Colunistas

Olhando para novos 8 de março

No mês das mulheres, a colunista Cecilia Russo Troiano mostra que ainda não há equilíbrio entre os gêneros e todo o caminho que precisamos percorrer

Pelo jeito, apenas um dia para celebrar o Dia da Mulher não é suficiente. Tomamos o mês todo para nós. Março é nosso! Muitas pessoas criticam a existência dessa data, achando que todos os dias são dias para celebrarmos as mulheres. Homens, por sua vez, pleiteiam um dia deles também. Mas vale lembrar que a origem dessa data remete ao século passado, quando operárias lutavam por seus direitos trabalhistas e de cidadania. Diferentemente dos homens, mulheres realmente precisavam da demarcação de um dia para lutarem para verdadeiramente fazer parte da sociedade. 

Hoje, muitos anos depois, ainda temos espaços para lutas feministas. Aliás, essa palavra no Brasil ficou bastante estigmatizada, remetendo à ideia de mulheres mal amadas e briguentas. Na verdade, todas as mulheres (e homens) que são contra a violência contra a mulher, que querem equidade salarial de gêneros, que buscam uma divisão mais equilibrada das tarefas da casa entre gêneros, são feministas. Ficou para trás a ideia de uma feminista carrancuda e briguenta. Também é passado a mulher querer estar “no lugar” do homem. Mulheres não querem estar no lugar dos homens, não é isso que a terceira onda do feminismo prega. Aliás, prega-se hoje muito mais a pluralidade feminina, com múltiplas formas de representação, onde cor, etnia, classe social, preferência sexual, definem lutas muito específicas.  Ser feminista, seja de qual “onda” for, é esperar que homens e mulheres, de todos os tipos, sejam tratados enquanto cidadãos, de forma igualitária. Quem não quer isso?  Talvez a luta de hoje possa ser chamada de uma luta pelo equilíbrio e não mais uma luta pela igualdade. Afinal, o que buscamos é um mundo mais equilibrado,

No campo das mulheres que trabalham, por exemplo, ainda há muito espaço para buscarmos esse equilíbrio em nosso país. Em várias matérias que li durante esses dias de celebração do mês da mulher, quase todas dedicam-se a mostrar onde evoluímos. Isso é bom, mas pode nos dar uma falsa sensação de que está tudo resolvido. Queria aproveitar e trazer 4 temas que ainda merecem nossa contínua atenção e ação. São coisas que podem não afetar a classe média brasileira diretamente, mas que dizem respeito, sim, à vida de muitas mulheres. Mulheres essas que merecem e buscam também ser homenageadas neste mês de março.  

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1. Segundo levantamento do DataPopular, o que as mulheres ganham hoje é o que os homens recebiam em 1993.  Ou seja, para a equiparação salarial entre homens e mulheres, ainda estamos quase 20 anos atrás. 

2. No Brasil, o número de mulheres em postos de comando ainda é pequeno: elas são 5% dos presidentes de empresas e 20% dos diretores. Ou seja, ainda há muitos postos na alta liderança para serem ocupados pelas mulheres. 

3. Uma pesquisa organizada pelo professor da Faculdade de Sociologia da USP, Gustavo Venturi, “Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado”, mostra que a violência contra a mulher permeia toda a sociedade, seja qual for o recorte, renda, cor, escolaridade, região, ou outro fator. Os resultados mostram que a cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas no Brasil! 

4. O número de mulheres encarceradas no Brasil cresceu em 42% de 2007 para 2012. Por que mais mulheres presas? Difícil questão, mais ainda para ser discutida em poucas palavras. Mas uma das hipóteses é que mais mulheres cometem crimes para poder sustentar suas famílias, uma vez que pelos dados do PNAD, mais de 37% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. Pressionadas pela sobrevivência, o crime é uma das “saídas”. 

Leia também: 10 direitos das mães: bandeiras que ainda fazem sentido levantar

De jeito nenhum quero ser “deprê” ao colocar o dedo nas “feridas”. Mas olho isso com uma visão muito positiva. Precisamos encarar tudo isso e seguir merecendo a homenagem que esse mês de março nos proporciona. Talvez alguns de vocês possam estar se perguntando o que esse tema tem a ver com um espaço para discutir a maternidade/paternidade. Para mim, a ponte é clara e muito relevante. Se somos pais e mães e queremos um mundo melhor para nossos filhos, precisamos a batalhar pelo futuro deles agora. Certamente, olhar atentamente para a desigualdade de gêneros é lutar para uma vida dos nossos filhos lá na frente. Vamos celebrar nosso mês de março em 2014 com tudo o que merecemos e trabalhar todos os dias do ano para que as futuras gerações possam celebrar, com muito mais vitórias, novos 8 de março.

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