Colunistas

Um dia na casa dos avós e o que seria de nós sem os avós? Seria dia?

No domingo tenho vontade de visitar meus pais, chego lá e quase me arrependo

Antes de começar, introduzo esse lembrete importante: a gratidão pelos avós é enorme e sem medidas! Sem a avó do meu filho muita coisa simplesmente não aconteceria para os pais e para o filho. Mas, lembro também que essa coluna é das malditas e por isso não vamos colorir. Isso muita gente já faz e muito bem feito. Vamos apimentar um pouco, sim? Sobre o dia na casa dos avós então!

É um tipo de amor que também é pura ansiedade. Já na chegada, os avós esperam o neto com seus olhos famintos e seus corações esfomeados. Eu já respiro fundo para aceitar e receber. O neto acorda, não dá para dormir nesse ambiente de espera e chamas. Começa, então, a disputa de colos, passa de um para o outro enquanto não chegam os tios. A avó só fala dos seus dois filhos homens para o neto como se fossem os tios mais incríveis do universo. O neto arregala os olhos e escuta. Ele é uma simpatia, sorri, gargalha e se diverte. O avô fica com o neto no colo enquanto seu braço inflamado aguentar e logo o deposita em algum outro colo mais próximo. Quando o devolve para mim – a mãe -, fica nos perseguindo a cada passo me deixando até tonta. A televisão está sempre ligada, enorme no meio da sala em alto e em bom tom.

Eles (a família) não vivem sem a televisão, é mais um parente. O mais ouvido, inclusive. Enquanto o almoço é feito iniciam-se os comentários sábios: olha como ele gosta de ver tevê! Quer uma picanha? Olha só, ele sorriu, então quer… Deixa ele com a chupeta. Ai, tira a chupeta dele. Sua mãe não vai deixar você comer carne com o vovô? Acho que ele quer ficar aqui. Estava com saudades da vovó. Do vovô. Fala com seu tio. Faz aquele sonzinho novo! Tira a mão da boca. Ele tá passando fome. Dá o peito pra ele, ele tá com fome. Ô judiação. Tadinho, tá com frio. Tadinho, tá com calor. Tadinho, ele quer comer. Tadinho, ele quer participar. Em dezembro ele vai estar com quantos meses? Olha para a vovó, olha para o vovô, olha para o titio! Tira a mão da boca. Pode almoçar, eu fico com ele.

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Primeiro, ele vê a televisão com tanta dedicação porque em casa ele não a assiste (só assiste futebol com o pai e com a mãe), então, imagina o que é para um bebê uma tela enorme colorida que fala e se movimenta? Segundo, os pais não comem carne vermelha, por que o filho iria comer tão no início da vida? Mais tarde, ele poderá escolher, por enquanto, nós (os pais), decidimos o que ele come ou não come. E pronto. Terceiro, quando ele tá com fome a mãe (eu) dou o peito para ele, simples assim. A criança não reclama só de fome, sabiam? É tão chato assim suportar um bebê em reclamação? A partir desse momento, a mãe é sempre a desnaturada que pode resolver o problema dos outros. Judiação? Sabe o que significa essa palavra? Significa: ato de judiar, atormentar.Perversidade. Hein? Oi? Pois não? Que horas o neto passou por isso hoje? Quarto: tadinho de quê? Tadinho vem de coitado: desgraçado, infeliz, mísero, digno de dó. Oh não… Oi? Hein? Pois não?

Quinto, ai meu deus, o natal! Sexto, eu quero almoçar com meu filho também à mesa, participando e compreendendo que ele é importante, que as pessoas estão juntas para almoçar e conversar e que ele pode fazer parte disso. De que o mundo é um lugar coletivo onde ele não é o protagonista sempre, que ele pode esperar, ouvir e estar junto. Tranquilo. Bom, para ser mais sucinta, voltei para casa cansada.

Chega o domingo e tenho vontade de visitar os meus pais com meu marido e filho, chego lá e quase me arrependo de termos ido. Deve ser um tipo de provação ter o desejo de pertencimento, ter o desejo do coletivo, de um lugar para voltar, do lugar de onde se veio. Mesmo que este seja tão equivocado muitas vezes. Mas, voltamos para casa conversando sobre o dia e meu marido sempre me faz pensar e perceber que toda essa experiência familiar é uma forma de amor. Isso tudo que vem da família, que cansa, mas que ama. E ama como pode, como dá e como é. Não dá para ser diferente. É um exercício constante, quando se tem um filho, encontrar as formas de se relacionar com o mundo a partir da união pais e filho. O que queremos que nosso filho veja e experimente naquilo que o ajudará a construir-se? Tem inseguranças e tem decisões, a partir dos valores e princípios nos quais vivemos, e que muitas e muitas vezes são tão diferentes dos valores de nossos pais e familiares. Mas vive-se junto com tudo isso, precisa-se de tudo isso. E tem o amor eterno pelos nossos, que são diferentes de nós, mas que são os nossos, e são únicos. Não dá para mudar de família, gostando ou não de quem te pariu nesse mundo. Então, grata, grata e grata mais uma vez aos que me pariram. E, amando-os nessas diferenças, como não manda-los, de vez em quando, para a puta que os pariu?

 

Tatiana Schunck é atriz-dramaturga, mãe de menino, madrasta de moça. Mulher, desesperada e pessoa difícil. Vive na profundidade, gosta de gente estranha, faz lista de irritações e não acha tudo normal.

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