Colunistas

O cocô noturno

De quando o menino decide por conta própria usar o penico

Numa noite dessas, meu filho estava excitado e super acordado. Jantamos, tomamos banho, brincamos, acarinhamos e o preparamos para dormir. Como sempre é há dois anos. Mas nesta noite o menino rompeu o tempo. E de que forma? Simplesmente ele olhou para mim e disse: “Mamãe, quédesxê! Quédesxê! Quédesxê!”, que significa: “Quero descer”. Eu o olhei espantada pela clareza da vontade própria e disse: “Quer descer para quê, filho?” Quédesxê! Criança tem uma forma estonteante de dizer o que quer e de decidir o que será feito muito antes de você decidir se vai descer com ela ou não. Quando eu estava pensando se descíamos ou se enrolava o pequeno ser pelo corredor do andar de cima, ele já estava com tênis nos pés… Pode? Pode sim. Só tem dois anos e um mês e o bicho já sabe tudo, tudo mesmo! Pois então, descemos.

Lá na cozinha, o moleque pega um livro sobre penicos e meninos de cuecas e outro com um ratinho com fralda limpa porque fez cocô no penico… Ok. Daí, pega o pinico que estava no banheiro e senta de fralda. Depois levanta, pede para tirar a calça, pede para tirar a fralda, mostra suas coisas todas livres e senta-se no penico. Feliz, muito feliz. Sorri e ri alto enquanto franze os olhos e o nariz de forma encantadora. Pede os livros abertos na sua frente para ver como se faz… Isso digo eu, claro. Porque o que ele está elaborando mesmo naquele momento pertence mesmo somente a ele. E por mais que desejemos saber o que se passa no âmago do pequeno ser, ficamos somente com o que ele já elaborou, meu amor. Portanto, contente-se em ser feliz por ser convidada a participar do evento: o cocô noturno!

Depois de uma hora mais ou menos, com ele sentando e levantando e sentando e se limpando e jogando o papel no lixo e voltando e sentando e abrindo o livro e limpando e levantando e, tudo isso, sorrindo, sorrindo e sorrindo. Tão bonito o meu beb… menino! Menino, menino bonito. Ficamos lá, eu, o moleque e o pai – nós, os pais, nos sentindo emocionados com a possível chegada do cocô ou do xixi no pinico. Ele se limpando: era o movimento mais belo que alguém pode fazer. Nós, os pais, com olhos de beleza acompanhando toda a descoberta do filho, com amor, com tanto amor. Oh, senhor!

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Daí subimos, o pinico ainda vazio, mas pleno e cheio de esperanças dos xixis e cocôs que virão algum dia… Ninamos juntos o nosso filhote, cansados, mas cheios de presentes. E numa presença plena de termos vivido aquilo juntos. Como pode, na ordem do humano, nos sentirmos tão felizes e preenchidos pelas quase-quase escatologias da cria? Pode mesmo? Ah, que amor.

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