Família

“A brincadeira é a manutenção da vida”, diz diretora do filme Território do Brincar

Junto com seu marido, David Reeks e seus dois filhos, Renata Meirelles viajou pelo pais captando as atividades das crianças

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

A língua portuguesa é a única que tem a palavra brincar em seu vocabulário. Os outros idiomas contam com verbos semelhantes como jogar, recreação, divertimento. Mas a brincadeira em sua essência mais pura e verdadeira é coisa nossa. sua importância para o desenvolvimento infantil é inestimável, pois é uma forma de as crianças se vincularem com o mundo, se divertirem e se socializar.  Os documentaristas Renata Meirelles e David Reeks, pais de Sebastião e Constatin sabem disso e com essa ideia em mente percorreram o Brasil, entre os anos de 2012 e 2013 ao lado dos filhos visitando comunidades rurais, indígenas, quilombolas, grandes metrópoles, sertões e litoral revelando as brincadeiras em diferentes localidades do País.

A experiência resultou em um documentário chamado “Território do Brincar”, realizado em parceria com o Instituto Alana, correalizador do projeto.

A pré-estreia do filme acontece hoje em São Paulo, como parte da programação da segunda edição da Ciranda de Filmes. No dia 28, o longa estreia oficialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro e, dia 4 de junho, será sua estreia nacional, em Porto Alegre, Curitiba, Brasília, Florianópolis, Belo Horizonte, Salvador, João Pessoa e Santos.

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A Pais&Filhos conversou com Renata Meirelles para saber mais sobre o filme e sua carreira junto a infância e sua relação com a brincadeira.

Pais&Filhos: Como você viu que a brincadeira poderia fazer parte da sua profissão?

Renata Meirelles:Foram vários fatores que influenciaram minha decisão. eu brinquei muito na minha infância e isso se tornou parte do meu ser. Então, esse lance com a brincadeira sempre foi algo meio óbvio para mim. A partir disso, as coisas foram acontecendo e comecei a encontrar várias pessoas e instituições que faziam trabalhos semelhantes, como o Instituto Brincante, Instituto Alana e outros. E percebi que poderia aprender sobre as crianças a partir da perspectiva infantil. Além disso, sempre quis estar perto das crianças.

Pais&Filhos: Como surgiu a ideia de fazer o filme?

Renata Meirelles: Realizo pesquisas sobre o brincar há muito tempo e cada etapa é uma descoberta. Em minhas vivências descobri que o brincar em diferentes regiões do Pais é muito mais similar do que a gente pensa. Nos locais que passamos vimos diferentes crianças se dedicando às mesmas atividades. Acredito que o documentário é uma excelente forma de dialogar com o universo infantil e mostrar aos adultos que as crianças brincam e brincam muito.

Pais&Filhos: Como você acha que os adultos enxergam a relação das crianças com o brincar?

Renata Meirelles:Já ouvi muitos adultos dizendo que a criança de hoje em dia não sabe brincar. Acredito que isso seja um reflexo claro de que não estamos olhando direito para as crianças. Quanto mais acreditarmos que as crianças não brincam, mais teremos que ocupar seu tempo ocioso com serviços, cursos ou instituições, e consumir brinquedos e aparelhos eletrônicos. Por isso precisamos saber que cavoucar a terra, procurar insetos nas plantas, brincar de casinha, construir brinquedos e tantos outros aspectos são necessidades essenciais das crianças e correspondem ao seu brincar atual e atemporal

Pais&Filhos: Qual sensação você gostaria que o filme transmitisse ao público?

Renata Meirelles: Queremos dar voz às crianças e apresentar o que fazem. Nossa intenção é que os adultos também entrem em contato com a criança que habita dentro deles, mas está esquecida. Queremos falar de todos nós por meio dos gestos de crianças brincando, como se pudéssemos fazer um retrato humano através dessas brincadeiras que dizem respeito a arquétipos e a um inconsciente coletivo do homem.A atividade de brincar é muito séria, há muita entrega e dedicação. O adulto está sempre vinculado ao passado ou planejando o futuro, queremos que eles se situem no presente.

Pais&Filhos: Qual foi a reação dos adultos que assistiram o filme?

Renata Meirelles: Não houve ninguém que passou insensível ao ver as imagens do filme. O tema e a forma como estamos abordando o assunto realmente toca as pessoas. O longa fala do ser humano na sua origem, e não exclusivamente da criança. A brincadeira é a manutenção da vida e é comum a todos.

Pais&Filhos: Você quer dizer que somos unidos pela brincadeira?  

 Renata Meirelles: Sim, no Território do Brincar é todo mundo igual, as crianças podem até morar em lugares distintos e ter condições sociais diferentes, mas na hora da brincadeira essas características ficam em segundo plano. O gesto durante a brincadeira é o mesmo, isso faz parte da nossa essência.

Pais&Filhos: Como foi o processo de filmagem?

Renata Meirelles: Nós fizemos um roteiro de 21 meses corridos na estrada. Ficávamos em média de 1 a 3 meses em cada local e contávamos com uma produtora de campo em cada lugar. Antes disso, fizemos um trabalho intenso de pré produção e visitamos os locais. Então pessoas já sabiam que nós íamos passar por lá. Foi uma experiência muito rica, conseguimos criar vínculos com as crianças, queríamos que elas sentissem que éramos seus parceiros e mergulhávamos na rotina daquelas crianças. Apresentávamos imagens dos locais por onde havíamos passado e elas logo se identificavam com as brincadeiras que mostrávamos.  Também contamos com a ajuda dos nossos filhos, que na época tinham 2 e 4 anos, eles eram uma porta de entrada para nos aproximarmos das crianças, pois eles se viam e logo começavam a interagir.

Pais&Filhos: Você é uma entusiasta da brincadeira nos bancos de areia e no filme têm muitas cenas que mostram diferentes crianças brincando na areia. Qual significado esse espaço tem para você?

Renata Meirelles: Eu vejo o banco de areia como um oásis para a crianças. Nas minhas pesquisas percebi que elas buscam vínculo com o chão para brincar. Gostam de procurar coisas no chão, desenhar, pisar com os pés descalços. De certa forma as crianças precisam encontrar esse chão no mundo. Um tanque de areia permite que elas façam inúmeras investigações. Lá elas não fazem movimentos bruscos, ficam concentradas se dedicando à brincadeira. É algo que vem de dentro para fora, entende? Deveria ter uma lei que decretasse que toda escola teria um banco de areia, pois ali ninguém ensina ninguém e todos podem ser quem são.

Pais&Filhos: Como você acha que os pais podem interagir com a brincadeira dos filhos?

 Renata Meirelles: Primeiramente eu gostaria que as pessoas tivessem mais tempo de relação. Acho que os pais precisam de mais tempo com os filhos sem fazer nada, apenas ficar todo mundo junto sem planejamento, sem proposta e deixar que as coisas aconteçam espontaneamente. Não precisamos estar o tempo todo brincando com os filhos. Mas é importante não fechar o canal e comunicação com elas. De forma geral, acho que as crianças precisam viver o ócio também,  

Pais&Filhos: Quais são os próximos passos do projeto?

Renata Meirelles: Realizo um trabalho com formação de educadores, por isso quero levar essa discussão para dentro da sala de aula. Além disso, estamos produzindo duas séries para TV direcionadas ao público infantil e outros dois livros estão em vias de acontecer.



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