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Yoko Joca – uma criança imaginando a paz

Sinto uma quase inveja dessa liberdade, desse descompromisso com o externo

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Na exposição interativa “Imagine Peace” da artista Yoko Ono, Joaquim escolhe pedras pretas grandes, as que cabem em suas mãos e as coloca na pilha da felicidade. Escolhe umas menores e as coloca displicentemente na pilha da tristeza. Vai e volta algumas vezes nesta ação e depois se joga de barriga na montanha da felicidade – até o segurança pedir gentilmente que a mãe aqui o proíba desse mergulho.

– Sim, sim, ok. Filho!!!

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Tento chamar enquanto ele se anima com a árvore dos pedidos – ele pediu para ver filme abraçado comigo sempre. Os pregos e o martelo – por que cai no chão, mãe? Por que tem esse buraco aí? O quadro de tintas – o vermelho é meu, mãe. O xadrez branco – anda na dizagonal. O vídeo do bumbum, da mosca – olha, o bumbum, as coxas e o… Saco, mãe. Por que tem uma mosca no corpo dela? O vídeo do Lennon, por que ele não faz nada? Eu quero a moeda de sal com tigre de fogo – tigre, segundo seu amigo Matias. E corre. Corre. Abre a boca e canta/fala narrando de si para si tudo que passa por si.

Sinto uma quase inveja dessa liberdade, desse descompromisso com o externo, dessa apropriação deste corpo experimentando estes espaços de formas tão sem palavras para contar. Por outro lado, porque a vida não é só bonita, não dá para dizer que não cansa num cansaço extremo (que aparece no final da empreitada) e que gera a vontade de ter poderes mágicos. Mágica para escapulir de lá, da exposição, diretamente para o banho quente e a cama para dormir. Tudo isso assim pronto. Sem o processo de resgatar o filho da alegria da vida no museu com o amigo Matias, para a hora do fim do dia: banho, comida, escovar dentes, pijama, história, massagem, suco, água, xixi, mais carinho, luz baixa… Afe.

É um misto de irritação corpórea que surge pelo sangue da mãe, por ser a pessoa que o “ser filho” simplesmente não dá ouvidos, e que foge e continua a sua celebração da liberdade na imaginação da paz… É um misto entre a irritação e a admiração por este “ser” com tanto entusiasmo ser também e simplesmente o teu filho.

Agradecimento para as mães do Matias, Mari Piza e Nina Blauth. O lá em casa!

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