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Maternidade global: mães brasileiras, mães americanas

A colunista Cecilia Russo Troiano, que mora nos Estados Unidos, fala das diferenças e semelhanças das mães brasileiras com as americanas

Estou tendo a rica experiência de, por um tempo, viver com minha família nos Estados Unidos onde estou dedicada a um mestrado em Women’s Studies (uma área dedicada a explorar temas relacionados aos gêneros). Aqui vivo uma vida de estudante combinada com vida de mãe e profissional com a possibilidade de tocar a carreira com o apoio da tecnologia. Mas além de todos esses papéis (ou talvez por causa deles) o que mais faço aqui é observar a vida das pessoas para entender o jeito de viver americano.  Melhor dizer que observar me faz entender ainda mais quem somos nós brasileiros.

Nessa vida de “voyeur” na terra do Tio Sam o que mais me chama a atenção é observar como as mulheres vivem a maternidade por aqui e de que forma a mãe americana é diferente da nossa forma brasileira de ser mãe. Divido com vocês um pouco das observações com essa “espionagem”.

1. Mães americanas não tem licença maternidade! É verdade, um país super desenvolvido não oferece nenhum apoio legal para que as mães que trabalham fora possam dedicar um tempo ao bebê. Algumas empresas, por iniciativa própria concedem algumas semanas, mas isso não é regra e muito menos lei. Diferentemente, as brasileiras contam com o apoio da lei e desfrutam, remuneradamente, de 4 a 6 meses de licença, dependendo de onde trabalham.

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2. Mães americanas têm mil apetrechos e produtos de todos os tipos para educar, cuidar e gerenciar a vida dos filhos. Basta ver uma mãe americana sair com o filho para passear para ver o número de itens que elas têm que, de uma forma ou de outra, dão uma mão: cadeirões portáteis que se acoplam a mesas de restaurante ou a mesas de piquenique no meio de um parque; infinitas opções de lanchinhos saudáveis, de todos os sabores e formatos; carrinhos de bebê em modelos para todos os gostos e número de filhos. Sem falar que tudo isso a preços acessíveis à maior parte da população.

3. Mães americanas são maníacas por gel antisséptico. Carregam no carro, pendurados na bolsa, na mochila das crianças e não perdem uma chance de despejar umas gotinhas para não correr riscos. Vejo muitas mães brasileiras com filhos pequenos também adotarem tal hábito, mas não na mesma intensidade que por aqui.

4. Mães americanas se voluntariam para tudo. Na escola, na igreja, no bairro, no condomínio. Basta ter uma chamada que elas estão presentes. Acho isso bem bacana. Essa integração das mães americanas com a comunidade é muito forte e vejo ainda de forma bem pontual essa vocação nas mães brasileiras.

5. Mães americanas são mães-canguru. Como por aqui não existe a figura da babá, apenas “baby-sitter” que cobram valores bem altos por hora, é comum que as mães carreguem os filhos para todos os lados onde vão. Mesmo que seja apenas para colocar o lixo para fora de casa, lá está a criança carregada no colo e na outra mão da mãe o saco de lixo. No Brasil, algumas famílias de classe média para cima contam com apoio de babás que dividem com as mães algumas tarefas.

Mas no fundo o que observo nessa minha vivência por aqui, apesar dessas aparentes diferenças, é que somos muito mais parecidas do que imaginamos à primeira vista…

1. Vibramos loucamente por um filho na beira de um campo de futebol, seja a “pelada” da escola, seja o jogo de futebol americano. A emoção da mãe-torcedora é a mesma;

2. Somos igualmente cheias de culpas, sempre achamos que poderíamos ter feito diferente ou melhor. A conta está no “vermelho” para ambas, mesmo que nada de concreto mostre isso: sempre as mães sentem que não são tão presentes, que o bolo dessa vez não deu certo e que a mãe do amigo é mais legal.

3. Perdemos o sono na mesma intensidade. Lá e cá mães ficam virando na cama quando algo na vida dos filhos é motivo de preocupação. Pode ser um resfriado, uma primeira excursão da escola ou uma nota baixa na escola.

4. Por falar em excursão de escola, dar tchau na hora do ônibus sair é universal. Uma fila de mães à espera da partida do ônibus, com olhares fixos nas janelinhas buscando o tchau do filho, que nem sempre vem. Lá e cá filhos muitas vezes antes do ônibus sair já estão entretidos com os amigos e esquecem de dar o tchau de volta para as mães, para frustração de todas, brasileiras e americanas.

5. Ávidas consumidoras de informações, brasileiras e americanas trocam dicas sobre a maternidade, leem muito e não perdem uma chance de compartilhar sua experiência como mãe criando blogs e mais blogs. No Brasil e EUA há blogs de mães de todos os jeitos, cores e formatos.

Pois é, minha iniciativa de espiã começou buscando diferenças, afinal, somos tão diferentes! Mas para minha surpresa o que descobri é que nossa identidade como mães nos torna muito parecidas em nossa essência. Compartilhamos sentimentos que nos unem como mães mesmo que os instrumentos para esse exercício possam ser distintos. Relendo a lista de itens que trouxe aqui, os primeiros 5 que apontam as diferenças se relacionam a “coisas que podem ser compradas”, em sua maioria. Isso é inegável: a oferta de produtos nos Estados Unidos faz a mãe americana ser muito diferente mesmo da brasileira. Por outro lado, os 5 itens que expressam as semelhanças retratam a essência da maternidade, algo muito mais profundo e universal. Falo aqui de sentimentos que vivenciamos como mães que são mais fortes do que qualquer diferença geográfica.

Fico feliz com a conclusão de que “mãe é mãe” e pouco importa o passaporte. A maternidade também é globalizada.

Pais&Filhos TV