticas que provem essa prevalência, vários indicadores mostram que os pais querem abraçar um estilo e vida em família menos frenético. Pesquisa feita nos EUA pela revista Parents, em parceria com a empresa Synovate Inc., concluiu que metade das mães considerava a opção “ter um tempo de qualidade com os filhos” como principal prioridade. E mais de dois terços dos entrevistados concordaram que as crianças de hoje estão sobrecarregadas e que eles gostariam de incentivá-las a “parar por um momento e sentir o aroma de uma rosa”. Ou pra catar jabuticaba no pé, traduzindo para a realidade brasileira. 
Revendo os hábitos
Lá fora, a freada na economia foi um dos grandes motivos pelos quais tanta gente começou a priorizar aspectos imateriais da vida. Mas há outros fatores também: vários especialistas dizem que, depois da era da mãe superprotetora e dos filhos com agenda de executivo, os pais estão optando, conscientemente, por dar uma diminuída no ritmo. Lenora Skenazy, autora de Free-Range Kids: Giving Our Children the Freedom We Had Without Going Nuts With You (crianças livres: como dar a nossos filhos a liberdade que tivemos sem enlouquecer), acredita que se trata de uma reação ao fato de que todos nós exageramos ao tentar proteger nossos filhos dos trancos e barrancos do dia a dia.
Desnecessário 
Outros pontos também precipitam esse ritmo insano na vida de uma criança. A epidemia de obesidade, por exemplo, pode ser atribuída, em parte, ao fato de elas passarem muito tempo em cursos e aulas e pouco se interessarem por atividades físicas. Além disso, essa busca excessiva por desenvolver as habilidades da criança tem um custo alto. Segundo artigo publicado pela Alliance for Childhood, instituição americana de pesquisa sem fins lucrativos, provas e tarefas não são suficientes pra dizer se uma criança terá sucesso no futuro nem melhoram seu aproveitamento na escola. E o pior: tanta tarefa acaba tirando da criança aquilo que ela realmente precisa pra se desenvolver: a brincadeira. “Brincar não é algo fútil. É a necessidade básica de uma criança”, diz um dos autores do artigo. Como dizia a educadora italiana Maria Montessori (1870-1952), brincar é o trabalho da criança. 
 
Não existe fórmula mágica para transformar a rotina maluca em outra descontraída, mais relaxada. Mas defensores da filosofia do “slow parenting” têm várias sugestões pra que a gente dê uma maneirada. “Os pais precisam dar aos filhos tempo e espaço para explorarem o mundo do jeito que eles quiserem”, diz Carl Honoré. “Mantenha o nível de atividade da família sob controle e garanta que todo mundo tenha um tempo para descansar, refletir e ficar junto. Querer dar o melhor de tudo que existe para o seu filho pode não ser a melhor política”, explica. No site do grupo criado por Bernadette e Carrie (slowfamilyliving.com), sobre o qual falamos acima, há outras sugestões. 
Ou, então, siga o conselho de Sara Scott, mãe de Sebastian. Ela decidiu não colocar o filho de 3 anos tão cedo na escolinha.Em vez disso, estimulou-o a aprender no dia a dia: ouvindo música, brincando e lendo livros que ele mesmo escolhe. Depois de uma visita ao zoológico, ela lembra como o filho ficou feliz só de brincar de subir e descer escadas e fingir que era mais alto que seus amigos. “A gente nem precisou ver todos os animais para aproveitar ao máximo aquela visita”, conta. “Simplesmente ficamos brincando por ali, cantando e curtindo aquele momento maravilhoso”. É isso: a vida acontece agora. Se a gente não tiver tempo pra ela já, quando é que vai ter? 
 

 

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