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Uma conversa entre outono e bronquite

"Joaquim entra em outono, como tantas outras crianças, com a incrível possibilidade de adoecer os pulmões"

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(Foto: Shutterstock)

Outono é um tempo entre verão e inverno, um lugar entre estações antagônicas. Um lugar incerto. Neste, um peito não cala. O movimento agita as costelas, a barriga sobe e desce e fura o orifício da garganta. Nada mais. Alguma tosse leve, talvez. Come bem e não se sente mal. Joaquim entra em outono, como tantas outras crianças, com a incrível possibilidade de adoecer os pulmões.

Segunda feira estava com este peito, costela, barriga tudo junto no ar. Em movimento frenético, de leve, mas gerando suspense em relação ao que virá em seguida. Quando o filho pode ter uma crise de bronquite, a gente sabe que tem de focar o olhar nesse frenesi. Pois então, fim de noite e aquilo continua a incomodar. Pronto socorro. Hospital cheio. Outono de pulmões. Sobe direto para o “ataque”, para equilibrar a saturação. A médica avisa que vai internar pelo nível baixo da saturação. Lá vamos nós. Um tanto de mães que se olham, sem nenhuma intimidade, mas com certeira cumplicidade pelo saber do que se passa na sala da fumacinha.

Cinco noites e seis dias. 
Primeiro dia dormimos no corredor, ele deitado com a máscara eterna do oxigênio, eu e o pai sentados com um ar condicionado nas costas a valer. Me fazendo pensar que teria de aguentar para minha imunidade não cair com aquela porrada fria.

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Segunda noite, enfermaria. E todos os barulhos, gritos, choros, ruídos de uma ala de hospital que socorre. Dá para observar quantos hospitais existem num só hospital, a depender do andar.

Terceira, quarta e quinta noites, no quarto, 13andar, outro hospital. Outro silêncio, outras relações. Joaquim permaneceu 3 dias inteiros com a máscara de oxigênio, entendeu que tinha que ser assim, aceitou. Furou a mãozinha para receber antibiótico, cortisona, soro e soro. Rosto inchado e as marcas da máscara se fizeram ver.
Aspiração nasal e a vontade de dar um tapa em quem cuida do seu filho. Gritos e irritação. Choro magoado. Eu ligo a ficção em mim. A partir dali, sou um eu ficcional, uma mãe que olha e toma decisões enquanto mantém uma linha suspensa chamada fé diante dos olhos. Dá para pega-la na mão. Às vezes até tropeça.

Fisioterapia pulmonar. Umas “tias” com jeito, outras sem nenhum, só protocolo. Quase que o tapa vai.
Enfermeiras calmas, amáveis. Médicas que mandam para uti, médicas que suspendem a UTI, médicas que suspeitam de objeto estranho no nariz, médicas que suspeitam que não seja mesmo um objeto estranho no nariz. Mãe que faz um “clique” entre a que se compromete em ser a real e a ficcional, que juntas, apoiam o não exame da pinça do objeto estranho.
Os moleques ligam para dar um apoio moral, Joaquim se sente importante. Amor da irmã, amor da mãe da irmã (que não sou eu, é a tia Ozani!), mãe e pai juntos no antagonismo do dia que segue lá fora e da vida sem tempo de dentro do hospital.

Joaquim ensinou a se ser. Se curou. Ensinou a permanecer e a esperar a poeira baixar. Lá fora, venta. Faz frio na sombra e calor no sol. Lá dentro, venta nos pais a percepção do sentido da vida. Faz frio sem a casa e a cama, e calor quando entram no quarto o “ser verde”, a princesa e a chapeuzinho vermelho. As meninas que animam as crianças doentes fazem as risadas saírem das bocas, o menino tossir mais ainda e a vontade dele de voltar a ficar em pé. Mãe, eu sou o príncipe!

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